05/11/2010 Número de leitores: 449

A Presidência segundo Asimov

Bráulio Tavares Ver Perfil

Por Bráulio Tavares

Isaac Asimov tem um conto, ?Democracia Eletrônica?, sobre o possível futuro das eleições presidenciais nos EUA (o conto está traduzido na antologia ?Sonhos de Robô?, Editora Record). Num futuro distante, as eleições presidenciais são controladas pelo grande computador Multivac. A família de Norman Muller está em polvorosa porque o Estado de Indiana, onde eles vivem, será escolhido para a eleição. Esta é a primeira estranheza que o autor infiltra no conto. Vemos a expectativa da família, e o mau humor do sogro de Norman, que resmunga o tempo todo, relembra os bons velhos tempos, critica as eleições atuais: ?Disseram que o sistema acabaria com os políticos radicais, o desperdício de dinheiro dos contribuintes na campanha e os joões-ninguém sorridentes, vendidos e anunciados para o Congresso ou para a Casa Branca...?

E de pista em pista vamos descobrindo como os presidentes são eleitos nesse futuro. Asimov explica que tudo mudou após o advento dos computadores, e principalmente do Multivac, o sistema que ?tinha meia milha de comprimento e três andares?, e ?cinquenta técnicos não paravam de andar pelos corredores, dentro de sua estrutura?. Pois é, amigos... o conto é de 1955, que poderíamos chamar A Era dos Computadores-Dinossauros. E logo ficamos sabendo que ele, Norman Muller, foi escolhido para ser O Eleitor. Agentes do Serviço Secreto ocupam sua casa, cortam as comunicações, e no dia marcado o conduzem para um lugar secreto. Ele é plugado a sensores que avaliam sua pressão sanguínea, batimento cardíaco, condutividade da pele, ondas cerebrais, etc. , enquanto ele responde perguntas sobre uma infinidade de assuntos, desde coleta do lixo até ser contra ou a favor de um incinerador central.

Mas... por que Norman? Resposta: porque Multivac examinou os dados da população dos EUA e considerou que ele era ?...não o mais esperto, o mais forte, ou o mais sortudo, mas o mais representativo desse ano?. O mais mediano. O eleitor padrão. E é de acordo com as opiniões de Norman que o próximo Governo será eleito. No fim do interrogatório, Norman é liberado, e pergunta timidamente quem foi o candidato que ele acabou de eleger. Respondem-lhe que é segredo, e que terá de esperar a proclamação oficial. O que me lembra a velha história do coronel nordestino ? o morador do sítio entrega-lhe a cédula em branco, o coronel preenche, bota na urna, o morador pergunta em quem votou e o coronel diz: ?Oxente, meu filho, que pergunta é essa?! O voto é secreto!!!?.

O conto de Asimov ilustra um velho ideal científico: a perfeição total na arte da projeção estatística. Dizem os ibopes que numa pesquisa de recorte bem feito (idade, classe social, região, etc.) chega um ponto a partir do qual a resposta é a mesma, com 2 mil, 200 mil, 2 milhões de pessoas. Asimov se pergunta se conseguiremos um dia encontrar a Amostragem Perfeita. Tema atualíssimo... abordado há 55 anos.






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Bráulio Tavares é escritor, roteirista e compositor. Compilou a primeira bibliografia do gênero: o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional). Autor de ?A Espinha Dorsal da Memória?, ?A Máquina Voadora? e ?Anjo Exterminador? (todos pela Rocco). Organizou as antologias "Contos obscuros de Edgar Allan Poe", ?Freud e o Estranho?, ?Contos Fantásticos no Labirinto de Borges? e ?Páginas de Sombra? (todos pela editora Casa da Palavra). E-mail: btavares13@terra.com.br  





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Bráulio Tavares