22/01/2006 Número de leitores: 394

O desvio criativo

Bráulio Tavares Ver Perfil

Por Braulio Tavares







Às vezes interpretamos erradamente uma frase ou uma imagem, e essa interpretação errada gera uma idéia diversa da idéia verdadeira. Uma vez eu estava tentando copiar de ouvido uma letra dos Rolling Stones, e copiei o refrão assim: ?What a trek in his care hall!...?  Fui ao dicionário, o qual me informou que ?trek? era ?passeio de carro-de-bois?, ?care? era ?inquietação?, e ?hall? era ?sala?. O verso, portanto, dizia: ?Que passeio de carro-de-bois em sua sala de inquietação!...? Eu pensei cá com meus botões: ?Eita, isso só pode ser efeito da maconha no juízo desses caras!?

 

Quando percebemos que nossa interpretação foi errada, e percebemos o que era aquilo de verdade, ficamos com aquela idéia maluca nas mãos, sem saber direito o que fazer com ela. Talvez a melhor solução seja usá-la criativamente. Foi o que fez José Saramago, que um dia vinha andando pela rua, passou por uma banca de revista, e, naquela olhada de relance que a gente dá para aquela profusão de capas de revistas e manchetes de jornal, leu: ?O evangelho segundo Jesus Cristo?. Achou estranho, voltou atrás, releu: não era nada daquilo.  Ele tinha lido palavras que estavam em frases diferentes, e, sem querer, montou aquele título. Saiu dali ruminando: ?O Evangelho Segundo Jesus Cristo...  Está aí uma idéia interessante...? E escreveu um livro inteiro tendo este título como ponto de partida.

 

O crítico Jonathan Rosenbaum usa um termo interessante, ?creative indirection?, ?desvio criativo?, para designar esse tipo de associação involuntária de idéias que acaba tendo um papel inspirador. Talvez o que nos fascina nessas idéias seja o fato de que, tendo sido geradas pelo Acaso, elas tenham aos nossos olhos uma cor de novidade, de originalidade. Nunca teríamos chegado a elas pelos caminhos naturais do nosso raciocínio. Quando caem do céu no nosso colo, nos fascinam e parecem conter em si um significado cabalístico, misterioso. Excitam a nossa curiosidade, a qual é sempre um ótimo detonador para a criatividade.  Artes coletivas como o cinema e o teatro também estão cheias de situações inesperadas cujo potencial criativo é percebido pela intuição de um diretor, que agradece ao Acaso e incorpora o desvio.

 

Grande parte da criação do Surrealismo seguiu percursos dessa natureza, produzindo choques aleatórios entre imagens ou palavras, para daí extrair uma nova sensibilidade poética. O movimento surrealista foi uma espécie de culto ao erro, uma embriaguez de erros voluntários que revelavam, com sua sintaxe selvagem, caminhos inesperados para a poesia. O Surrealismo ?tout court? ficou meio isolado nas vitrines da História, mas ninguém pode negar a vantagem de sua influência libertadora em poetas como Garcia Lorca, Neruda, Jorge de Lima, etc. 

 

Quanto ao verso dos Rolling Stones, quando vi a letra impressa constatei que era: ?What a drag it is getting old!...?  Que saco é ficar velho!  Mas eu tinha dezoito anos, não podia mesmo ter entendido.




















Braulio Tavares é escritor e compositor, e este artigo foi publicado em sua coluna diária sobre Cultura no "Jornal da Paraíba" (http://jornaldaparaiba.globo.com).

Bráulio Tavares