09/05/2009 Número de leitores: 1508

Nanopoema: a escritura de um microcosmo

Fábio Oliveira Nunes Ver Perfil

No dia 03 de março de 2009, a poesia brasileira ganhou uma nova dimensão: a microscópica! É claro que não se trata de qualquer medida de valores estéticos, mas sim, medidas reais: nesta data, o poeta e compositor Juli Manzi (pseudônimo do pesquisador Giuliano Tosin) realizou o primeiro nanopoema do Brasil, juntamente com uma equipe de pesquisadores em nanotecnologia. Omais diminuto de todos os poemas, inserido em uma outra dimensão do mundo: as medidas do poema são da ordem de 35 X 440 nanômetros (nm) – quatro mil vezes mais fino que um fio de cabelo. Um nanômetro vale 1,0×10−9 metros – ou um milionésimo de milímetro, ou bilionésimo de metro. Tem como símbolo nm.

 

 

A façanha de Manzi se insere no percurso da apropriação de meios científicos e tecnológicos para a produção poética, algo que já é conhecido a algum tempo na produção nacional com o uso de xerox, televisão, fax, animação, computação gráfica, redes, lasers para projeções e outros tantos processos. Muitas destas práticas foram incentivadas pelo pioneiro artista Julio Plaza, um desbravador na produção de holografias e na atuação poética em redes telemáticas – o Videotexto em especial. Plaza, espanhol radicado no Brasil falecido em 2003, representou o ponto de partida de muitos artistas a discutir questões de interatividade, as novas práticas em redes computacionais como a Internet, as possibilidades da hipermídia. Realizou inúmeras versões visuais e/ou digitais de poemas de outros autores, sistematizando uma tradução fundamentalmente criativa entre meios. Plaza é um dos referenciais de Manzi – junto com Augusto de Campos, Roman Jakobson, Haroldo de Campos e outros autores – em sua pesquisa de doutorado na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), intitulada como “Transcriações: reinventando poemas em meios eletrônicos”.

 

Neste contexto, o Nanopoema de Manzi nasce da tentativa de reinventar poemas em mídias não-usuais ou diferenciadas. Em um diálogo com seu irmão, Giancarlo Tosin, físico do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), o poeta chega à nanotecnologia como possibilidade de suporte capaz de carregar informação sensível, já que a nanoescrita (nanowriting) é uma ação perfeitamente executável. Experimentos similares em poesia já foram realizados, por exemplo, na Cardiff Univesity, no Reino Unido, em 2007.

 

Assim, na busca pela transcriação, Manzi opta pelo trabalho com um poema-escultura do multifacetado Arnaldo Antunes, “Infinitozinho”. Originalmente, em sua versão de 2003, o poema de Antunes é uma seqüência de letras organizadas em verticalidade formando o sui generis termo em 6 metros de altura. Carinhosa conivência entre o incomensurável e o minúsculo.

Bem, neste nanomundo, este “Infinitozinho” se reinventa e extrapola suas proporções originais: mais do que sentidos que nos transporta, dá a visão ao próprio mundo em que se insere, como um coeso inventário de um mundo de horizontes em potência. É inevitável pensar no cenário atualmente ainda incipiente da nanotecnologia, mas onde se antevê nanorobôs e inúmeros outros sistemas e seres microscópicos artificiais que significativamente podem nos conduzir para uma revolução tão grandiosa quanto a digital. Espera-se que a nanotecnologia esteja dentro de nós – enquanto microseres que auxiliem nossos leucócitos ou que monitorem a fluidez do tráfego sanguíneo, ou ainda, no interior de microchips que venham a ampliar nossa memória. Estará também em dispositivos – computadores, telefones – cada vez mais diminutos. É fundamental dizer que uma condução sensível como esta, neste universo pouco explorado, representa uma demarcação importante para futuras investigações artísticas.

 

 

No Laboratório de Microscopia Eletrônica (LME) do LNLS, em Campinas, o poema foi realizado em um nanofio de Fosfeto de Índio, que foi bombardeado por um feixe de elétrons, furando o minúsculo fio e construindo a palavra de trás para frente no decorrer de cinco horas. Os pesquisadores em nanotecnologia, Daniel Ugarte e Luiz Henrique Tizei colaboraram com o poeta na realização deste feito. Agora, com o primeiro poema do gênero em língua portuguesa, Manzi pretende fazer uso das imagens enquanto banners impressos – poema-cartaz – além de outras possíveis aplicações. Como registros de uma outra dimensão. 

 

 

 

 

Fábio Oliveira Nunes