23/04/2009 Número de leitores: 1704

Furacão Fred Forest

Fábio Oliveira Nunes Ver Perfil


Biennale 3000: A democrática Bienal de Fred Forest

 

Que sujeito seria audacioso o suficiente para propor em tempos de ditadura militar, uma caminhada pelo centro de São Paulo – do Largo do Arouche à Praça da Sé – com dezenas de pessoas carregando inúmeras placas em branco nas ruas? E como se não fosse o suficiente, criar na mesma época, na XXII Bienal de São Paulo, uma instalação com telefones que possibilitavam disparar mensagens políticas aos quatros cantos do pavilhão da exposição? Ou ainda, ir para a Bulgária, em tempos de regime comunista, se candidatar para a presidência da televisão pública local, fazer campanha anunciando uma televisão mais “democrática” e ser convidado a sair por não ter mais sua “segurança pessoal garantida”?

 

Poucos na breve história da arte e tecnologia foram tão ácidos e críticos quanto o artista francês Fred Forest. Forest é, como se autodenomina, uma espécie de “papa” no que diz respeito sobre a abordagem social das novas tecnologias na arte. Sua produção é permanentemente ativa desde os anos 70 até os dias atuais, em questionamentos igualmente polêmicos. Em outubro de 1973, fez “O Branco invade a cidade”, em uma caminhada de placas em branco pelo centro paulistano. O ato foi interpretado como político, o que resultou na prisão do artista por algumas horas. Como artista e estrangeiro, a prisão repercutiu negativamente nos meios de comunicação internacionais da época. Seu trabalho do branco é acompanhado por outras ações no liminar da discussão do meio e de seu contexto social, como sua inserção de um minuto de branco durante a exibição de um popular telejornal francês, no horário nobre da televisão. Ou ainda, quando publica em jornais de grande circulação (incluindo alguns jornais brasileiros) significativos espaços em branco para serem preenchidos pelos leitores e enviados posteriormente ao artista.

 

Ainda em 1973, Forest participa da Bienal de São Paulo com 10 cabines telefônicas que possibilitam ao público a veiculação de mensagens através do sistema de som da exposição. Assim como as outras ações da mesma época, a ditadura militar se sente incomodada e tenta censurar o trabalho. Do mesmo modo que o “branco” dos cartazes e dos jornais, Forest literalmente dá a voz ao cidadão comum, proporcionando espaços de livre manifestação.

 

Um ano antes, juntamente com Hervé Fischer e Jean-Paul Thenot, Forest funda o Grupo Arte Sociológica que abordará convenções sociais com forte presença de conceitualismos. Dez anos depois, une-se ao teórico Mario Costa para definir a “Estética da Comunicação”, enquanto uma “meditação filosófica” sobre a nova condição do homem diante das novas tecnologias de comunicação. É a partir daí que seu trabalho estará fundamentalmente direcionado ao espaço social da comunicação contemporânea, atuando fortemente nos novos meios. Ele consegue ir além dos meios comunicacionais como interface e/ou suporte, abrindo a discussão sobre o espaço da comunicação em sentido pleno e contextualizado, criando incômodos e estranhamentos muitíssimos conceituais. Em questão, um fluxo não é só dos meios, mas da própria sociedade encapsulada nestes fluxos.

 

