16/03/2010 Número de leitores: 917

“Adoro confusão” – Marcelo Mirisola

Jovino Machado Ver Perfil

 

1: Quem é Marcelo Mirisola?

Essa é boa. Eu diria que é um cara que arruma algumas encrencas e sofre por conta da confusão que fazem entre ele e uma tal de “voz em primeira pessoa”. Seria mais fácil se sofresse de heterônimos. Bastaria mandá-los dar uma volta, e eu ficaria em paz em casa, vendo televisão.


2: O que é literatura?


Trabalho, muito trabalho. 


3: Se não me falha a memória você disse para a Revista Cult que é o melhor escritor de sua geração. Por que?


Naquela época o Manuel da Costa Pinto havia me convencido disso. Agora que ele resolveu me ignorar, tenho lá minhas dúvidas. 


4: Você me disse que é um autor que não pensa por imagens. Como pensa o escritor Marcelo Mirisola?


Foi você – no primeiro email que mandou - quem falou que fechou meu livro e logo pensou em vários filmes, não foi?
 Pois eu nunca pensei nisso, e na mesma semana o Marcelo Paiva havia me dito a mesma coisa. Aí fiquei intrigado. Uma pulga aboletou-se atrás da minha orelha porque minha ferramenta de trabalho é a palavra, sou um fiasco em matéria de som e de imagens. Se por acaso alguém me fizer uma proposta nesse sentido, vou agir da mesma forma que agi quando o Bortolotto me disse que o “Herói Devolvido” poderia virar teatro, ou seja, não vou me meter. Imagina que operação de subtração seria roteirizar um livro como “O Azul do Filho Morto”. Jamais.


5: O Marcelo Rubens Paiva disse que o seu conto "Sobre os ombros dourados da felicidade" daria um baita filme.Quem é o diretor de cinema que tem competência para filmar um texto seu?

Sinceramente não pensei nisso. Apenas cultivo uma pulga atrás da orelha.

6: Por que voltou à Editora 34?

Porque a Record não quis o “Memórias da Sauna Finlandesa”. Eles devem ter autores mais urgentes para publicar, né? Aliás, nem a Funarte quis o Memórias da Sauna, nem a Petrobrás, nem o Pacc (sou suplente da Andréa del Fuego, sabia?) e nem a extinta bolsa Vitae – sempre me ignoraram. Ah, a Biblioteca Nacional também não quis saber do Memórias da Sauna Finlandesa, me ignorou. Você acha que o livro é tão ruim assim?

7: O que achou das críticas que saíram por aí?


Uma demonstração de imaturidade. Pra não dizer breguice e falta de preparo mesmo. No Jardim da Infância da Literatura, a primeira lição que aprendemos é: Eu é outro. Na segunda lição, aprendemos a limpar a bunda sozinhos. Será que é tão difícil de entender? Chega a ser constrangedor explicar o Padre nosso ao Vigário. 

Quero dizer que armo arapucas para me distrair. Só isso. No “Memórias da Sauna Finlandesa”, por exemplo, dei voz a um acadêmico atrapalhado que vacilava entre o “mundo culto” (leia-se cafés expressos na livraria Cultura, palestras na Casa do Saber, piqueniques em Paraty, etc) e o lixinho do biombo de um salão de beleza. Dois mundos aparentemente paralelos – mas que em algum ponto teriam de se encontrar. Nenhuma novidade, Philip Roth e Coetzee trataram do mesmo tema e do mesmo conflito em várias oportunidades. A diferença é que meu acadêmico, além de confuso, também é um sujeito mau-caráter e ... brega. Bregão. Foi o que bastou para cegar ilustres sabichões ilustrados & viadinhos afins. Imagino que devam ter revirado o lixinho do biombo supracitado e encontraram suas erudiçõezinhas em meio aos buços de donas de casa despossuídas dos seus instintos mais primitivos. Cegos, esqueceram de fazer a lição de casa: qual seria o universo de uma cabeleireira que tem a Família Lima como troféu na penteadeira do salão? A quem, senão Bruno & Marrone, Gugu e Faustão, o narrador teria de recorrer não só para comer a cabeleireira, mas para contar a história? 

Não vou negar, adoro confusão. Às vezes, porém, fico chocado com a falta de preparo e a ingenuidade das pessoas. Não foram, como eu disse, só os sabichões ilustrados que caíram feito patos, mas vários “colegas de ofício” que eu andei zoando e gente que justificadamente não vai com as minhas fuças, que reproduziram e reproduzem as mesmas banalidades, isto é, eles garantem (aliás, sentenciam) que eu me imiscuo com a mediocridade anunciada, logo sou um escritor tosco e medíocre. Ninguém é obrigado a gostar do que escrevo. A lógica, porém, já serviu a construções mais elaboradas. Pode-se usá-la para dar chiliques, claro que sim. A inteligência, no entanto, recomenda prudência e caldo de galinha. O contrário disso é trabalhar de graça para a burrice, mandar sorvetão na testa.

E, o pior de tudo, essa gente desconsidera a possibilidade de Bruno & Marrone como uma ferramenta de retórica. Isso sim é grave. Não só revela a incapacidade de análise, mas revela sobretudo falta de ambição intelectual, sei lá, uma espécie de jaguncismo ilustrado. Atraso mesmo. Breguice. A impressão que tenho é a de que colocaram um bando de Zé Buscapés para cuidar das galinhas de Virgílio. Só faltou dizerem “como se atreve?”. A precariedade é mesmo uma via de mão dupla – e eu faço questão de trafegar na contramão. Mas é claro que o narrador na primeira pessoa se imiscui. Eu uso e abuso da famigerada voz em primeira pessoa, qual o problema? O que essa gente pretende? Que meu narrador se valha do sermão da sexagésima para seduzir a dona de um salão de beleza chamado Art & Stilo? 

