19/04/2009 Número de leitores: 1007

Poemas do quintal

Rubens Jardim Ver Perfil

Por Rubens Jardim


Paulo Marcos del Greco é um dos poetas mais injustiçados deste país. Publicou um único e excelente livro nos anos 60, Lamentações de Fevereiro, na coleção Novíssimos -- do Massao Ohno. Depois disso, que eu saiba, só um trecho desse poema foi republicado na Antologia Poética da Geração 60, organizada pelos poetas Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés.
Pode-se até buscar justificativas para isso em sua produção de um livro só. Pode-se também atribuir-lhe a classificação ? criada por Manuel Bandeira ? de poeta bissexto. Mas não consigo engolir nenhuma delas. Afinal, Rimbaud publicou muito pouca coisa e o nosso Augusto dos Anjos ? um livro só. E ainda hoje eles estão aí, vivos, publicados, e presentes em tudo que é história da literatura.

E como vocês poderão ver, nesse trecho inicial do livro Lamentações de Fevereiro, a poesia de Paulo Marcos del Greco é das melhores já publicadas no Brasil. O poema abre exatamente com o mesmo verso com que Camões dá início ao seu célebre poema Babel e Sião.
(Sôbolos rios que vão por Babilônia...)



Sôbolos rios que vão por Babilônia
o tempo de chegar gerou a espera
e as mãos que me seguiram no caminho
teceram o foi e o que não era.
Sôbolos rios, tristes águas noites,
Babilônia outra vez ressurge em dias
e presente é passado e história é fuga
do escuro de teus olhos quando vias.
Por que tempo de amar, por que destêrro
nessa esfera armilar dentro do escuro,
onde barões assinalados, rudes,
cruzam as armas sobre a cruz de um muro?
Aqui é Babilônia. É parte alguma
onde tudo está. E armado em sangue
singra o tempo vazio o espaço exangue.

As palavras estão cansadas.
Sem deuses, a palavra cai
na conjura dos povos,
dorme no sobressalto das sílabas
e ressoa difícil, inquieta
no labirinto dos significados.
Semente que aguarda a madurez dos mitos
Palavra
árvore de lúcidas sombras
e frutos pressentidos
nas raízes.

Inútil lutar nesse horizonte de gritos
Inútil crispar mãos, ritos e gestos
para a chegada dos tempos
em que amor fale de nós.
Mas nossa voz é gasta
como o olhar dos mortos
e os ritos já se perdem na pronúncia dos ventos
dissimulados no perfil de outrora.
Resta o gesto que somos
na escuridão sem memória.
Pois o que pensamos,
nossa casa onde se diz
mesa, leito e cartas esquecidas,
o vaso de flores absortas
e livros longamente tocados no vazio das noites:
é ceia na memória.
A simples memória de sermos o fruto
de sabor prematuro nas línguas do vento
agitando vozes de outra essência
pelas estradas de Fevereiro.
Mas permanecemos. Aqui. Sobre coisas ocultas.

Aqui. no que nos mantém,
pois mantemos o que nos mantém,
fiéis a um compromisso de vozes
articuladas sem berço.





POEMAS DO QUINTAL

Paulo Marcos del Greco



O GALO

Na Cruz principia o sentido do meu canto.
Fiel ao tempo, esta planície que ignoro,
desperto os sinos, os lençóis, a pressa,
o repetido exercício da vida humana.
No último dia, quando se confundirem céus
e terra, ainda estarei ali e levantarei
minha garganta ao Senhor, pedindo a graça
de permanecer em silêncio, sem mais os dias,
sem mais os homens.



O PERU

Não se sabe o que vê. A aurora da cauda
levanta o dia num breve rumor de penas.
De um orbe a outro, o paraíso é um extenso
milharal de ouro. Desconhece o tempo, como
certamente ignora as secretas penas do que
não é belo. Talvez cante algum princípio
de felicidade que não alcançamos. Não se sabe
destinado à morte, aos casamentos, aos natais.
Mas ali está, na forma exata do instante
e nunca se repetiu na pele das águas
para que uma vez fosse Narciso.
Porém o leque que abre e cerra à nossa imaginação,
talvez o mova só por indiferença, por uma árdua
necessidade que nos foi vedada.
Apenas o grito, baço e rouco, lembra que afinal
tudo é pó e ao pó tornará, com os casamentos,
os natais, as miúdas alegrias que povoam o chão
comum.



A BORBOLETA

A memória dos homens
é povoada de impérios,
de duras coroas e espadas,
do rumor de altos momentos,
da melodia que a lágrima consagra,
de ruas que se perdem,
de rostos que se apagam,
países que jamais pisaremos,
palavras e datas que nunca voltarão.

Eu quero guardar apenas o instante
em que leve e azul e transparente
pousaste na nudez da minha mão.



A LESMA

Senhor, não me confiaste a graça da beleza,
não mereci a rapidez da corça
nem ganhei plumas que me dessem cores.
Lentamente, sobre o chão que me deste,
busco entender o que me foi destinado.
O aljôfar das noites inutilmente passa em minha pele.
Castiga-me a nitidez do sol como uma idéia fixa.
Sou só.
Na multidão de Teus seres perco-me para encontrar
o que me salvaria.
Fiel à sem-razão de não ser nada,
peço, Senhor, que estendas sobre mim
a piedade dos homens.

E que uma vez, uma só vez,
movido por algum sentimento que ignoro,
alguém me tome em suas mãos
como quem colhe flores.



A MINHOCA

Não fui eleita
não sou bela,
nem sei se existo
ou apenas insisto
em anular-me sob a terra.



A FORMIGA

O mundo é o atarefado desabar de renovadas
aparências de sentido tão secreto como
o nome de Deus. Eu sou apenas uma entre
as menores.
Na consumação dos tempos, depois do último
inverno e do último grão, talvez me esteja
reservada a felicidade de um mundo estável,
perene, necessário. E então não serei mais.



O CÃO

Pois que ficaste do nosso lado és quase humano.
Com o primeiro afago apago o que tens de cão
e dou-te meu nome, chamo-te meu irmão.

 

 

 

 

 

Rubens Jardim, 62 anos, é jornalista e poeta. Publicou poemas nas antologias: 4 Novos Poetas na Poesia Nova (1965, SP), Antologia da Catequese Poética (1968, SP), Poesia del Brasile Doggi (1969, Itália), Vício da Palavra (1977, SP), Fui Eu (1998, SP), Poesia para Todos (2000, RJ), Antologia Poética da Geração 60 (2000, SP), Letras de Babel (2001, Uruguai), Paixão por São Paulo (2004, SP), Rayo de Esperanza (2004, Espanha), Congresso Brasileiro de Poesia (2008, RS). É autor de dois livros de poemas: Ultimatum, Espelho Riscado e Cantares da Paixão. Promoveu e organizou o ANO JORGE DE LIMA em 1973, em comemoração aos 80 anos do nascimento do poeta), evento que contou com o apoio de Carlos Drummond de Andrade, Menotti del Pichia, Cassiano Ricardo, Raduan Nassar e outras figuras importantes da Literatura Brasileira. Organizou e publicou Jorge, 80 Anos, uma espécie de iniciação à parte menos conhecida e divulgada da obra do poeta alagoano. Integrou o movimento Catequese Poética, iniciado por Lindolf Bell, em 1964, cujo lema era: o lugar do poeta é onde possa inquietar. O lugar do poema são todos os lugares. E-mail: re.jardim@uol.com.br 

Rubens Jardim