04/12/2005 Número de leitores: 930

Servio Tulio, a fogueira eletrônica

Ana Laura Diniz Ver Perfil

Por Ana Laura Diniz







 

 

Músico, cantor, compositor, radialista e precursor da música eletrônica em Niterói, no estado do Rio de Janeiro. O nome composto antecipa o plural das atividades profissionais e a fortaleza da voz de quem a ecoa: Servio Tulio ? o rei etrusco das canções que ganham o mundo. Com uma dicção excelente, seu alemão agita cabarets, doa sangue Ektoplasma e emociona Saara Saara, deserto de nós.

 

Mais: recentemente Servio e o pianista Glauco Baptista fizeram uma apresentação na Rádio MEC, no Rio de Janeiro, e foram convidados para gravar um CD ainda neste final de ano com o repertório de cabaret. O trabalho sairá pelo selo L`ART (de música clássica), cujo Cast também fazem parte figuras ilustres como a flautista Odette Ernst Dias, o violinista Erich Lehninger, a pianista Lícia Lucas e muitas outras feras da música.

Conhece o que ele faz? Sabe do que falo? Já ouviu o som das bandas que ele participa? Se não, apresse. A prece...

 

Servio Tulio, o mártir revolucionário ?arracional?. Não o conheço pessoalmente, mas a tua sensibilidade transita por lugares tão vastos e profundos que desperta o desejo de querê-lo perto, abraçá-lo forte, lento e longamente como a um irmão.

 

Bom de papo, bom de uísque, bom de All Star nos pés. Inteligente, espirituoso, bem humorado, atencioso e pra lá de simpático. Embora às vezes dê a entender o contrário, fácil se percebe a disciplina em tudo que faz. Se isso não fosse suficiente, o menino é bonito, bonito demais.

 

Em algum lugar deste mundo / Existe um pouco de felicidade / E sonho com isso a cada momento / Em algum lugar deste mundo / Existe um pouquinho de conforto / E sonho com isso há muito, muito tempo... / De todas as estrelas cintilantes na noite escura / Alguma delas tem que ser a minha / E se ela estiver muito longe / Rio de mim mesmo, e isso me consola / Assim garanto que meu grande dia se aproxima mais rápido... / Pois se o Destino me mimar demais / Não terá valido à pena esperar tanto... Em algum lugar deste mundo / Existe um pouco de felicidade... Em algum lugar, de alguma forma, em algum momento...

 

(tradução de Servio para a música alemã Irgendwo auf der Welt, de Werner Richard Heymann e letra de Robert Gilbert, 1932. Ouça essa música e também Die Liebe geht seltsame Wege, de Peter Kreuder e Karl Farkas aqui.

 

 

Servio Tulio, meu menino. Abuso, eu sei, em chamá-lo assim. Puro e simples. Como um violino transcende a alma e o corpo, as cordas. Equilíbrio em tempo integral.

 

Realidade quase mitológica. Pégasus na janela que transporta sonhos. Ouvi-lo é dar uma chance a mais de a vida sorrir agradecida. Nessa hora, o que é confuso ou nebuloso se dissipa e a alma suspira entre flores e madrigais. É brega, eu sei. Talvez. Mas de que vale a vida sem a face piegas do amor? E vamos à conversa ? que Servio é feito de carne, de osso, de sangue ? mais, muito mais: é todo raro esplendor.

 

 

... e o papo se deu via MSN...

 

 

Oi, Servio, ausente, ausente ou ausente, presente?

 

Presente! Estou chamando um táxi para minha mãe. Ela está indo para o chá de bebê da minha irmã. Acho que minha nova sobrinha chega ao mundo semana que vem... (e a menina Beatriz já nasceu). Bom, já estou por aqui. Lembrei de você outro dia, ganhei um All Star azul lindo, mas de um azul que eu nunca tinha visto antes, meio acinzentado... lindo...

 

Que ótimo!! Por aqui eu me frustrei na procura... porque só achei no modelo e nas cores que você não queria: cano baixo, nas cores branca e azul marinho.

 

Por aqui também é dificílimo. Parece que as pessoas pensam que as pessoas que calçam 43 estão em extinção...

 

E Servio comenta do calor dos últimos dias em Niterói. São Paulo também está um forno. Cinza e quente.