Embora o artista assumidamente divida sua produção em Arte Sociológica e a Estética da Comunicação, o que se vê é a união de premissas dos movimentos. Há, na verdade, uma ampliação na noção de contexto para abarcar, além da questão social, econômica, política, também o viés tecnológico. Os meios tecnológicos de comunicação também se fazem presentes enquanto contexto. Um dos exemplos desta postura é a ação promovida pelo artista em 1988, quando resolve mobilizar a cidade francesa de Toulon em torno de uma personalidade fictícia chamada Julia Margaret Cameron. O trabalho “Em busca de Julia Margaret Cameron” é uma tentativa de apresentar os limites tênues da mídia em torno daquilo que é ficção e realidade, e seu poder de influência nos indivíduos. O artista, baseado nos anúncios de pessoas procuradas, cria uma situação que se desenvolve através de cartazes, panfletos entregues em locais públicos, grafite e anúncios no rádio e na televisão, produzindo um sentimento de suspense em torno de uma personalidade que simplesmente desapareceu. O público, por sua vez, é convidado a participar enviando cartas ou mensagens telefônicas, relatando tal mistério – o conteúdo é apresentado em um museu da cidade. Ao final da ação, uma atriz contratada para fazer o papel da procurada personalidade, apresenta-se em carro aberto, como se fosse um triunfante retorno.

 

Mas uma das passagens mais audaciosas de seu percurso é, sem dúvida, sua candidatura para o cargo de presidente-diretor geral da televisão pública da Bulgária, em outubro de 1991. Neste período, o país está sob um governo stalinista, ainda com ressonâncias do antigo regime socialista e sob o apoio da antiga União Soviética (URSS). Utilizando sempre indefectíveis óculos coloridos, Forest se lança em uma campanha nacional defendendo uma programação televisiva mais “nervosa” e “utópica”, uma “reforma” para uma televisão mais livre e interativa, como ele apresenta. A campanha é apoiada pela oposição do governo que vê uma chance de desestabilizar os políticos da situação e alcançar uma democratização mais plena. A ação se torna tão séria ao ponto até mesmo de seu concorrente Ognan Saparev, ser obrigado a aceitar um debate ao vivo pela televisão. Todos acabam tomando a farsa de Forest como verdadeira. Por conta disso, quando faz uma carreata na cidade de Sofia, causando um enorme turbilhão e manifestações populares a favor do candidato-artista, a ação acaba com Forest sendo obrigado a deixar o país, nos termos impositivos de que sua presença já não é mais bem-vinda por lá.

 

Saltando alguns anos, Forest voltou ao Brasil em 2006 para divulgar sua Bienal do ano 3000 – ou simplesmente Biennale 3000 – quando convocou a curadora da 27ª Bienal de São Paulo, Lisette Lagnado, para abrir os portões que separavam seu trabalho (em que qualquer indivíduo poderia inserir um trabalho de arte através da rede Internet) no MAC-USP, da megaexposição que acontecia simultaneamente no mesmo pavilhão. Explica-se: Forest apresentou sua Bienal do ano 3000 no Museu de Arte Contemporânea da USP, situado justamente no mesmo prédio da Fundação Bienal. Alguns metros e um portão separavam o gigantesco evento “restrito” de sua bienal democrática, sem curadoria, livre a todos que se propuserem participar pela grande rede. Vamos viver juntos!

 

Em 2009, estamos no proclamado Ano da França no Brasil. E Forest desembarca no país no final do mês de Abril. Agora, com o auxílio da corrosiva artista Vivian Puxian, atual diretora de projetos do artista no Brasil, promete fazer ruído por aqui: há uma nova versão do site da Biennale 3000, convidando novamente a todos para possíveis contribuições nesta “bienal do futuro”, além de uma performance a ser realizada no ambiente virtual do Second Life. Forest já inspira apostas em suas costumeiras afirmações polêmicas em sua entrevista coletiva, marcada para o dia 27 de abril, no Itaú Cultural, em São Paulo. Alémda capital paulista, deverá percorrer Brasília e Porto Alegre. Em São Paulo, terá uma exposição no novo Campus da UNESP, na Barra Funda, a partir do dia 29. Para participar desta exposição através da Bienal do ano 3000, acesse: http://www.biennale3000saopaulo.org/ 

 

Para saber mais sobre a passagem de Fred Forest no Brasil, acesse:

http://www.webnetmuseum.org/php/pt/php-news_pt/show_newspt.php .

 

 

Fábio Oliveira Nunes