04/10/2009 Número de leitores: 1503

Personal Space Protection: estratégia de convívio e proteção

Fábio Oliveira Nunes Ver Perfil

A artista plástica Vivian Puxian já teve problemas ao lidar com pessoas e seus espaços em uma grande cidade como São Paulo. Certa vez, morando a alguns metros de um edifício em construção, resolveu educadamente indagar aos engenheiros o motivo do barulho ensurdecedor que a impedia descansar em seu apartamento logo em frente. Em uma cidade às vezes tão hostil como São Paulo, não é de se surpreender que ela fosse imediatamente agredida com palavras e ameaçada. Com medo, por várias semanas, Vivian passa a sair de casa sempre disfarçada – um chapéu, óculos escuros e outras coisas que a façam passar despercebida na própria rua onde mora. Em outra situação, ao se recuperar de um acidente automobilístico e ter o seu nariz machucado, a artista observa o quanto as pessoas tendem naturalmente a colidi-lo: as bolsas no metrô lotado, os braços dos passageiros ao atravessar o interior dos ônibus. Ainda em outra situação, Vivian está em um ônibus aguardando a sua parada de destino até o momento em que o cobrador do coletivo distraidamente joga em cima de seus pés uma rampa mecânica para deficientes. Teve que ser levada ao médico imediatamente. Situações de risco e conflito como estas, parecem por a prova qualquer estratégia de convívio no espaço comum. Eis que a artista, então, elaborará sua própria tática.

O crítico francês Nicolas Bourriaud pontua o surgimento de poéticas que se valem dos interstícios sociais, chamando este tipo de manifestação – cada vez mais presente a partir dos anos 90 – de arte relacional. Bourriaud nos direcionará para pensar que os artistas tratarão as relações sociais vigentes enquanto protagonistas de seus discursos, nos mais diferentes contextos em que se direcionem. Há vários trabalhos exemplares neste sentido. Um exemplo bem implicado com o urbano está em Gabriel Orozco conhecido por um curioso carro apresentado na XXIV Bienal de São Paulo em 1998, o chamado La D.S. (1993). O carro (um “recorte” em um famoso modelo da Citröen), onde só cabe uma só pessoa, é a síntese da individualidade das grandes cidades. E claro, uma crítica evidente ao automóvel enquanto veículo assumidamente anti-social, como uma bolha que nos protege de qualquer contato com outros indivíduos. O trabalho de Orozco encapsula um modelo social vigente, criando um veículo-conceito resultante desta condição. O que deveria ser um carro ideal nos parece – com alguma consciência – ser o exagero.

No universo das relações humanas vale citar também Edward Hall, teórico do uso dos espaços informais criados pelo homem em suas relações sociais. Ele definiu o que chama de zonas “proxêmicas”: espaço íntimo, para abraços e sussurros (algo em torno de 15cm a 46cm); pessoal, para conversas entre bons amigos (0,5m a 1,2m); social, para conversas entre pessoas (1,2m a 3,6m); e público, para discursos (3,6m ou mais). Hall nos faz pensar em nossa relação com o outro em espaços públicos: essas zonas de relações são fundamentalmente culturais, sendo que há contextos em que somos obrigados a ceder o nosso espaço pessoal mais confortável: no metrô, nas tumultuadas ruas das metrópoles, no elevador.

Mas, e se resolvêssemos não ceder, mantendo o conforto da distância segura?

Eis que surge Vivian com uma tática muito pessoal: a artista cria uma espécie de objeto circular metálico vestível – como uma roda em que a pessoa é o eixo – que circunda aquele que o veste. Inicialmente o chama de “pára-choque humano”, mas encontra o definitivo nome de Personal Space Protection. Nada mais absoluto em sua concepção, remetendo aos nomes de produtos mirabolantes anunciados em programas de televendas. Vivian, então, resolve fazer seus primeiros passeios com o seu PSP em São Paulo. Ao andar pela Avenida Paulista, recebe inúmeros olhares atônitos, mas nenhum esbarrão abrupto. Parece que seu espaço pessoal foi assegurado e andar nas ruas tornou-se muito mais seguro!

Porém, ainda era preciso um desafio maior. A artista resolve embarcar para Nova York, levando na bagagem seu Personal Space Protection. É importante que se diga esta foi uma ótima escolha de Vivian: o seu produto pode representar um novo patamar no American Way of Life, quando se assume um desejo reprimido da distância segura dos estranhos que nos circunda, também em nível pessoal. Assim, seu sucesso tem sido representativo, com matérias em diversos jornais norte-americanos, entrevistas a canais de televisão e rádio, além, é claro, de diversas referências na Internet. Sua permanência nos Estados Unidos tem rendido muitas inserções na web, contando com mais de uma centena de referências na rede. Vivian tende a se tornar uma espécie de celebridade dos espaços urbanos. Nos sites repositórios de vídeos da web há inúmeros vídeos que apresentam o PSP em diferentes circunstâncias e com os mais diversos públicos: no parque, na balada, na rua, na praia, sejam crianças, idosos, jovens, adultos ou a própria artista. E, claro, contra a recente epidemia de gripe suína, nada melhor do que o Personal Space Protection.

Mas, ainda que aparente, a discussão não se fecha na idéia de criar uma bolha que nos distancie do mundo, como seria sugerido no carro de Orozco. A discussão é mais complexa já que a artista defende que não criou simplesmente uma bolha e sim um protetor: “eu posso abraçar, beijar, me relacionar com todos que me cercam” e curiosamente, o PSP muito mais atrai pessoas – pela curiosidade – do que exatamente as repele. Voltando-se aos modelos instaurados em nossa sociedade, o PSP é emblemático do nosso desejo de relação com outro, revestido pelo medo.

 Vivian Puxian dançando com o seu Personal Space Protection (2009)


Acompanhe o blog da artista: http://personalspaceprotection.blogspot.com



Fábio Oliveira Nunes