 

Ontem rolou uma espécie de furacão tímido por aqui. As mesas do bar todas saíram voando que nem papel. E a telha de alumínio se enrolou toda. Está tudo descontrolado e estou morrendo de medo deste verão. Morro de medo de calor. E me parece que os furacões agora descobriram o Brasil e estão mandando os filhotes para ver se crescem sadios por aqui... A natureza é uma entidade perigosa e vingativa quando quer, não dá para brincar de Deus com ela... Mas as pessoas acham que isso é brincadeira... então acontece o que acontece...

 

Pois é... Servio Tulio é sem acento mesmo?

 

É sem acento mesmo. É o que está na certidão de nascimento e na carteira de identidade. Eu também gosto mais assim. Acento interfere. E assim é mais fácil. Servio Tulio Serodio Abelha, 41 anos. O nome foi presente do avô, que tinha mania de batizar os filhos e netos com nomes de políticos romanos e etruscos. Serodio por parte de mãe e Abelha por parte de pai. Faz aniversário dia 8 de janeiro, igual a David Bowie e Elvis Presley (risos).

 

Com toda certeza seu nome é tão forte e expressivo quanto você. À propósito, como você se define?




 

 

Eu sou uma unidade de carbono... (risos)... Unidade de carbono que tenta ser um animal racional. Tento e tento. O Saramago disse uma vez uma coisa que eu gosto muito: "A palavra ?arracional? não existe. Se existisse seríamos ?arracionais?. Temos muita dificuldade de ascender ao uso racional da razão, que só usamos irracionalmente."

 

De que forma você acha que essa "arracionalidade" se difunde no dia-a-dia?

 

Nós não compreendemos que estamos aqui para um aprendizado. Sei que isto é lugar comum, mas se é lugar comum, ora bolas... Por que então não aprendemos se é tão comum? Acontece quando todos tentam fugir das coisas mais óbvias, e que não dá para escapar.

 

Quando escrevo determinadas coisas ou ouço música, por exemplo, entro numa espécie de transe. É como amar. Quando amo eu vou para um lugar secreto onde minha alma sabe chegar... e é para lá que vou diariamente para matar a saudade ou estar mais próxima de quem amo. A música te leva também para outra dimensão? Quer dizer, se é que você acredita em dimensões paralelas, ou acha esse meu papo coisa de esquisofrênico?

 

Acredito e procuro sentir isso todo o tempo. Nós infelizmente ainda não aprendemos a usar o nosso cérebro. Então temos que nos exercitar neste sentido o tempo todo. Inclusive quando dormimos. E isso é bom porque você consegue desobstruir canais, o que torna mais fácil a percepção do meio. E a música está diretamente ligada a isso, já que é uma linguagem universal.

 

Mas precisa saber dosar, não é? Por que se onde está é melhor que aqui, corre-se o risco de não querer voltar... e aqui é o nosso lugar, enfim... Se aqui estamos, algo temos que aprender e crescer com a realidade e as situações. Quando você viaja muito, exercita no outro pólo algo que o faça voltar, algo que prenda seus pés na terra?

 

Sim, é preciso saber dosar para você não se isolar do mundo. Senão a coisa tem o efeito contrário e não é esse o propósito. Na verdade, não existe o LÁ, existe só o AQUI. É como se fosse uma espécie daquele doce... como é que chama... mil folhas, massa folhada... É uma coisa só. São camadas que interagem, é o exercício da consciência.

 

Exatamente... porque em essência somos uma coisa só... são os caminhos da mente...

 

Também acho. Se você está tocando uma música para um público, existem aqueles que vão viajar junto com você e existem outros que ficarão indiferentes.

 

Mas mesmo a indiferença está dentro da manifestação, pois ela interfere tanto quanto a admiração. No final, temos um somatório de sensações que vão dar em uma única coisa.

 

Conte um pouco sobre a sua formação profissional. Sei que é um excelente cantor, mas também compõe e coordena um trabalho na Rádio do MEC. Como e quando começou seu interesse pela música e pelas demais áreas?

