23/05/2009 Número de leitores: 267

O texto do encarte

Bráulio Tavares Ver Perfil

Por Braulio Tavares



Seria uma experiência curiosa. Pegar vinte poemas de vinte poetas desconhecidos e misturá-los a vinte letras de canções desconhecidas, imprimir tudo misturado, e pedir a um crítico literário metido a esperto (eu, por exemplo) para distinguir ali o que era poema e o que era letra. Seria mais ou menos como pegar dez quadros abstratos de gente que vale 5 milhões de dólares (Kandinsky, Jackson Pollock), misturá-los a dez quadros abstratos comprados na feira da Praça General Osório, chamar um grupo de críticos de arte e dizer-lhes: ?Bote preço!?.

 

Por que isto? Porque os críticos são burros e só sabem o que é feijão e o que é arroz se alguém lhes disser antes? Acho que não. Uma obra de arte pode ser avaliada apenas pelo que apresenta aos olhos desprevenidos e ao espírito despreparado. É um texto para ser lido, uma imagem para ser vista, e o leitor ou observador que se identifique ou não com ela. Sem saber quem a fez ou de onde ela veio, o crítico que improvise ali seus próprios critérios de avaliação diante da obra nua e crua, não-assinada, não-identificada, não-contextualizada. Toda obra nos diz: ?Te vira?.

 

Mas toda obra existe num contexto, e fica empobrecida em algum aspecto quando é despregada desse contexto. Curiosamente, isto desvaloriza algumas obras e valoriza outras. Voltemos ao exemplo acima. Um observador casual pode achar um quadro de Jackson Pollock ?uma borradeira sem graça e de mau gosto? se o vir afastado do contexto dos museus e das galerias milionárias; talvez não achasse isto se a visse amparada e avalizada por este contexto. E, inversamente, um quadro que ele olharia com indiferença na feira hippie dominical poderia se valorizar, se afastado desse contexto de banalidade. Talvez fosse considerado uma obra revolucionária, até, por um espectador que, sem maiores referências, não soubesse distinguir nela o que há de diluição e de imitação do já visto.

 

Voltemos ao primeiro exemplo de todos. O que distingue, em primeiríssimo lugar, uma letra de música de um poema? Para mim, é o contato que temos com cada um. O poema é lido num livro ou revista. A letra de música é escutada nos alto-falantes de um aparelho de som. Porque aquilo que está impresso no encarte do CD (repetirei isto até a morte) não é a letra da música, é apenas um texto referencial que ajuda a entendê-la ou lembrá-la. A letra de uma música se perde, no papel, porque não é um conjunto de palavras impressas, é um conjunto de sons cantados, assim como a melodia da música não é um conjunto de notas escritas numa partitura, são os sons que escutamos quando a música é tocada.

 

O poema escrito é ele próprio, é o próprio poema. Uma letra de música escrita no encarte, no entanto, não é a letra da música. É apenas uma cifra, um código, uma descrição, que tem uma relação 1-por-1 tão grande com a letra da música (aquelas palavras que a cantora está cantando) que chegamos até a pensar que as duas são a mesma coisa. Mas não são.

 








 

 

Bráulio Tavares é escritor, roteirista e compositor. Compilou a primeira bibliografia do gênero: o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional). Autor de ?A Espinha Dorsal da Memória?, ?A Máquina Voadora? e ?Anjo Exterminador? (todos pela Rocco). Organizou as antologias ?Freud e o Estranho?, ?Contos Fantásticos no Labirinto de Borges? e ?Páginas de Sombra?; (todos pela editora Casa da Palavra).
E-mail:
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Bráulio Tavares