24/10/2005 Número de leitores: 248

O adversário e o olho clínico

Bráulio Tavares Ver Perfil

Por Braulio Tavares








O Adversário

 

Nos primeiros dias de 1993, um incêndio destruiu uma casa na região francesa de Prevessin, perto da fronteira com a Suíça, onde morava um médico, Jean-Claude Romand, pesquisador da Organização Mundial da Saúde, em Genebra. Os bombeiros tiraram da casa em chamas os cadáveres da mãe (Florence) e dos dois filhos (Antoine e Caroline); o pai estava gravemente queimado, mas vivo.  No dia seguinte, o tio de Romand foi à casa dos pais dele para dar a notícia.  Chegando lá, encontrou o casal de velhos morto a tiros de espingarda, juntamente com o cachorro. A polícia pensou em vingança: quem teria tentado exterminar uma família inteira, em duas casas situadas a 80 km de distância?  Mas aos poucos surgiu uma verdade mais chocante do que o crime em si. O criminoso era o próprio Dr. Romand: ele matou a mulher e os filhos, depois pegou o carro e viajou para matar os pais, aí voltou e ateou fogo à casa. Por que?

 

A investigação revelou uma verdade muito mais inacreditável. Descobriu-se que o Dr. Romand não trabalhava na OMS, como acreditavam todos os seus parentes e amigos: ninguém lá o conhecia, seu nome não constava dos registros, nem dos anuários médicos. Acabou-se descobrindo que ele nem sequer tinha se formado em Medicina, tendo abandonado os estudos no segundo ano. O mais incrível é que sua mulher Florence e seu melhor amigo (e vizinho), o médico Luc Ladmiral, tinham estudado com Romand até a formatura, quando ele, em vez de clinicar, optou por tornar-se pesquisador da OMS.

 

Romand fingiu estudar, fingiu formar-se, fingiu trabalhar, durante dezoito anos ininterruptos, mentindo a todas as pessoas que o conheciam. Todo dia pegava o carro, cruzava a fronteira suíça e ficava zanzando, tomando café, lendo jornais.  Alguém perguntará: e como ganhava a vida?  É aí, no bom e velho capítulo financeiro, que começa a tragédia. Como tinha acesso a bancos suíços, ele começou a pegar o dinheiro dos pais, do sogro, dos amigos, para depositá-lo em bancos de Genebra.  Na verdade, depositava-o em sua própria conta. Ao longo de dezoito anos viveu das economias alheias. Quando o dinheiro acabou e o cerco começou a se apertar, ele resolveu (disse depois, no tribunal) ?matar aquelas pessoas a quem não queria causar uma grande decepção?. Bang, bang, bang.

 

O fato é verídico, já resultou em dois filmes e no notável livro ?L?Adversaire?, de Emmanuel Carrere (Paris: P.O.L., 2000). De mentirosos compulsivos o mundo está cheio, mas, mais do que um estudo sobre a mentira, o caso Romand (http://jc.romand.free.fr/) nos sugere um estudo sobre credulidade, respeitabilidade, aparências. Como é possível que ninguém percebesse? Que ninguém desse um telefonema para checar? A tragédia de Romand nos mostra uma das fragilidades de civilização, do mundo organizado e politicamente correto em que todo mundo confia em todo mundo. Ali, uma bolha de sabão dura dezoito anos, porque ninguém acha necessário tocá-la com a ponta do dedo só pra conferir.





O olho clínico

 

Uma escritora espirituosa disse certa vez que ler um romance escrito por um crítico literário é a mesma coisa que fazer amor com um ginecologista. Nossa mente tem dois sistemas que se comunicam mas que em essência são independentes: um sistema criativo e um sistema analítico. Somos levemente esquizofrênicos. Tem um cérebro que sabe inventar, criar, produzir coisas originais, mas não sabe analisá-las. E tem outro que analisa com perfeição, mas não cria.

 

Um crítico precisa estar consciente, o tempo inteiro, não só do instrumental técnico da escrita, como também da História literária prévia. São estes os principais recursos que ele tem em mãos quando abre um livro alheio e começa a analisá-lo. Nenhum crítico, feliz ou infelizmente, começa a ler um livro do zero.  Nenhum leitor o faz, na verdade; mas vamos reconhecer que o patamar inicial de um crítico (de um crítico culto, experimentado) é bem mais alto. E quando ele se mete a escritor, senta ao teclado e digita ?Capítulo 1?, este grau de auto-consciência técnica pode se tornar mais um estorvo do que uma ajuda.

 

?Este parágrafo está muito seco, muito Graciliano?, pensa o crítico-romancista.  ?Preciso dar um temperozinho Jorge Amado: sensualidade, cor-local...? E lá vai ele. Na primeira revisão ele pensa: ?Estou usando muito o discurso livre indireto, quando na verdade este trecho pede um pouco mais de narrador onisciente, de múltiplos pontos-de-vista...? E por aí vai. Estou caricaturando, é claro; mas se eu, que não sou crítico e que sou bem indisciplinado em técnica, estou volta e meia pensando essas coisas, o que dizer de um sujeito que estudou a vida inteira para isto, que vive disto?

 

Alguns indivíduos, no entanto, parecem um desmentido vivo a esta teoria. O primeiro de que me lembro é Umberto Eco, que não era propriamente crítico literário, era algo pior, era semiólogo. Um técnico altamente especializado, o tipo do sujeito de cuja vocação para a escrita criativa temos algum direito de duvidar.  Escrever criativamente pressupõe um certo grau de espontaneidade, de intuição lúdica, de decisões inconscientes, de improvisos, de venetas inexplicáveis, de desobediência às regras, e de uma série de outros processos que parecem o inverso da mentalidade crítico-analítica. 

 

Perguntaram a Eco por que tinha situado ?O Nome da Rosa? na Idade Média, e ele respondeu: ?Porque conheço a Idade Média melhor do que a época atual?.  Creio que o que fez daquele livro um grande romance foi essa possibilidade de usar, sem as amarras da Historiografia, um ambiente, uma linguagem, um ambiente social e cultural com o qual ele tinha extrema familiaridade. A possibilidade de fazer uma paródia lúdica a um tipo de discurso que ele fora obrigado a ler a-sério durante décadas. A possibilidade de finalmente poder imitar afetuosamente a literatura popularesca (romances policiais e de aventuras) que manteve vivo nele o Leitor, que é a mãe do Escritor (o pai é o Crítico). 














Braulio Tavares é escritor e compositor, e este artigo foi publicado em sua coluna diária sobre Cultura no "Jornal da Paraíba" (http://jornaldaparaiba.globo.com).

Bráulio Tavares