 

Sim, sou músico (intérprete e compositor) e um estudante desleixado de violino. Mas tentarei ser um violinista mais aplicado no ano que vem. Desde pequeno eu gostei muito de música. Isso veio dos meus pais e tios, e acho que principalmente da minha avó... Ela era uma "pianeira" de mão cheia. E na minha família, por vontade dela, sempre quando alguma criança chegava aos 7 anos ia para a aula de piano. E foi assim que comecei a estudar. Uns levavam mais a sério que os outros. Confesso que fui um dos que não levou muito a sério, e apesar de ter continuado a estudar música, no vestibular optei por Belas Artes porque eu achava que eu sabia desenhar. E depois que entrei para a UFRJ cursando Belas Artes, nunca mais desenhei... (gargalhadas)

 

Quer dizer que se formou em artes plásticas?

 

Não cheguei a me formar porque enjoei. Mas por um tempo foi legal, pois aprendi muito sobre História da Arte, estilos de época, conceitos, etc...etc... E isso para mim foi ótimo. Foi aí que conheci a Esther (a jornalista Esther Lucio Bittencourt, minha sócia no site Condomínio Brasil , do qual Servio Tulio é também articulista), por meio de um cara fantástico chamado Sérgio com quem eu fazia análise na época. Ele me indicou para ela, e então começamos a trabalhar juntos no projeto NAVE.

 

Você lembra quantos anos tinha nessa época?

 

Sei lá... final de 84... início de 85... Foi há mais ou menos 20 anos atrás... Uma época que eu já tinha largado o piano, pois me exigia muita disciplina e eu não queria ser pianista. O que eu queria era entender a linguagem da música. Eu era irriquieto demais para me dedicar somente a uma coisa. Parecia que tinha muita coisa acontecendo no mundo e eu não queria perder.

 

Parecia ou parece, acho que essa talvez seja a grande roda viva... sabe-se lá... Mas você citou o projeto NAVE, pode explicar o que significa?

 

Bom, o NAVE era uma espécie de acordo entre a Rádio Fluminense AM e a universidade de comunicação da UFF. E embora eu não fosse aluno da UFF, acabei ficando como uma espécie de braço direito da Esther no projeto. Muito do que aprendi devo a ela. Durante nove meses fizemos todos os tipos de experiência em rádio. Inventávamos um treco por dia. Experimentávamos o tempo inteiro. A Esther dava toda a liberdade para isso. Os programas aconteciam de segunda a sexta, das 7h às 10h da manhã. Estas experiências radiofônicas foram decisivas. Dali eu soube por qual caminho seguir. Foi tão forte que o Rádio acabou me trazendo de volta para o mundo da música. Tudo isso que fazíamos acabou influenciando esteticamente o meu primeiro trabalho com música eletrônica, que foi com a banda Saara Saara, surgido no final de 1985.

 

Depois disso fui contratado pela Rádio Jornal do Brasil, onde trabalhei com muita gente bacana. Meu "mentor" lá era o grande Luís Carlos Saroldi. Um profissional fantástico e uma pessoa maravilhosa.

 

Isso significa que você é o precursor da música eletrônica em Niterói?

 

Sim, sou o precursor da música eletrônica em Niterói, hahaha, o que não é lá grandes coisas, né? (Sérvio, meu querido, desculpe, mas tenho que discordar de você: isso é genial!) E no meio da música pop/rock, o Saara foi uma das primeiras bandas a fazer isso por aqui. (Veja mais detalhes no artigo escrito pelo Servio).

 

Servio, fale um pouco de todas as suas bandas e seus projetos...

 

O Saara Saara foi o primeiro projeto de música eletrônica. Na época isso não era visto com bons olhos por aqui. Diziam que para lidar com música eletrônica não precisava saber música. E isso era maluquice total. Mas nunca nos importamos e até nos divertíamos com isso. A banda fez muitos shows por aí por cinco anos. Depois nossos interesses mudaram um pouco. Eu quis me dedicar ao repertório dos séculos XVI e XVII, queria cantar também canções dos trovadores medievais, fazer madrigais polifônicos da Renascença e música barroca francesa e italiana. Passei 10 anos fazendo isso com o Anonimus e outros grupos menores. Foi uma experiência e tanto.

