09/01/2006 Número de leitores: 258

?Dossiê H? e a poesia homérica

Bráulio Tavares Ver Perfil

Por Braulio Tavares







Para os que se interessam pela Literatura Oral e pela cultura popular, recomendo o saboroso livro de Ismail Kadaré, ?Dossiê H? (Companhia das Letras, 2001, traduzido do albanês por Bernardo Joffily).  Kadaré escreveu, entre outras obras, o romance em que se baseou o filme ?Abril Despedaçado?, de Walter Salles.  Em ?Dossiê H?, ele mostra dois folcloristas irlandeses que partem para a Albânia para registrar os longos poemas épicos que os rapsodos de regiões montanhosas passam de geração em geração, por transmissão oral.  Os dois folcloristas estão interessados em reconstituir como a poesia oral da Grécia dos tempos homéricos acabou se aglutinando na forma da ?Ilíada? e da ?Odisséia?, e descobrem que a Albânia é o único país onde existe um fenômeno cultural semelhante.

 

É um romance curto (166 páginas), com algumas subtramas engraçadas que lhe dão sabor; o que mais me ficou na memória foi a descrição das regiões montanhosas da Albânia, que décadas de comunismo e burocracia estatal conseguiram manter cuidadosamente preservadas de qualquer tipo de progresso ou influência cultural externa. (Está aí um bom argumento, talvez o único, em favor das ditaduras e das oligarquias: elas imobilizam o Tempo em seu próprio país, o qual logo se transforma num museu de coisas que já desapareceram no resto do mundo.)

 

Max Roth e Willy Norton, os folcloristas, começam a encontrar rapsodos ambulantes nas estalagens das montanhas e a gravar seus enormes poemas. Eles se perguntam: ?Quantos versos um rapsodo consegue saber de cor? Alguns falam em seis mil, outros em oito mil e até doze mil versos?.  Existe um componente étnico muito forte nessa tradição; os sérvios (que são de raça eslava) competem ferozmente com os albaneses. ?Durante mais de mil anos, albaneses e eslavos haviam se entrematado interminavelmente naquelas terras.  Batiam-se por qualquer coisa: terras, fronteiras, pastagens, água; não seria de espantar se combatessem pelas estrelas do céu.  E como se isso não bastasse, disputavam também a antiga epopéia, que, para completar a tragédia, florescia nas duas línguas, albanês e servo-croata.  Cada povo teimava em se proclamar o criador da epopéia, reduzindo o outro à condição de ladrão, ou, na melhor das hipóteses, imitador?.

 

Parece o Nordeste, hem?  Parece mais ainda na cena em que eles gravam sua primeira cantoria e o tocador de ?lahute? (espécie de alaúde) bota o dedo no ouvido ao começar a cantar: ?a necessidade de tapar um ouvido durante a apresentação se liga à transformação da voz do rapsodo, de ?voz do peito? em ?voz da cabeça?, e à necessidade de manter o equilíbrio em face da vertigem que a cantiga provoca?..  Parece com nossos velhos aboiadores nas vaquejadas, tapando o ouvido e largando o vozeirão mundo afora.  Vozes que ressoam aqui e na Albânia, e em tantos lugares que ainda mantêm uma ligação telepática com a Grécia de Homero.























Braulio Tavares é escritor e compositor, e este artigo foi publicado em sua coluna diária sobre Cultura no "Jornal da Paraíba" (http://jornaldaparaiba.globo.com).

Bráulio Tavares