26/04/2011 Número de leitores: 253

A minha bigorna

Rafael Sperling Ver Perfil

Por Rafael Sperling





       A minha bigorna


A minha bigorna cantou uma ária de Puccini com muita elegância.

Depois me disse que estava esperando um filho. Abriu sua vagina e me mostrou o feto de bigorna que havia dentro de seu útero: uma pequena bigorninha.

Me contou sobre o seu passeio no parque. Como correu por entre as árvores brincando com os cachorros que lá estavam e com os esquilinhos. Também brincou com algumas crianças, a minha bigorna adora crianças. Brincou de jogar bola e de esconde-esconde.

Ela disse que havia dormido muito bem naquela noite. Estava tendo problemas de insônia, mas tomando os remédios indicados pelo médico estava adormecendo com facilidade. "É a ansiedade", dizia.

Minha bigorna gosta de filmes românticos. Sempre se emociona quando os casais conseguem ficar juntos no final. É muito sentimental.

Ela também gosta muito de luta livre, de ver o sangue, os ossos quebrados. Ela grita e gesticula em frente à TV.

Trabalha num escritório de advocacia. Nunca perdeu um caso. Se dedica de corpo e alma ao trabalho.

Nas horas vagas, pratica ginástica olímpica. É uma bigorna muito elástica. Os outros atletas a invejam. Talvez participe das próximas Olimpíadas.

Está escrevendo um livro de memórias. Minha bigorna viveu coisas que até Deus duvida.

Está ficando enjoada de pular de paraquedas. Quer algo mais emocionante.

Adora comer. Embora goste muito de junk-food, procura comer coisas mais saudáveis, não quer ter problemas de circulação quando for mais velha.

Na revista Forbes, foi considerada uma das bigornas mais importantes do mundo, está entre as 20 primeiras.

Ela não vê sentido em fazer o que não tem vontade de fazer. Vive pelas suas paixões. Provavelmente foi a bigorna mais feliz que já existiu.

Minha bigorna amou e foi amada.
Solucionou os problemas da paz e da fome mundial.
Me olhou com os olhos marejados de lágrimas e sorriu.
Levantou voo e viajou até o fim do universo

(E foi utilizada para malhar e amoldar metais)



                                                   *



       Túneis


       Dagda gostava de ler revistas. Ela não sabia ler direito, mas gostava de olhar as imagens. Havia frequentado escolas caríssimas, assistido às aulas, mas não conseguira aprender a ler direito. Então olhava as fotos das revistas; via aquelas pessoas sorrindo e fazendo coisas. Mas não entendia o que estava acontecendo. Esforçava-se muito para ler; passava horas tentando decifrar o que estava escrito e relacionar as imagens com os textos. Isso ocupava praticamente todo o seu tempo.
      
Enquanto isso, Plonho ficava no berço, abandonado. Sua mãe quase nunca ia ver se estava precisando de alguma coisa, de um banho ou de comida. E quando vinha era sempre com uma revista na mão; mal tirava os olhos dela, e quando tirava, era só por distração mesmo. Como era um bebê, Plonho não sabia fazer nada. Então, ficava ouvindo os sons da rua: as pessoas falando, os carros, as obras, os cachorros latindo. Gostava especialmente do barulho dos carros. Ele queria muito poder ver os carros de perto.
      
Um belo dia, enquanto sua mãe tentava decifrar uma matéria sobre cirurgias plásticas em mamilos, Plonho escalou e saltou de seu berço. Ele caiu de cabeça no chão e chorou, mas Dagda não fez nada além de emitir um gemido, dando a entender que havia escutado o impacto. Plonho não havia se machucado muito e logo se pôs a engatinhar. Foi até a porta da rua e se levantou, na tentativa de abri-la. Começou a bater na porta e a gritar loucamente. A mãe, sem tirar os olhos de uma matéria sobre musculação para cachorros, caminhou até a porta e a abriu, dizendo algo como "se cuida". Plonho engatinhou para fora de casa.
      
Plonho e Dagda moravam de frente para uma rua muito movimentada. Milhares de carros passando sem parar. Num momento de calmaria, Plonho engatinhou até o meio da avenida e parou. Livrou-se de suas fraldas e, após encostar sua cabeça no asfalto, utilizando as duas mãos, abriu seu cu. Um primeiro carro adentrou a avenida em alta velocidade; o motorista ainda tentou buzinar ao ver a bunda de Plonho logo à frente de seu veículo, mas já era tarde demais. O carro adentrou o cu de Plonho, que sorriu e achou aquilo muito engraçado. Como era muito pequeno, os motoristas não o enxergavam até pouco antes de estarem adentrando seu orifício anal. Seguiram-se muitas horas ? milhares e milhares de veículos caíram nessa armadilha inocente. Os veículos iam entrando em seu cu e desapareciam.
      
Num certo momento, Plonho começou a se sentir mal, a quantidade de carros dentro de seu reto e intestino grosso estava começando a ficar demasiadamente grande; os novos veículos acabavam empurrando os que primeiro haviam chegado ali. Já havia, agora, carros no estômago. E assim, eles começaram a ser empurrados e empurrados até alcançarem a boca de Plonho.
      
Então, aquele primeiro carro que havia adentrado o seu cu pôde prosseguir viagem. E assim, com o passar do tempo, o fluxo de automóveis se normalizou, de forma que a quantidade de carros que entrava era igual a que saía.
      
Até que um dia Plonho enjoou daquilo, resolveu que iria voltar para casa. Fechou seu cu ? o que causou grande indignação dos motoristas, pois era hora do rush ? e esperou que os carros que transitavam dentro de seu corpo terminassem de sair. Depois disso, subiu na calçada e engatinhou até a porta de sua casa. Esmurrou-a até sua mãe abrir.
      
Sem tirar os olhos de uma revista pornográfica especializada em sexo anal, ela disse "Oi, filho". Plonho engatinhou até seu berço e dormiu. Sonhou com túneis e estações de metrô.



                                                 * * *

 

Rafael Sperling nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Compositor e produtor musical, estuda Composição na UFRJ, além de escrever no blog www.somesentido.blogspot.com. Seu primeiro livro, "Festa na usina nuclear", será lançado em breve pela editora Oito e Meio.
E-mail:
sperling.rafael@gmail.com

Rafael Sperling