 

E banda mesmo eu tenho atualmente duas: o SAARA SAARA e a ORQUESTRA EKTOPLASMA. Ambas caminham pela vertente eletrônica. O SAARA SAARA tem um trabalho próprio, com letras escritas por mim e músicas compostas por mim em parceria com Raul Rachyd. Já a ORQUESTRA EKTOPLASMA é mais um caleidoscópio de sons, no qual tocamos além de algumas composições próprias, muitas músicas de outras pessoas também. Mas na nossa visão, temos arranjos próprios. A Ektoplasma já tem um som bem mais pesado, mais ?sujo? por assim dizer do que o Saara Saara, e conta também com um guitarrista (Brian Higgin), um baixista (Roberto de Gasperis) e um percussionista (Yuri Alexei).





                                        Servio e Glauco: duo fantástico!




Além disso, faço um duo com o pianista Glauco Baptista - um trabalho de pesquisa da música popular que era tocada nos cabarés, teatros e filmes europeus e norte americanos da primeira metade do século XX. Mas também tocamos música brasileira destas épocas, como por exemplo canções de Alvarenga e Ranchinho, Lamartine Babo, Noel Rosa, Pixinguinha e muitos outros.

 

Em se tratando da música eletrônica, até pouco tempo atrás o mercado fonográfico viveu a chuva de djs e samplers que se dizem compositores sem de fato o serem. Não acha que houve uma massificação ou melhor dizendo, uma banalização do gênero?

 

Houve. DJ a meu ver sempre foi sinônimo de "o cara que bota a música para as pessoas dançarem numa festa". Obviamente, este conceito foi mudando, porque graças ao girar do mundo, tudo muda. Mas é uma irresponsabilidade conferir ao DJ o título de "compositor". O DJ é um DJ. Existem DJs que são muito criativos e ótimos produtores. Gente que tem talento. Mas cada macaco no seu galho.

 

A "Colagem" de sons existe. O DJ está mais para o que chamam de Sound Designer das pistas de dança do que para compositor. Se bem que a profissão de Sound Designer atualmente também é deveras complexa, porque aí já entraremos no campo do cinema, vídeo, etc.......

 

Lembro nos anos 90 a febre que foi o DJ Memê, que gravou um cd com Lulu Santos. E mais recentemente a onda DJ Patife com Fernanda Porto. O que você acha do trabalho que eles desenvolvem?

 

Eu não gosto muito de ficar falando do trabalho dos outros. Eu diria que o que eles fazem não é a minha praia. Mas acho que para um trabalho que visa ser POP, vender muito, eles são competentes. Eu sou completamente avesso a essas coisas. Inclusive adoro poder ser radialista, pois além de ser uma profissão que me dá muito prazer, me ajuda a pagar as contas. Assim eu tenho a plena liberdade de musicalmente falando, fazer o que me dá vontade sem me preocupar se vão gostar ou não, se vai vender ou não.

 

Há pouco você disse que quando se interessou por rádio tinha interesse em entender a linguagem da música. Você descobriu esse universo?

 

É algo que não tem fim. Estamos sempre buscando. Graças à Deus, seja lá quem ele for, ainda não descobri...(risos)

 

Claro... essa liberdade favorece a criação e o inusitado, não é mesmo? Permite experimentações...

 

Mas cada passo é um passo. Tudo o que eu fiz no terreno da música, vai somando e hoje em dia dá para "brincar" cada vez mais. A gente passa a não ter mais medo. É assim também quando a gente está aprendendo um idioma estrangeiro. Tem uma fase que você fica com medo de se expressar e falar errado. É um senso de responsabilidade com o próximo. De cinco anos para cá, desde o ano 2000, tem sido uma experiência muito forte, por exemplo, interpretar canções de cabaret alemão. Primeiro, porque musicalmente falando para mim era uma linguagem inteiramente nova, com seus próprios códigos. Segundo, porque eu não sabia falar alemão. Foi aí que comecei a estudar a língua, e estas duas coisas - música e fala - foram sendo descobertas juntas. Sei que isso é uma maluquice. Mas foi uma das experiências mais legais pela qual passei.

 

Não acho maluco, mas impressionante. Sua pronúncia é tão impecável quanto a sua capacidade de liberar a emoção enquanto canta...

 

E hoje somos (bem) vistos e reconhecidos pelo próprio Consulado Alemão aqui no Rio de Janeiro. Eles inclusive já nos convidaram para tocar na casa do cônsul. Foi ótimo. Minha primeira prova de fogo. Cantar em alemão para alemães... Frio na barriga. Mas quando senti que logo na primeira música eles estavam entendendo tudo... aí relaxei... (mais risos) É uma língua belíssima e difícil. Mas nada é difícil quando você faz com paixão, né?

