20/02/2011 Número de leitores: 767

Imagens da noite, des(h)armonia para muitas vozes

Marco Aqueiva Ver Perfil

Por Marco Aqueiva


                                            Novalis 2 x 1 = 1

                                            (2) Só o incompleto pode levar-nos mais adiante.

                                             X

                                           (1) Mais celestes que essas estrelas cintilantes
                                        parecem-nos os olhos infinitos que a noite abriu
                                        em nós
.[1]

                             Resultado: uma forma interna que mal se comporta



A noite chega reverberando um jardim com rosas e saudades. Primaveras e festinhas nas bochechas, já a sinto sutil com seu hálito amadurecendo. Verão quente, fala-me de ares pouco amenos e menos campos de beleza, mas a sedução da noite não me fala sem tropeço. Não me dou sem rogo, que estou mesmo é orando, de olho no teto. Um pouco antes do teto, os olhos largados na descontinuidade dos cliques. Durante a noite funda, olhos palavras e dedos aprofundam-se na linguagem de descaminhos que, solitária, encontra rastros e se agiganta em um complexo viário de vozes e textos. Do livro à janela do navegador. Da janela do navegador ao livro. Marinhagem. Experiência como outras de voo, alunissagem e sondagens. Estou do lado errado da noite e não escapo ao outro lado. À noite errante. Ao acaso. Ao olhar falho que salta do monitor às quatro paredes e se fixa no teto.


Apenas um detalhe na pintura do teto, segredo revelado na arte por encomenda.


Tinha olhos grandes e asas saindo das têmporas.
Nada se assemelhava às formas que saltavam de outras vestes.


Durante a noite se descolava e pousava no ombro da assombrada. Juntas, percorriam os sinos.


O mestre barroco a tatuou nas orelhas, sugou-lhe os olhos e cravou-lhe trinta e dois dentes na nuca.


No século dos amantes, saiu com a luz mais fresca e foi até a árvore do adro. As asinhas filtravam os azuis clarinhos da manhã. Seus olhinhos secos sonhavam com o homem que esculpia a proa de um barco na selva.


O mestre partiu e ela, detalhe.


Olhinhos secos escorriam pelo tronco do visionário.

Encostou as tatuagens na caixa torácica dele e transmutou-se no som/fluxo da artéria.


À frente, na proa, a mulher assombrada, linda, na transparência pousada.


Quando o século dos amantes derramou seus laranjais e azuis avermelhados, voou de volta para a pintura do teto.


A arte, o detalhe.[2]


Acontece-me alguma coisa estranha, ignorada na reverberação das palavras quando o eco dos amantes. Anoitecem-me cavidades de silêncio nos laranjais e azuis avermelhados que se derramam e tropeço nessa noite sobrecarregada de clarões.

Respirando a noite, os sentidos seguem permeáveis aos textos que leio. Da emoção suscitada do poético, uma leitura recombinante para registrar riscos e transpirações de leituras, as apostas da linguagem que, por natureza, é experiência de um, de todos, de ninguém, de confrontos e deslocamentos. Palavra imantando-se imprevista na experiência coletiva da desmoldagem.

Pensou garça, pato, corvo, aves todas, não, voar não lhe convinha, alto demais. Pensou vermes, lombrigas, minhocas, não, toscos demais, sem começo nem fim. Pensou árvores, carvalhos, tucaneiras, inhoçaras, jacarandás, não, fixas demais, verdes. Pensou pedras, diamantes, ametistas, metais, ouro, cobre, zinco, não, frios demais, duros, estranhos. Pensou carros, computadores, aviões, foguetes, não, frágeis demais, fáceis de estragar e morrer. Vasculhando até descobrir o que seria, ele pensou homem, sim, superior, intenso, consciência. Resolveu ser homem. Arrependeu-se no quarto dia. Tornou-se um mourão de cerca enterrado no brejo. Está feliz, apesar da umidade nos pés.[3]

Desmoldando-se, linguagem como noite no sem limites que não distingue na escuridão profunda um texto de outro. Uma voz de outra. Experiência da linguagem poética. De partilha individual e coletiva. Da palavra não adestrada. É o próprio texto poético em sua duplarticulação: linguagem sobrecarregada de noite e clarões imprevistos. Experiência daqueles: os não adestrados. Só na impermanência é que podemos ser (quase) tudo.

Falaram-me da impermanência. Eu não acreditei, disse-lhes que ficaria. Eu choraria meus mortos com agulhas fincadas nos lábios e dentes quebrados. Eu agüentaria a dor porque sou homem. Isto basta para ficar.

Falaram-me então do desejo acossado dentro do espírito. Eu não sucumbi. Disse-lhes: o desejo é vento. O invisível não se acossa. Eu o manteria livre e por essa condição longe de mim.

Argumentaram sobre a inquietude danosa da poesia. Eu fingi desatenção. Mas sob os pés fervilharam estiletes, sombras, víboras e versos. Desde aquele instante, ando grunhindo meus dias. Não tenho mais sossego, cadeira, poço. Fui alçado a rio, albatroz, nuvem, papel.[4]

Quando do avanço com os olhos não se vai além do teto, quando no coração da noite de nada servem trevas e profundidade, escuridão e clarões fustigam entre um clique e outro o monitor de águas fundas e distância mínima. 

Noites cheias de palavra sobrerrealizam-me a sensação de o corpo estar sendo carregado pelos (des)nortes da linguagem: escuridão e clarões que me falam da vastidão do poético.




Notas:
[1] Novalis por Antonio Cicero.
[2] Texto ?Uma canção para o mestre?. In: Adriana VERSIANI. Livro de papel. Belo Horizonte: Edição do autor, 2009.
[3] Texto ?Os não adestrados?. In: Rubens da CUNHA. Vertebrais. Joinville: Edição do autor, 2008.
[4] Id.ib.




                                                 * * *


Marco Aqueiva, poeta, autor de Neste embrulho de nós (Scortecci, 2005) e de Sóis, outono, sou? (Dulcineia Catadora, 2009), é professor de literaturas brasileira e portuguesa no ensino superior. É o idealizador, editor e administrador do Projeto Valise 2008 no endereço http://aqueiva.wordpress.com E-mail: marco.aqueiva@gmail.com

Marco Aqueiva