8: Até que ponto as preferências artísticas do narrador MM são as mesmas do Mirisola?

Até quando me interessam.


9: Na contra-capa de Joana a contragosto tem um texto sobre o monstro da solidão. Você acha que a solidão é um bicho que só come na mão do dono?


Se você alimentá-lo direitinho pode até render um belo romance. 


10: Gilberto Gil afirmou numa entrevista que já fez umas 3 músicas para ganhar mulher. Você escreve ou já escreveu contos para conquistar as estudantes de letras?


Essa afirmação é espantosa, ainda mais vinda do Gilberto Gil. Em que época ele fez essa declaração? 


11: Vou aceitar a sua sugestão de pauta. Quem é que come quem no mundinho literário?


Pra começo de conversa, temos que saber quem é que comia a bunda do Mário de Andrade, enquanto esse mistério não for decifrado patinaremos ad infinitum na semana de arte moderna. Trata-se de um sapo enterrado no reto da cultura brasileira. Depois disso, eu sei que deve ter alguém, que evidentemente não sou eu, enfiando o salame no traseiro de uns figurões por aí. Você teria algum (ou alguns) suspeitos?


12: O que achou da escolha dos autores para o projeto Amores Expressos? 
Você jogou praga nos caras pelos jornais? Ou é intriga da oposição?


O Amores Expressos nada mais seria do que dinheiro de renúncia fiscal, portanto dinheiro público, patrocinando viagens e viadagens de mauricinhos e patricinhas ao redor do mundo. O que me deixou indignado foi o fato de que a Companhia das Letras não se comprometia a publicar o resultado dessa picaretagem ilustrada. Isto é, fulaninho passaria um mês vadiando em Paris com nosso dinheiro para depois não acontecer nada. No entanto, depois que botei a boca no trombone (ou joguei a praga...), me parece que não rolou dinheiro público. Isso quer dizer que economizamos 1,2 milhões de reais; quero acreditar que esse dinheiro foi investido em escolas, creches e leitos hospitalares. O ministério da cultura (ou seria da fazenda?) devia me condecorar. Se eu joguei praga, pegou. Bem feito. 

O engraçado é que outro dia, no guia da Folha, justamente o sujeito que vendeu as pregas da alma para a Companhia das Letras, o mesmo que escreveu o “release” (porque aquilo não era uma matéria) na capa da Ilustrada anunciando o ambicioso projeto literário chamado Amores Expressos, esse mesmo verme – veja só – “avaliou” meu Memórias da Sauna Finlandesa. Disse que o livro era regular. Isso, no mínimo, é falta de decoro, não acha?


13: O que acha das feiras e bienais do livro que se alastram pelo Brasil?


Pra quem não tem nada o que fazer, e gosta de saguão de aeroporto, acho que é uma beleza.


14: Qual o futuro dos escritores num país que ainda não conhece o caminho da biblioteca?

Ora, o futuro chegou: 70 milhões de pessoas votaram no último paredão do Big Brother. 


15: O que acha dos prêmios literários no Brasil? Você já ganhou algum?


No mínimo viciados. A prova de que não se pode levá-los a sério é que eu não ganhei nada. Pra você ter uma idéia, no ano em que publiquei o “Azul do Filho Morto” um livro chamado “Bichos que existem, bichos que não existem” ganhou Jabuti de livro do ano. 30 mil reais. Cobrei o autor publicamente e até agora ele não se manifestou. Quero minha grana, porra!

Você acha que estou sendo filho da puta? Então leia os dois livros, e faça comparação. O mesmo raciocínio vale para os meus “Bangalô”, “Joana a contragosto”, “O Herói Devolvido” e “Notas da Arrebentação”. No total, se formos somar Portugal Telecom, Jabutis e etc , esses caras me devem mais de 500 mil reais. Basta cotejar os livros. Isso sem falar em editais, bolsas etc. 


16: O que pensa sobre a classe média alta que discute filosofia nas academias de ideias?


Alguma coisa está muito errada quando madame, em vez de gastar suas tardes num shopping comprando sapatos, perde seu tempo ouvindo um viadinho falando de Schopenhauer na Casa do Saber. Eu acredito, inclusive, que essa é a explicação para a onda de terremotos, tsunamis e enchentes que temos sofrido nos últimos dias. A natureza tem de reagir de alguma maneira, você não acha? 


17: O que achou do livro Pornopopéia do Reinaldo Moraes?


O melhor livro escrito em 2009. Quer apostar que não vai ganhar nenhum prêmio?


18: Quais são os seus escritores favoritos?


Leio muito Borges, acho que ele está em primeiro lugar. Gosto muito de Pavese e Vittorini. As crônicas do Machadão são imbatíveis. E, é claro, não dá para atravessar uma rua sem ler Nelson Rodrigues. Não dá para dizer bom dia sem ler Primo Levi. Depois tem os de praxe essenciais: Dostoievski, Thomas Bernhardt, Céline, Bataille, Cioran, essa turminha do mal deliciosa. Também gosto muito de Kafka, Henry Miller, Cortázar e Philip Roth, por aí.


19: O que Marcelo Mirisola faz na vida quando não está escrevendo?
 

Dou entrevistas


20: O que é mais importante na vida para Marcelo Mirisola?


A tentativa de parar de escrever: isso quer dizer ir em frente.

 

 

 

Jovino Machado