 

Com certeza.

 

E depois disso aconteceu uma coisa ainda mais engraçada. Voltando a tocar música eletrônica tanto com o Saara Saara quanto com a Orquestra Ektoplasma, passei a incorporar estas linguagens também nas bandas eletrônicas - tanto a linguagem do Cabaret e Teatro de Revista quanto a minha experiência com música de concerto na década de 90. E aí fica uma bagunça, né? Mas é assim que eu me divirto.


 







Vanguarda, contemporâneos, pós-modernistas. Receio todos esses termos.

 

Eu também tenho um pouco de implicância com o termo "vanguarda"... Eu acho que nada está "à frente do seu tempo". O tempo é esse e agora. A Laurie Anderson quando esteve aqui fazendo um show no Canecão disse para o público uma coisa muito engraçada. Os jornais diziam que ela era uma musicista de vanguarda. Ela então entrou no palco e disse para o público: ? "Senhoras e Senhores, eu gostaria de pedir a vocês que vieram aqui para assistir um trabalho de vanguarda, que adiantem seus relógios uns 15 minutinhos... Assim vocês poderão ter a sensação de estar a frente do seu tempo e não me julgarem uma farsa... (muitas gargalhadas)

 

FANTÁSTICOOOOOOOO!

 

Genial, né? Então este termo para mim não cola. Eu não aguento estes músicos que saem fazendo melecas daqui e dali e dizem que isso é vanguarda. E o pior é que muitos deles ainda estão atrelados àquela estética dos anos 60. Eu costumo chamar isso de vanguarda mofada. Por essas e outras é que ri muito quando a Laurie disse aquilo. Até porque sou fã dela também.

 

E o que mais você gosta de ouvir, Servio?

 

Eu gosto de ouvir muita coisa. Bom, eu trabalhei metade de minha vida como produtor e programador de emissoras de música clássica, como a JB, a Opus 90, a MEC. É natural que eu no dia a dia esteja sempre ouvindo tudo com relação a isso. Além de ser o meu prazer, é também o meu trabalho. E os outros gêneros, cada um tem coisas que me instigam. A música popular dos anos 20, 30, 40.... Adoro Jazz, mas o jazz tradicional. Adoro Dixieland, Big bands, essas coisas.

 

Não sou muito ligado em "jazz-fusion", essa coisa meio anos 70 dessa turma que estudou harmonia funcional em Berkeley, embora eu reconheça que muitos músicos bons estão metidos nisso. Não gosto do exibicionismo. Nesse tipo de trabalho o músico fica à frente da música. É datilografia. Ouço pessoas consideradas meio outsiders demais como Diamanda Galas, Meret Becker, Einsturzende neubauten, The Residents... Eles não têm medo de botar o bloco na rua. Acho isso muito saudável.

 

Saudável e vital, não?

 

Poxa... nem fala. É assim que eu procuro me movimentar.

 

Você se considera uma pessoa feliz, Servio?

 

Pois é, FELIZ, já me perguntaram isso. Eu costumo pensar que, se faço o que gosto, tenho bons amigos e saúde, acho que já é um grande começo, não? Felicidade tem a ver com aquilo complicado e tão simples que a gente começou este papo. ABRA A CABEÇA E SERÁS FELIZ. E o guaraná KUAT não tem nada a ver com isso... (risos)

 

Certamente que não (mais risos) Mas fiquei intrigada. De onde veio o seu interesse por música medieval?

 

Desde pequenininho eu sempre mexi em vinis dos meus pais, tios e avós. Meu pai, por exemplo, comprava tudo quanto é disco de música clássica que via pela frente. Mas ele quase não tinha tempo de ouvir. Era médico ginecologista, aí já viu, né? Minha mãe na época lecionava português e literatura, e professor também não tem muito sossego. Mas mesmo assim eles faziam questão que eu ouvisse. No entanto, nunca me empurraram nada. Mas na minha casa sempre se ouvia música, de Vivaldi a Louis Armstrong, de Frank Sinatra a Queen ou Led Zeppelin. Então foi nesse meio que eu cresci, com todos aqueles discos ali dando sopa... E as canções dos trovadores medievais sempre me fascinaram. Talvez pela aura de mistério causada pelas harmonias modais, essas coisas... Elas eram carregadas de um sabor de oriente, mouro, árabe, e foi aí que eu resolvi desde pequeno que um dia cantaria aquelas coisas.

