21/09/2010 Número de leitores: 830

Anníbal Augusto Gama - Poesia vasta poesia

Marco Aqueiva Ver Perfil

Por Marco Aqueiva
 


 
            Fotomontagem de José Márcio Castro Alves para blog que criou em 
            homenagem a Anníbal Augusto Gama (http://blogdoannibal.blogspot.com/)



Poesia poesia vasta poesia, se bastassem as impressões, leitores não faltariam... Bem sabemos que a literatura não é obra do acaso e das circunstâncias. Bem sabemos que a mídia a todo volume e os inimigos públicos da arte como nuvem de gafanhotos satisfazem com as mais recentes novidades editoriais a comodidade do leitor para o lado e para trás. Bem sabemos da atual invulgar efervescência de poesia além, muito além do suporte papel: nos mares da web sopram os ventos da visibilidade desejo aproximações porosidade trocas. Bem sabemos que, à frente do barulho das volubilidades do momento das modas literárias, oficinas de criação, coletivos e saraus ganham espessura e consistência sob a indiferença de fundo.

Poesia poesia vasta poesia, se bastassem os leitores, impressões não faltariam... Bem sabemos do imenso vão entre a palavra e o leitor. Bem sabemos que poemas e poetas existem se existem leitores. Porém, neste país, pródigo em estampar nomes ignorados nos jornais sob para-sóis guarda-chuvas cachos de bananas, políticas públicas de leitura medram sem literatura em jogos globais inócuos e mistificadores. Resultado histórico do investimento nesses programas: ainda ceticismo. Ceticismo não é remédio. Bem sabemos que o ceticismo é mau condutor de poesia. Mas aqui nem de milagres sobrevivem os poetas. Nada do que é humano é alheio ao poeta. Incluindo a indiferença de gosto amargo e fundo.

Poeta poeta vasto poeta, por que teimou em permanecer inédito por tanto tempo? 50 anos falando sozinho não bastaram? Ao poeta a pena resta de poetar, sabendo que não alcançará sua poesia as mãos e olhos do leitor?! Sérgio Rubens Sossélla, também ele profissional aposentado das letras jurídicas, também ele construtor de uma vasta poesia a contrapelo das gôndolas das livrarias, crava sem concessões ou apelos: ?a minha obra // me completa?. Não se pode dizer que as razões para o silêncio em torno de Anníbal e Sossélla coincidam. Certo é que os oito livros que enfeixam o catatau de mais de 600 páginas de 50 anos falando sozinho (FUNPEC, 2002) ainda não restituíram a Anníbal Augusto Gama o lugar na poesia brasileira que nunca teve e talvez não tenha esperado ter e penso ser dele de direito por inequívocos méritos literários.

Poesia poesia de vasto escritor. Para concluir esta apresentação de Anníbal Augusto Gama, falta registrar sucintamente o que poucas vozes abalizadas bem disseram a respeito das publicações deste autor:

     ?Os vários livros reunidos no presente volume, Cinqüenta anos falando sozinho, nos ensinam que a poesia, ao contrário dos amores apressados, tem a virtude da espera. Mais do que essa virtude, a poesia sabe recolher-se ao silêncio astuto a sua grandeza clandestina.? (Mário Chamie)

     ?Annibal Augusto Gama, em primeiro lugar, é um poeta insubstituível, de inspiração muito pessoal, que não lembra nem de longe nenhum outro poeta consagrado, de hoje ou de ontem. Sua poesia é feita da honesta fruição do mundo por alguém que se julga um homem comum, quando, na verdade, é excepcional? (Gilberto de Melo Kujawski)

     ?Eis [referência aos oito livros de poemas num só volume] a poesia completa de um bom poeta, culto, bom leitor dos clássicos de ontem e de hoje, de quem a crítica não tomou conhecimento.? (Affonso Romano de Sant?Anna)

     ?Poeta desconhecido que é também um dos melhores nos quadros históricos da poesia brasileira em qualquer tempo.? (Wilson Martins)

     ?Do silêncio falante da literatura, surge a voz marcante e singular do poeta e escritor mineiro Annibal Augusto Gama (Guaxupé, 1924), que no auge de sua vitalidade artística, vem produzindo, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, onde está radicado há mais de 30 anos, uma obra densa, vigorosa, importante e, sobretudo, em permanente diálogo com a fina flor das literaturas brasileira e universal.? (Leontino Filho)



