07/10/2016 Número de leitores: 1250

UMA PÉTALA DE CEREJEIRA AO SABOR DO VENTO

Krishnamurti Góes dos Anjos Ver Perfil

...AO SABOR DO VENTO

Por Krishnamurti Góes dos Anjos

Os contos reunidos por André Kondo em seu último livro “Contos do Sol Renascente” (Telucazo Edições, Jundiaí-SP, 2015-116p.), em número de 15, foram todos (a exceção de um), premiados em diversos concursos literários. O próprio livro obteve uma Menção Especial no Prêmio Humberto de Campos da União Brasileira de Escritores UBE/RJ.

Estamos portanto diante de um autor experiente, que soma aos 8 livros já publicados, mais este no qual deixa registrada uma singularidade quanto à ambientação. Embora tenha nascido no Brasil, suas ficções se passam em terras do sol nascente. São textos repletos dos valores herdados da milenar tradição cultural japonesa. Entretanto, não se trata de ficções que reproduzem banalmente os costumes ou práticas nipônicas. As narrativas tiram significado da vida reinterpretando verdades num lirismo que nos encanta e cativa profundamente, revelando uma mundividência que permite não somente atribuir sentido ao mundo, como organizá-lo em um todo coerente. O autor consegue manejar a imaginação transfiguradora do real para revelar sua cosmovisão ensinante e guiadora. Os valores com que joga, são dos mais caros à vida humana: o amor, a verdade, a disciplina, a honra, a veracidade, a sinceridade e sobretudo a memória – tema recorrente em vários contos. Sempre profundas reflexões a respeito dessas e outras questões. Kondo o faz como que insuflando ar novo em suas histórias, oxigênio puro que as faz levitar (e a nós leitores também), como uma pétala da árvore da cerejeira ao sabor do vento. Suavemente. Poeticamente poderíamos dizer, posto que certos trechos de alguns contos constituem verdadeiras clareiras poéticas.

Outras passagens, denotam uma filosofia de vida de rara simplicidade e grande argucia (breves transcrições o comprovam).

O homem é tolo. Ansioso por descobrir a verdade, concentra-se apenas naquela que lhe parece a mais atraente, ignorando todas as outras verdades que também carregam a essência da vida”. p.17

 

“Só quando, finalmente, fecho os olhos, eu chego ao topo, pela última vez. E compreendo que o destino de um homem não se prende aos seus passos. O destino de um homem é escalar a própria alma: é ser a própria montanha”. p. 45

 

E finalmente, trecho memorável do conto “O castelo”, a lembrar-nos uma realidade que nós, os ditos “ocidentais”, insistimos em não considerar devidamente:

 

“ - Todos os homens são castelos de si mesmos. Mas o que temos de diferente de todos os outros? O que o nosso castelo de Himeji em cada um de nós tem de especial? Quando todos observam de fora a nossa torre principal, o coração de nossa fortaleza, eles só enxergam cinco andares. Mas nós sabemos que existe um sexto pavimento, oculto, na câmara superior. Esse andar, que os estranhos desconhecem e de que até nós nos esquecemos de sua existência, não tem nome. A partir dele, temos a visão geral dos quatro cantos do castelo, temos a consciência de tudo o que nos cerca. Este andar oculto, da consciência em nosso coração, é o mistério da vida. E por ser inominável, invisível e inexplicável… faz do nosso coração um mistério capaz de alcançar o impossível!” p.102.

 

Assim as ficções de André Kondo. A traduzirem um extraordinário sentido existencial, a contribuir em boa hora, e em um meio tão desequilibrado como está o mundo hoje, para a construção de uma reflexão no sentido da emancipação humana (renovando esperanças em nossos destinos – o sol renascente). Aquela capacidade de intervirmos e transformarmos a realidade para uma reumanização de sentido da própria vida.

 

 

OBS: A imagem do castelo de Himeji que ilustra o conto “O castelo” é de autoria do artista Alessandro Fonseca, e é a mesma da capa do livro. Vale a pena conferir e refletir após a leitura. Uma vez, e ainda outra vez mais.

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