16/11/2011 Número de leitores: 418

Marte vs. Maranhão

Bráulio Tavares Ver Perfil

Por Bráulio Tavares

Marte vs. Maranhão



A famosa transmissão radiofônica de ?A Guerra dos Mundos?, feita por Orson Welles em 1938, contou a história em forma de noticiário jornalístico e todo mundo pensou que o país estava sendo invadido por marcianos. É uma das pegadinhas mais famosas da história. Mas não foi a única vez em que isto aconteceu. Em 1949, o golpe foi repetido num país latino-americano. Em seu livro ?The Panic Broadcast?, Howard Koch (roteirista do programa original) diz que foi no Peru; mas encontrei relatos de que foi no Equador (
http://glo.bo/sxFivs). Traduziram e transmitiram o noticiário marciano, mas desta vez a população não gostou: quebrou e incendiou a rádio local, e tudo acabou com seis mortos. Mas não é este o nosso tema para agora.

A mesma transmissão foi encenada no Brasil, no Maranhão, em 1971, no aniversário da Rádio Difusora local (vejam a matéria aqui: http://glo.bo/rVo0fy). Toda a história está contada no livro ?Outubro de 71 ? memórias fantásticas da guerra dos mundos?, de Francisco Gonçalves da Conceição, professor que coordenou o trabalho de uma turma de graduação em Jornalismo e Relações Públicas. O responsável pelos efeitos sonoros do programa, Manoel José Pereira dos Santos, ?Pereirinha?, hoje com 61 anos, diz: ?Não tínhamos o que fazer, era uma brincadeira. Mas não sabíamos o alcance e o poder do veículo que tínhamos nas mãos?. A população, pra variar, acreditou que os marcianos estavam invadindo o Maranhão, e procedeu de acordo.

Tudo isto aconteceu em plena ditadura, e ninguém foi preso! A notícia diz que os radialistas foram obrigados a entregar uma gravação em fita do programa à Polícia Federal, e deram um jeito de enxertar nela avisos de que o programa era uma obra de ficção, avisos que não foram feitos na transmissão ao vivo. Vejam aqui parte da gravação:



Orson Welles, em seu programa, trouxe para os EUA a ação do romance de H. G. Wells, que se passa na Inglaterra. O roteirista Sérgio Brito, hoje com 72 anos, diz que também adaptou a história para o Maranhão. Referiu-se inclusive ao pouso de um ?estranho objeto? no Campo de Perizes, que é a única saída terrestre da ilha de São Luís, e explica: ?Eu tinha medo de uma fuga em massa acontecer, então coloquei uma nave espacial ali?.

Profetizo que a próxima encenação dessa história se dará através do esforço conjunto de alguns espertinhos que, via Twitter e Facebook, enviarão ao longo de algumas horas testemunhos, ?fotos? e depoimentos que se confirmarão uns aos outros e, pela multiplicidade de fontes, darão a mesma impressão de realidade que o noticiário radiofônico produzia nas pessoas de anos atrás. Querem apostar?...


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O ponto e o asterisco


Sugiro ao leitor que espere anoitecer (caso esteja lendo isto durante o dia) e saia ao ar livre. Se for uma noite limpa e sem nuvens, verá o céu estrelado. Este céu que há milhares de anos serve de inspiração aos artistas e de desafio aos cientistas... aquela lenga-lenga toda. Todos nós já vimos e admiramos um céu estrelado. Todos sabemos que quando estamos admirando as estrelas com uma moça bonita do lado, basta uma conversa bem encaixada para que as coisas se encaminhem a nosso favor. As estrelas são mágicas.

O que pergunto ao leitor é o seguinte: quando você vê uma estrela, que formato tem ela? Um ponto ou um asterisco? Lembre que a imagem tradicional da estrela, rabiscada a lápis ou gravada num monumento da antiguidade, é de uma espécie de asterisco, algo assim: ?*?, uma porção de raios divergentes que se espalham em todas as direções a partir do centro. É assim que as estrelas vêm sendo reproduzidas graficamente desde que o mundo é mundo. Dessa imagem inicial surgiu a estrela do xerife, a estrela de cinco pontas (ou pentaclo) dos magos, a estrela de Davi (de seis pontas), etc.

Para mim isto sempre pareceu natural, porque até os dezenove anos eu olhava para o céu noturno e o via coberto de asteriscos faiscantes. O problema é que quando comecei a usar óculos essa imagem mudou. As estrelas viraram prosaicos pontinhos, de uma nitidez perturbadora, e sem um raio sequer! Vistas com as lentes que corrigiam minha miopia, ficaram mais nítidas, mas graficamente mais pobres. (De vez em quando, quando o céu está bonito, tiro os óculos para ficar míope de novo e curtir melhor aquela beleza).

Duas teorias. Primeira: os antigos eram míopes, e viam as estrelas não em forma de pontos, mas de asteriscos, e as reproduziam assim nas cavernas, nos monumentos, nas ?estelas? de pedra esculpida. Uma boa questão oftalmológica: como eram as condições de visão dos homens da antiguidade? Segunda teoria: mesmo quando eles enxergavam as estrelas como pontinhos nítidos, porque tinham visão normal, aceitavam e reproduziam o formato de asterisco proposto pelos míopes. Por que? Porque a imagem do asterisco é graficamente mais rica (tem mais informação visual) do que a imagem de um ponto. Se você desenha um asterisco numa folha de papel e pergunta o que é, muita gente vai dizer que é uma estrela. Se desenha um ponto, poucas pessoas dirão o mesmo. Embora seja uma imagem mais fiel ao modo como um olho normal vê uma estrela, o ponto é uma imagem mais vaga, mais parecida com qualquer coisa, menos específica. Os míopes, somente os míopes, veem a estrela artística; os outros veem a estrela científica e nada mais.



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Bráulio Tavares é escritor, roteirista e compositor. Compilou a primeira bibliografia do gênero: o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional). Autor de ?A Espinha Dorsal da Memória?, ?A Máquina Voadora? e ?Anjo Exterminador? (todos pela Rocco). Organizou as antologias "Contos obscuros de Edgar Allan Poe", ?Freud e o Estranho?, ?Contos Fantásticos no Labirinto de Borges? e ?Páginas de Sombra? (todos pela editora Casa da Palavra). E-mail: btavares13@terra.com.br





Nota da Redação: aproveite para assistir palestra de Bráulio Tavares sobre Edgar Alan Poe na TV Cronópios. Esta palestra, transmitida ao vivo e gravada pela TV Cronópios, já foi vista por mais de 1.400 pessoas, um sucesso de público. Para acessar a palestra ?Histórias desconhecidas de Edgar Allan Poe?, clique no link:
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Bráulio Tavares