19/04/2010 Número de leitores: 1528

A poesia viva de Jorge Medauar

Gustavo Felicíssimo Ver Perfil

Por Gustavo Felicíssimo




 

        No campo político, o ano de 1945 marca o fim da Segunda Guerra Mundial, o fim da ditadura Vargas e o início da redemocratização do Brasil. A literatura passa por momentos inquietantes e provoca alterações que em alguns aspectos significa avanço, em outros, retrocesso, enquanto o tempo, senhor absoluto da arte, impõe aos escritores a sua seleção natural.
       
Na poesia, nasce a chamada Geração de 45, formada por poetas que se opõem a certas inovações dos modernistas de 1922 ao revalorizarem as formas fixas, negando a ironia, a sátira, dedicando-se ao que chamaram de uma poesia equilibrada e séria, distanciados de certo primarismo modernista. Ironicamente, essa geração de poetas, historicamente emparedada entre o modernismo e o concretismo, chamada pelo importante crítico José Guilherme Merquior de neo-parnasiana, é considerada pela crítica como a terceira fase do modernismo. Entre seus poetas mais conhecidos e respeitados estão Lêdo Ivo, João Cabral de Melo Neto e Geir Campos.
       
De formação clássica e sólida base humanista, é nesse ambiente que surge a poesia de Jorge (Emílio) Medauar, com a publicação de ?Chuva Sobre a Tua Semente?, exatamente em 1945. A esse livro seguem-se outros, também de poesia, a exemplo de ?Morada de Paz? (1949); ?Prelúdios, Noturnos e Temas de Amor? (1954), ?Às Estrelas e aos Bichos? (1956), ?Fluxograma? (1959) e ?Jogo Chinês? (1962). Entretanto, conforme artigo publicado no caderno ?Cultural? de A Tarde, em 14/06/2003, seu êxito maior viria a partir de 1958, com o livro de contos Água Preta, o primeiro de uma trilogia muito bem sucedida que tem prosseguimento com ?A Procissão e os Porcos? (1960) e ?O Incêndio? (1963). Escreveu ainda ?Histórias de Menino? (1961) e ?O Visgo da Terra? (1996), um romance tecido com os seus contos sobre Água Preta e Ilhéus. Publicou pela Editus, no ano de 2000, um pequeno livro de ensaios com apresentação do professor Dorival de Freitas, ainda participou de algumas antologias nacionais e internacionais. Também dedicou-se à literatura infanto-juvenil.
       
Encontramos na poesia de Medauar um poeta acima dos modismos, que busca o equilíbrio entre forma e conteúdo, privilegiando a eufonia para exprimir com suavização o seu discurso e valorizar o andamento do poema, como está patente neste soneto que se apresenta sem título, um poema de forte cunho metafísico e extremamente musical:


Por ser o que não sou é que padeço.
Padeço um existir quase alternado
entre tudo o que tenho e não mereço.
E o que mereço, nunca me foi dado.

Assim, o que não digo, reconheço
ser o que mais por mim foi meditado.
O que revelo é paga - apenas preço
do que também a mim foi ocultado.

Se esse existir se parte entre dois gumes
posso ver pela noite vaga-lumes
e dizer que são luzes nos caminhos.

Maldito o que me vê como não sou:
podendo dar-lhe mel, apenas dou,
ocultos, entre pétalas, espinhos.


        Sua poesia traz também uma carga existencialista bastante ampla, onde reflete com vigor sobre a condição humana, o vazio, o absurdo do mundo em paralelo às temáticas sobre o silêncio e a solidão, vida e morte, oferecendo-nos uma lírica revestida por uma roupagem de extrato verdadeiro, invulgar, como neste outro soneto, ?Meu Neto?:

Ergo-te em meus cansados braços,
que tanto labutaram nesta vida.
E sinto que me aflora aos olhos baços
a gota de uma lágrima furtiva.

Bem sei que por misteriosos laços
minha vida na tua está contida.
E quando me descubro nos teus traços,
quero que tudo em mim renasça e viva.

Mas sei que vou partir, quando amanheces.
É fatal que se cumpra a lei da vida.
Enquanto digo adeus, vives e cresces.

Assim, pouco me importa esta partida,
se em meu lugar tu ficas, permaneces
para que em teu sorriso eu sobreviva.


        Estamos prontos agora para fazermos nossa incursão em um dos capítulos mais deliciosos da obra de Medauar, uma peleja poética com Manuel Bandeira, provocada por nosso poeta e marcada por grande senso de cavalheirismo e civilidade que a permeou, ao contrário do que imaginou José Lins do Rego que interpretou a fatura como uma provocação entre um jovem poeta iniciante a um mestre. Tal evento nos faz lembrar mesmo dos páreos entre os poetas populares retratados na Literatura de Cordel. Quem reporta a história é Hélio Pólvora.
       