 

Durante a infância eu tive contato com diversos tipos de música. E isso foi decisivo na minha formação. Inclusive meu interesse pela literatura e veio também da música. Trabalhar com pesquisa de material anos mais tarde foi só uma extensão do que de certa forma eu já fazia na infância. O mais legal é poder compartilhar isso tudo depois.

 

Que maravilha... Persistência, objetividade, quais os ingredientes básicos que considera para sua vida?

 

Saúde e Amor. O resto é conseqüência.

 

Excelente, me fale sobre o amor...

 

Não dá para falar sobre o amor. Páginas e páginas já foram escritas pelos maiores artistas e poetas do mundo. E mesmo assim........ O Amor é um estado permanente, é uma dimensão. Lembra da massa do mil folhas?

 

......... e mesmo assim, ele grita, late, morde, vibra, canta, delicia, nasce, compartilha e se torna cúmplice sob diversos aspectos todos os dias, não é?... a massa e suas folhas... acha que o amor tem textura e sabor?

 

Amor é o equilíbrio da tal consciência universal. Temos outros sentimentos que nascem disso, que não são tão elevados assim, mas que estão aí no dia a dia. E estes outros são a nossa porção arracional....hahahaha, como disse o Saramago. Eles talvez colaborem com a textura e o sabor.... são os famosos temperos.... às vezes nem sempre muito equilibrados... Um dia doce demais, outro salgado...outras vezes no ponto...

 

Se apenas te restasse esse dia, o que faria?

 

(ele pensa... pensa... pensa... e pensa mais um tanto)

 

Hummmm.... difícil..... Não sei...hahaha

 

E quem disse que viver seria fácil?

 

Acho que a vida inteira, no final das contas é um dia.

 

Mas independente disso, viver é bom demais, não é?

 

É. E o mais engraçado da vida é que a gente tem certeza que um dia vai morrer. Mas a gente não sente isso. Porque não se morre. Somos uma sinfonia que não tem início nem fim.

 

Não sei se me farei clara, mas não acredito nessa coisa de início, meio e fim. Há sentimentos na vida, a exemplo do amor, que superam a tudo isso... a todas essas regras... Aliás, eternidade existe?

 

Acredito na eternidade. Somos energia vital e consciência. Isso significa que vamos sofrendo transformações com o passar do tempo de aprendizado. Somos eternos, sim. Somos eternos e todos somos um. E já que falou de início, meio e fim... já que falamos de outra dimensão, é isso aí: tudo flui.

 

Pegou! Exatamente isso...

 

Claro que eu peguei. Sabia que teve uma época que eu estudei projeciologia? Estudei. Em escola e tudo.

 

Ora, ora, essa é ótima. Explica isso melhor porque acho que poucas pessoas entendem do assunto e é pra lá de interessante.

 

Bom, basicamente, a Projeciologia estuda o fato do ser humano poder projetar sua energia vital no espaço, ou seja, fora do corpo. E isso não tem nada a ver com espiritismo, religião, essas coisas. É um centro de estudos com bases na ciência. Numa escola de projeciologia você se educa para fazer isso de forma consciente.

 

Sim, há um livro interessante chamado "Fora do Corpo", do autor australiano Robert Bruce. Você já leu?

 

Não, infelizmente. É claro que cada um é cada um. A própria Projeciologia diz: ?DUVIDE DE TUDO QUE TE CONTAM. Tenham suas próprias experiências?. Mas faz bem para a cabeça e para a saúde.

 

Claro... eu acredito nisso também. Mas sempre sou curiosa em saber a experiência do outro, embora tenha pra mim que a vida da gente tem que ser vivida e experimentada por nós mesmos. Mas poucos entendem ou captam...