POEMAS

Antes da microantologia, necessário é, porém, referir brevemente a história da chegada de Annibal Augusto Gama às minhas mãos. A FUNPEC ? Fundação de Pesquisas Científicas de Ribeirão Preto ? por ação de seu diretor-presidente, o prof. Dr. Francisco A. Moura Duarte, enviou à FESB, faculdade onde leciono, 50 anos falando sozinho, acompanhado de Manual para aprendiz de fantasmas e A volta de Simão Bacamarte, outros volumes de Annibal, também publicados pela FUNPEC. Ressalte-se nesse sentido o empenho e o esforço dessa fundação que, a despeito das dificuldades de distribuição, encaminhou há quase três anos os livros a instituições de ensino superior. O silêncio da academia não é menos constrangedor.




A difícil aprendizagem

Não me disseram que os ninhos
não voavam com os passarinhos
e demoliram a casa
onde nasci. Os caminhos
não me explicaram que iam
mas não vinham.

Fecharam com chave a porta
e me deixaram na rua
no frio da madrugada.
Esconderam-me a Lua
e a sua estrela apagada.

Não me ensinaram que as árvores
não andam, e derrubaram o bosque.
Deixaram-me a janela
mas ocultaram de muro
a praça, e uma sentinela
me vigia em seu quiosque.

Mostraram-me em seu aquário
o peixe e não revelaram
que é uma borboleta
que nada. E o meu salário
pagam-me de medo e erro
com a morte mais obsoleta.

Ensinaram-me a língua
em que não falo e só calo.
E deram-me um livro em branco
com um segredo em cada página.
Aprendo de não saber
e de ver sem nunca ver.

Levaram-me para o altar
de um deus cego, surdo e mudo
que me dá nada e tudo
para que eu continue a ignorar.

(p.214-5)



Venho de longe

Venho de longe, de onde os lobos
uivam sob a nevasca, e a noite irrevogável
sepultou todas as manhãs. O olhar dos mortos
me acompanhou pelas frestas dos sobrados
e a efígie de um deus mudo na moeda
de prata pagou-me o leito nos albergues
e o beijo das mulheres nas esquinas.
Bebi nas tascas o vinho dos marinheiros
enquanto o velame das barcas ancoradas
balouçava no cais de náusea e ópio.
Meus avós esperaram em vão D. Sebastião,
os braços erguidos, as mãos decepadas
pelo alfanje dos mouros.

O teu carinho no linho dos lençóis
não restaura os arrebóis das chácaras
onde os frutos maduros apodrecem sem bocas
e têm um gosto de cinzas amargas
do tabaco que impregnou minha carne.

Aqui estou, transitório,
neste quarto de hotel, e as gravatas
penduradas no cabide me acenam o adeus
das plataformas, e o ruído do telégrafo
atrás dos guichês perturba o meu sono
no banco sob o relógio redondo
que não marca nenhuma hora,
                      porque já marcou todas.

Dá-me o meu cajado, a minha capa,
o meu chapéu, os meus sapatos de caminhar
sobre o asfalto interminável dos viadutos
antes que a cidade amanheça nos cartazes
dos paredões dos edifícios de tédio e concreto.

(p.160-1)



Os dois lados da porta

Um deus me abriu a porta
e outro a fechou,
por que vãos e vias tortas
vou para onde não vou?

Um anjo voou comigo
entre as constelações,
mas que adiantou ter voado
entre duas solidões?

Que alma tão transparente
em que tudo se traspassa!
O vero que é mentira
e o mais que é só trapaça.

Que deus mesmo me falou,
qual o que me mentiu?
Sou eu que me calou
ou fui eu que me ouviu?

(p.3)



O enigma sobre o enigma

No desvão da biblioteca
violo a sepultura
do manuscrito, há anos
perdido. E ele ressurge
com cara de múmia asteca.

As folhas enfaixadas
grudou-as o bolor,
úmida flor,
flora dos sepulcros.

A traça lhe roeu
o osso das palavras,
traçou-lhe sobre as páginas
um enigma
que não era o seu,
maior que a mão secreta
que um dia o escreveu.

(p.129)



Resposta

Perguntaram-lhe se tinha fome.
         
