06/05/2013 Número de leitores: 1011

A linguagem febril de Renato Essenfelder

Daniela Lima Ver Perfil

Estamos em permanente mudança. Algumas são menos perceptíveis, como um rio que parece o mesmo, apesar de suas águas mudarem continuamente. Mas as mudanças mais drásticas e perceptíveis são impulsionadas por situações que não podemos dominar, como as reações e sentimentos do outro, as paixões e até o nosso próprio corpo, que adoece e envelhece à nossa revelia. Tudo aquilo que não escolhemos se traduz em mudança. O “não” move mais do que o “sim”.


Um “não” inesperado, violento e incontrolável torna um homem estrangeiro de si mesmo. Impulsiona uma mudança tão drástica, que o corpo, resistente, reage entrando em delírio febril. Esta é a trama de
 Febre, primeiro romance de Renato Essenfelder, lançado em março de 2012 pela editora Patuá.

Febre é uma defesa orgânica primitiva contra diversos males. Mas, no caso do livro homônimo, é a tradução orgânica de um sentimento intraduzível. Um homem sem nome que, talvez por medo de escolher, espera que o seu futuro se defina na resposta de uma mulher. Esta, com nome: Mira.

“Desde que disse ‘não’. Desde que, depois do não, disse nada. Nada. Roubando-me sete anos – ou melhor, aprisionando-me neles para sempre, como uma criança eterna, alijada do futuro”. (Febre, p. 26)

A resposta se apropria deste homem, que se vê indefeso diante de sua namorada, dez anos mais jovem, segura e bem-sucedida. O conhecimento adquirido em anos de leitura não protege nem prepara o protagonista, um intelectual de gabinete, do caráter imprevisível da vida – do não de Mira.

Mira é impenetrável. E assume um lugar que nunca será ocupado pelo protagonista. Diante disso, ele inicia um processo de delírio, que se reflete na sua linguagem. Goethe afirma que existem diferentes níveis de relação com a linguagem. Na rotina, não os percebemos, usamos uma linguagem automática, como o “tudo bem?” ou o “bom dia” no elevador. No entanto, quando se adquire um nível mais profundo de relação com a linguagem, outra linguagem aparece, a poética.

A poesia em que se traduz a febre do protagonista traz o leitor para a primeira pessoa, como se fosse possível – e é – estar naquele lugar. A febre do professor não tem bordas, escapa do livro e contamina o leitor a cada virar de página.

“Que venha então, natureza maldita, que venha a sua língua esquisita tocar minhas cavidades, preenchendo poros de veneno e saliva [...] meu corpo é LAMA, Mira, lama seca, barro quebradiço, o acúmulo incessante de poeira d’estrelas mortas [disso que somos feitos, você sabia, pai? Poeira d’estrela, como a pedra, como toda a natureza!”. (Febre, p. 96)

O texto de Renato se abre em abismo. Convidando o leitor a examinar o corpo aberto deste homem; a dar-lhe um nome. Embalá-lo e preencher os seus vazios. Renato abre o corpo e consegue mantê-lo aberto, deixando que o leitor o modifique. E, quem sabe, se modifique. Afinal, um dos papéis da literatura – da boa literatura – é imprimir mudanças. Brilhante estreia de Renato Essenfelder.



        Febre
        autor: Renato Essenfelder

        editora: Patuá

 

 

 

 
Daniela Lima