 

Eu não gosto de contar essas coisas em púbico. Acho que não devemos influenciar ninguém dessa forma em se tratando desse assunto. Mas tenho certeza que se eu contasse, alguém chamaria uma ambulância para me levar para o hospício mais perto.... (gargalhadas) Por isso eu prefiro ficar quietinho. Mas podem ficar tranquilos, eu não mordo nem queimo dinheiro... (mais risos)

 

Se te levarem, vou junto. A bem da verdade, acho que todos nós saímos do corpo. Falta, porém, para a maioria, bons níveis de lucidez durante o experimento projetivo. Trocando em miúdos, acho que a maioria das pessoas experimenta projeções inconscientes ou não-rememoradas, não acha? Por esta razão, muitos pensam que a projeção não existe...

 

Hahaha! Uma coisa você pode ter certeza. Qualquer ser vivo neste mundo faz isso todas as noites quando dorme. E é importante que faça, pois ajuda no processo de depuração da energia vital.

 

E eu, sinceramente, também quando tomo uísque (muitos risos). Sabe aquele estágio em que se sente que a alma vai sair do corpo? Geralmente é nessa hora que páro de beber e curto o momento... embora minhas viagens de fato sejam outras, e sóbrias... uma espécie de êxtase (caros leitores, não confundam essa palavra com ecstasy: no drugs).

 

Adoro uísque. Meu preferido é Johnny Walker Black. Fico puto quando não ganho uma garrafa no meu aniversário. Meus amigos fazem rodízio, porque tá caro, né?

 

Meninoooooooo, arranjei companhia!

 

Ué, você não sabia? Sou tarado em uísque.

 

A bem da verdade, é raro eu beber alcóolicos, e quando o faço, geralmente é sozinha porque as pessoas preferem cerveja. Mas essa é minha bebida predileta: com gelo, cowboy, o que for.

 

Minha predileta também.

 

E gosto de Buchanas também.

 

Também. E de Shivas. Só não me apresentem ao tal do Teachers. Tenho trauma.

 

(risos) Eu nunca tive vontade de beber Teachers, e pelo visto fiz bem. Você passou mal?

 

ÔOOOOO!!!! E a dor de cabeça?

 

Meus únicos (três ou quatro, não lembro) porres foram com vodka... um problema porque a bebida não sinaliza. Você só descobre a coisa quando já é tarde. O uísque é diferente, pois avisa direitinho e sempre páro.

 

Vodka é um perigo. Dá amnésia alcoólica. Tem uma história engraçada também com Gim. A avó do Raul Rachyd, que toca teclado no Saara Saara, costumava dizer para a gente (quando éramos adolescentes e íamos para a noitada): ? "Olha meninos, tudo bem, podem beber, podem farrear, podem até fumar aqueles negócios que eu sei que o pessoal da idade de vocês gosta, mas PELO AMOR DE DEUS! FIQUEM LONGE DO TAL DO GIM! ISSO DÁ TARA SEXUAL! NÃO PODE!!!"

 

(gargalhadas mil)

 

É, e não era brincadeira não, ela falava isso sério e com o dedo apontado na nossa cara... Tara sexual... pode? Eu tenho é que me afastar da vodka. Só dou vexame. Já estou muito velho pra isso... (mais risos)

 

Pronto, agora que todos nos acharão bêbados itinerantes... façamos um samba e diga o que você gosta de ler, já que sua TV exerce apenas um papel bulímico (o Servio tem por costume almoçar assistindo TV, e como passa mal com a programação...)

 

Adoro ler. Leio quase tudo que me cai nas mãos. O problema é que não tenho muito tempo. Mas sempre carrego um livro na bolsa e o abro assim que surge uma oportunidade. Sou fã de Machado de Assis, Saramago, Clarice Lispector, Esther Lucio Bittencourt, Voltaire, Isaac Asimov, Romain Rolland, Samuel Beckett, Bertold Brecht, Kafka, Edgar Allan Poe, Manuel Bandeira, ihhh, é uma lista tão enorme, não vai dar aqui....

 

Mas você também escreve muito bem. Por acaso, você também se envereda no campo da poesia? Como é seu processo criativo na hora de compor (música e letra)? Quais as suas influências? Você faz e refaz muitas coisas?

 

Sempre fazendo e refazendo. Nada vem fácil assim e pronto. Às vezes mesmo o que já está feito e gravado em cd pode sofrer mudanças. Eu acho isso um ótimo exercício de criatividade. Às vezes a música vem primeiro, às vezes a letra, mas não importa quem venha primeiro vai sofrer alterações e cortes o resto da vida....hahaha

 

E a questão dos vídeos, dos clipes e dos blogs? Como se dá essa integração? Qual a sua visão e perspectiva com esses canais de mídia?