Em ?Desencanto?, famoso poema de Bandeira, datado de 1912 e escrito, provavelmente, por influência de uma doença que lhe atormentava os pulmões, o poeta canta Eu faço versos como quem morre. Mais de trinta anos depois, Medauar, ainda um jovem poeta e desconhecido, parodiou brilhantemente o poema bandeiriano cantando em ?Esperança?: Eu faço versos como quem vive. Deu-se, então, segundo Hélio Pólvora, uma escaramuça cordial, com ampla repercussão nos meios literários do Rio de Janeiro. Após, em uma de suas crônicas, Bandeira transcreveu os versos de Medauar e lhes deu resposta impressa no poema ?A Jorge Medauar?, justificando a tréplica dizendo que em mim, pelo menos, verso puxa verso. Uma das estrofes do poema corre assim: Façam-no como quem morre/ ou como quem vive, que ele viva!/ Vive o que é belo e deriva// da alma e para outra alma corre.
       
Vejamos os poemas:


Desencanto
Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo algum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai gota à gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.


Esperança
Jorge Medauar

Eu faço versos como que luta
De armas em punho... de armas nas mãos...
Forma ao meu lado, pois na labuta
Os companheiros são como irmãos.

Meu verso é aço. Fornalha ardente...
Peito ou bigorna... Braço ou trator...
Corre entre o povo. Salgado e quente,
Cai gota a gota, por que é suor.

E nestes versos de luta ousada
Deixo a esperança que sempre tive
Nas tintas rubras da madrugada.

- Eu faço versos como quem vive.


        A paródia, do grego paroidía, canto ao lado de outro, conforme Massaud Moisés em ?Dicionário de Termos Literários?, designa toda composição literária que imita, cômica ou satiricamente, o tema ou/ e a forma de uma obra séria. O poema de Jorge Medauar ergue-se ao mesmo nível do poema parodiado e, contrariando a definição de Massaud Moisés, o que se percebe claramente é que sua criação destina-se a homenagear Manuel Bandeira, que o entendeu como uma paródia admirável. O poema foi publicado por Medauar quando da passagem do aniversário do homenageado. Enquanto o primeiro poema foi forjado sob a marca da angústia, conforme dissemos, por conta de uma doença pulmonar que afligia o poeta de ?Estrela da Vida Inteira?, o segundo reproduz com primazia os arroubos próprios de uma juventude esperançosa, disposta ao embate De armas em punho... de armas nas mãos..., em um canto agradável às hostes socialistas, das quais o poeta fazia parte, quer seja como redator da revista ?Literatura?, quer secretariando Astrojildo Pereira, crítico literário e um dos fundadores do Partido Comunista do Brasil.
       
Vale ainda ressaltar que, quanto à forma, ambos os poemas correm exatamente iguais; trata-se de dois eneassílabos com a predominância da cesura na quarta e nona sílabas, bem ao modo simbolista.


        Jorge Medauar nasceu em 15 de abril de 1918, em Água Preta do Mocambo, sede do então distrito de Ilhéus, hoje cidade e município de Uruçuca. Ainda menino, e depois de passagens por Ilhéus e Canavieiras, Medauar mudou-se com a família para São Paulo, primeiro São Simão, depois a capital, onde completou o curso secundário. Datam dessa época suas primeiras leituras e a inclinação para as letras. Pensando em cursar Direito ou Medicina, transferiu-se para o Rio de Janeiro, mas não chegou a iniciar estudos superiores. O jornalismo e a literatura seduziram-no, dando-lhe, como profissional e autodidata, um conhecimento e erudição invejáveis. Conheceu escritores famosos, dos quais foi amigo, como Manuel Bandeira, Jorge Amado, Jorge de Lima, Graciliano Ramos e Adonias Filho. Colaborou na revista Literatura, como secretário de redação e fez parte do grupo de intelectuais de esquerda. Faleceu no dia 03 de Junho de 2003, aos 85 anos de vida. Pertenceu à Academia de Letras do Brasil, com sede em Brasília, e à Academia de Letras de Ilhéus. (Fonte: Jornal A Tarde, caderno Cultural, 14.06.2003)







Gustavo Felicíssimo é poeta, pesquisador e ensaísta. Natural de Marília, interior de São Paulo, está radicado na Bahia desde 1993. Foi aluno da oficina de criação literária da mestra Maria da Conceição Paranhos. Fundou juntamente com outros escritores o tablóide literário SOPA, do qual foi seu editor. Atua como preparador de textos para editoras e poetas. Ainda não possui livro publicado, mas dois, um de poesia, outro de ensaios estão no prelo e virão em breve. Edita o blog Sopa de Poesia: www.sopadepoesia.blogspot.com E-mail: gfpoeta@hotmail.com 


   http://www.cronopios.com.br/jorge_medauar/

Gustavo Felicíssimo