31/01/2012 Número de leitores: 373

Literatura Conceitual e O gênio não-original

Bráulio Tavares Ver Perfil

Por Bráulio Tavares


Literatura Conceitual

Tenho falado aqui nesta coluna sobre a Literatura Conceitual, aquela que ao invés de pretender apenas contar uma história, como se faz desde que o mundo é mundo, inventa um truque ou efeito qualquer, e produz textos que da primeira à última palavra obedecem a essa regra estrutural. Esse tipo de literatura é geralmente praticado por grupos de autores de vanguarda. Os Surrealistas disseram: ?E se a gente escrevesse textos sem pensar, sem escolher, sem criticar, escrevesse a toda velocidade o que a mente inconsciente nos diz??. Os membros da Oulipo (?Ouvroir de Littérature Potentielle?) disseram: ?E se a gente criasse regras matemáticas ou geométricas, totalmente arbitrárias, e produzisse textos de acordo com elas??.

Esse procedimento não é privilégio das vanguardas. Aliás, o que as vanguardas fizeram (justificando seu nome) foi antever processos artificiais (ou pelo menos mais artificiais do que os processos em voga no seu tempo) de produzir textos, os quais começaram a ser postos em prática décadas depois pela literatura de massas. Ultimamente, por exemplo, alguém disse: ?E se a gente reescrevesse romances clássicos cujo texto está em domínio público, enxertando neles novos parágrafos, ou capítulos inteiros, com a finalidade de transformá-los em livros de terror??. E daí surgiram ?Orgulho e Preconceito e Zumbis? de Jane Austen e Seth Grahame-Smith, ?Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos? de Jane Austen e Ben H. Winters, ?Dom Casmurro e os Discos Voadores? de Machado de Assis e Lúcio Manfredi, e vários outros. Esses romances trazem para a literatura a prática, hoje comum na música, que consiste em pegar os elementos originais de discos já gravados e fazer um ?remix?, um ?mash up?, etc. ? ou seja, recombinando, eliminando elementos do original, fundindo-os com os de outras obras, e assim por diante.

Algum vanguardista escandalizado pode espernear dizendo que o termo ?Literatura Conceitual? não se aplica a essa prática, que (segundo ele, talvez) não passa de uma jogada comercial. Para mim se aplica, pois Literatura Conceitual não passa de uma literatura que adota um princípio básico, meio arbitrário, de estrutura, de forma ou de técnica, e se atém a ele de maneira radical e inflexível. Comparar os livros citados acima com as obras dos surrealistas e dos oulipoetas revela apenas que as vanguardas são sempre mais bem-humoradas e brincalhonas do que aparentam; e que o público desses romances populares é capaz de entender um jogo conceitual, desde que seja feito em cima de conceitos que lhe são familiares e resultem em processos que eles sejam capazes de acompanhar. 


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O gênio não-original

Kenneth Goldsmith, um questionador das práticas literárias, é fundador do saite UbuWeb (www.ubuweb.com), conhecido como ?o YouTube da vanguarda?. Eu não diria que é um grande escritor, e é bastante possível que, ganhando de presente um livro dele, nunca o lesse. A maldição da vanguarda é que geralmente seus postulados teóricos são fascinantes e arrojados, mas suas produções artísticas nos deixam entediados ou perplexos. Num artigo recente (http://bit.ly/npT8zj), Goldsmith argumenta que na época da cultura digital o conceito de originalidade artística está sendo substituído pelo de ?reorientação? (?repurposing?) das idéias e dos textos. Mais do que produzir páginas originais, cabe ao escritor de hoje administrar um excesso de textos já existente, organizá-lo, distribuí-lo. Diz Goldsmith:

?Nos últimos cinco anos, vimos alguém copiar ?On the Road? de Jack Kerouac por inteiro, uma página por dia, num blog; a apropriação do texto de uma edição do New York Times, publicada sob a forma de um livro de 900 páginas; uma reorganização da lista de lojas num shopping, diagramada em forma de poema; um escritor empobrecido que pegou todos os seus extratos de cartão de crédito e os encadernou num volume impresso por demanda, com 800 páginas, tão caro que ele próprio não conseguiu comprá-lo; um poeta que reorganizou o texto de uma gramática do séc. 19, inclusive o índice, de acordo com seus próprios métodos; um advogado que apresenta como poemas os memorandos do seu trabalho, nem mudar uma palavra sequer; outra escritora que passa os dias na Biblioteca Britânica copiando o primeiro verso do ?Inferno? de Dante, em todas as traduções ali existentes, um depois do outro, até esgotar o acervo da biblioteca; outra equipe de escritores que se apropria de posts e status de redes sociais e os atribui a escritores falecidos (?Jonathan Swift conseguiu entradas para o jogo dos Wranglers hoje à noite?), criando uma obra poética épica, interminável, que se reescreve cada vez que alguém atualiza seu Facebook; e um movimento literário chamado Flarf que consiste em recolher os piores resultados de busca do Google, quanto mais ridículos e ofensivos melhor?.

Esses escritores são as formigas operárias da literatura, cujo trabalho consiste em cortar folha e trazer folha, para produzir a pasta fermentada que alimenta o formigueiro. Não creio, como Goldsmith, que o gênio original deixou de existir, mas acredito que em torno do Escritor tradicional surgem reescritores, descritores, transcritores, meta escritores... A Literatura está se movendo, e nós, suas pulgas, nos movemos com ela, crentes que ela obedece às nossas vontades.


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Bráulio Tavares é escritor, roteirista e compositor. Compilou a primeira bibliografia do gênero: o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional). Autor de ?A Espinha Dorsal da Memória?, ?A Máquina Voadora? e ?Anjo Exterminador? (todos pela Rocco). Organizou as antologias "Contos obscuros de Edgar Allan Poe", ?Freud e o Estranho?, ?Contos Fantásticos no Labirinto de Borges? e ?Páginas de Sombra? (todos pela editora Casa da Palavra). E-mail: btavares13@terra.com.br





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