 

Isso tudo surgiu por causa do advento da internet. Eu e minha mania de tentar entender e decifrar linguagens. Assim que eu percebi as possibilidades dos softwares, enfiei na cabeça que queria aprender isso tudo. E foi o que fiz como auto-didata mesmo, já que na época os cursinhos não ensinavam as coisas que eu queria saber. Desta forma surgiram os primeiros blogs contendo algumas experiências com áudio e vídeo, incluindo transmissões de rádio via web. Estas ferramentas estão mudando o conceito de comunicação no mundo. É importante para qualquer profissional hoje em dia ter noção dessas coisas, senão fica para trás. E para mim, enquanto músico, é uma maravilha, já que a mídia tradicional não divulga meu trabalho por não considerá-lo vendável. Não tem problema. Faço isso eu mesmo.

 

Se pudesse banir alguma coisa do mundo, o que seria?

 

Não me atrevo a falar isso. Acho que nada deve ser banido desse mundo, pois o que está acontecendo é um processo desencadeado pela própria humanidade. Se tivermos que banir algo, teríamos que banir a causa, não a conseqüência. Então é melhor não mexer nisso....hahaha

 

Se pudesse compartilhar alguma coisa plenamente entre as pessoas, o que seria?

 

Amor, é claro. O tempo inteiro. Mas ainda não alcancei este grau de perfeição. Um dia eu chego lá....

 

Você tem irmãos? Qual o significado de família e amizade pra você?

 

Tenho uma irmã, a Cecília, que é uma ótima dermatologista. Ela tem dois filhos pequenininhos, o Caio e a Beatriz. E tenho minha mãe. Todos somos muito unidos, estamos sempre juntos ajudando uns aos outros na medida do possível. Compartilhamos tudo. E o mais legal, gostamos das mesmas coisas, música, livros, filmes.... Meu pai também era assim, mas já passou para o andar de cima há muito tempo.

 

Quais os projetos futuros? O que tem ainda vontade de fazer e não fez?

 

Eu não sou muito de fazer projetos para o futuro. Quando sinto que uma oportunidade aparece eu vou em frente. Tem que ser sempre agora. Senão a gente não faz nada direito.

 

Entre os cantores e as bandas brasileiras, o que você ouve?

 

Ih, muita gente. Adoro Orlando Silva, Aracy de Almeida, Maysa, Nelson Gonçalves, Chico Buarque, Cida Moreira, Vânia Bastos, Arrigo Barnabé, Marília Barbosa, Elizeth Cardoso, Elza Soares, Maria Alcina, Eduardo Dusek, Rita Lee, Ney Matogrosso... ô, vou até parar porque vai ser injustiça esquecer algumas feras aqui. Ouço isso tudo e muito mais.

 

Servio, quantos e quais discos você já tem gravados?

 

Gravei dois discos. Um com o SAARA SAARA e outro com o grupo ANONIMUS, que saiu pela Niterói Discos. A tiragem do CD do ANONIMUS foi toda vendida logo no ano de lançamento, em 1993. Com o ANONIMUS gravei um repertório de canções do século XVI de autores ingleses, franceses e espanhóis. Embora já esteja esgotado, pode ser que algum exemplar ainda seja encontrado por aí em algum sebo.











O CD do SAARA SAARA está nas lojas. As informações podem ser obtidas no site do Submarino. 

 

Servio, fique à vontade para completar com algo que ache importante e eu por ventura não tenha mencionado.

 

Bom, esqueci de dizer que também sou seu fã e admiro muito o seu trabalho!!!!!!!!

 

E assim, sem saber quem é fã de quem, porque agradeço aos céus toda vez que esse menino se manifesta, Servio correu para o ensaio. O Glauco Baptista já devia estar esperando por ele sentado ao piano...











Ana Laura Diniz é jornalista, escritora, letrista e colunista do Cronópios. Autora do premiado Contos de Bordel - A prostituição feminina na Boca do Lixo de São Paulo e uma das síndicas do site jornalístico, Condomínio Brasil. E-mail: alauradiniz@condominiobrasil.com

Ana Laura Diniz