Não respondeu nada.
Pela janela, apontaram-lhe a lua.
         
Não disse nada.
Mostraram-lhe a mulher nua.
         
Não disse nada.

Levaram-no para o mar.
         
Não disse nada.
Num avião, fizeram-no voar.
         
Não disse nada.
Trouxeram-lhe queijo e vinho.
         
Não disse nada.

Leram-lhe a página do livro.
         
Não disse nada.
Fizeram-lhe cheirar a flor.
         
Não disse nada.
Falaram-lhe das doçuras do amor.
         
Não disse nada.

Que diabo de homem mais mudo!
Não tem língua, desgraçado?
Diga alguma coisa, excomungado!
Nós aqui lhe servimos tudo
e ele de bico calado...

Foi quando ele abriu a boca
e saiu dela um pássaro em chamas
que incendiou tudo ao redor,
só poupando o dicionário
de criptogramas.

(p.225)



O postal da mulher nua

O rapazinho esconde entre os seus guardados
o postal da mulher nua
que entre reposteiros de seda negra
segura a taça de uma bebida maravilhosa,
tão maravilhosa,
que certamente só os deuses a beberão,
os deuses ou o fino bacharel Ludovico
que acaba de retornar da Europa,
e com os seus sapatos de duas cores,
seu chapéu mole desabado, seu paletó de alpaca,
passeia pelas alamedas do jardim
o seu tédio parisiense.

Muda os esconderijos cada dia,
porque aquele tesouro de alva carne
com os pequenos seios que despontam
os delicados botões mal amadurecidos
não pode ser descoberto por ninguém
e se descoberto por algum bisbilhoteiro
ai! se evolará no espaço
como um anjo ferido
ou o perfume que escapou de um frasco aberto.

Esconde com mil cuidados,
vigiando portas e janelas,
e só em minutos de pressuroso coração
precípite a bater no peito,
contempla aqueles braços de marfim,
aquelas coxas de amanhecer,
aquela insinuada noite triangular,
aqueles olhos sob as pálpebras dolentes
que abriram um dia, e fecharam,
as portas de aurora do paraíso.

Esconde, tão bem esconde,
entre livros, caixas, disparatados objetos,
que um dia fará uma longa viagem
e ao regressar nunca mais o encontrará,
e até hoje, entre tantas, tantas mulheres,
busca interminavelmente,
um fragmento, uma unha, um fio de cabelo,
a curva de uma anca, uma sombra,
uma visão do postal
que desapareceu para nunca mais.

(p.435-6)




O bigode

O meu bigode branco
já foi preto.
Descorou na máquina
de lavar roupa
da vida.
Bigode obsoleto
com que vou na popa
de uma barca
perdida.

(p.313)




Vocês têm razão

Vocês têm toda razão.
Não mereço atenção.
Não sou lá essas coisas,
nem flor de se cheirar.

Mereço mesmo
umas descomposturas
para não enfiar o nariz
onde não fui chamado,
não me fazer
de engraçadinho,
e saber onde é o meu lugar.

Umas porradas, quem sabe.
Mas se é em pequeno
que se torce o pepino
talvez nem adiante agora
tanto esbravejar
fora de hora.

Já não cresço, nem apareço,
sujeito mofino que sou.
E vou saindo de mansinho
pelo elevador de serviço
e pela porta dos fundos.

Tarde que vou,
mas antes tarde do que nunca.
E ainda na esquina
lhes tiro o chapéu,
e lhes dou uma banana.

(p.212-3)



         
 
                  Vídeo gravado por José Márcio Castro Alves em setembro de 2007
                                   Fonte: http://blogdoannibal.blogspot.com/


Serviço:
Para adquirir as obras de Annibal Augusto Gama, consulte a página da FUNPEC Editora http://www.funpecrp.com.br/loja_nova/



                                               * * *


Marco Aqueiva, poeta, autor de Neste embrulho de nós (Scortecci, 2005) e de Sóis, outono, sou? (Dulcineia Catadora, 2009), é professor de literaturas brasileira e portuguesa no ensino superior. É o idealizador, editor e administrador do Projeto Valise 2008 no endereço http://aqueiva.wordpress.com E-mail: marco.aqueiva@gmail.com

Marco Aqueiva