13/04/2006 Número de leitores: 395

Rei Mídia, o Midas Digital

Bráulio Tavares Ver Perfil

Por Braulio Tavares

 

 

Lembram-se da história do Rei Midas, aquele que transformava em ouro tudo que tocava com o dedo?  Pois estamos vivendo, depois da invenção do computador, do CD, do DVD, do CD-Rom, do gravador digital, a época de um milagre semelhante. É a era do Rei Mídia: tudo que ele toca com o dedo transforma-se num objeto idêntico ao anterior, ou seja, basta tocar numa coisa que ele cria instantaneamente uma cópia exata daquela coisa. 

 

Assim como aconteceu com seu nobre antepassado lá da Frígia, o Rei Mídia deslumbrou-se com seu poder miraculoso e achou que isso lhe permitiria multiplicar suas riquezas. Começou a duplicar suas moedas de ouro, seus tesouros, seus rebanhos. Aí um dia teve a má idéia de duplicar a Rainha, que era muito bonita mas às vezes tinha dor-de-cabeça de noite, e ele achou que não custava nada ter uma clone ali, de sobreaviso.  Fez isso, mas percebeu que a Rainha-ponto-1 tinha herdado o seu dom, ou seja, o de duplicar objetos. A princípio ele manteve a coisa sobre controle, mas ela foi dando um jeitinho e depois de algumas semanas tinha duplicado quatro irmãs, três irmãos, duas primas, vinte e oito amigas e (não explicou por que) quinze jovens soldados da guarda pessoal do Rei. Todos estes, está claro, herdaram também a capacidade duplicadora, e saíram duplicando quem lhes dava na telha. Reza a lenda que a ilha ficou tão cheia de gente que afundou antes do fim do ano, e a reação-em-cadeia, felizmente, morreu aí.

 

A maldição do Rei Mídia atingiu agora, nos tempos modernos, a indústria da música, a indústria do cinema e do vídeo. Tudo que existe nesse formato (músicas, livros, filmes) pode ser transformado em sinais eletrônicos e enviado instantaneamente para qualquer lugar do mundo, onde uma nova cópia, clone do original, surgirá num piscar de olhos. O mais irônico é que a própria indústria criou a tecnologia que está desvalorizando sua mercadoria principal. A partir de certo ponto, essas tecnologias voltadas para a produção em massa não puderam mais ser contidas nas mãos de um pequeno grupo. O barateamento da produção, buscado para gerar lucros, gerou máquinas duplicadoras cada vez mais simples e baratas, e chegou a tal ponto que o segredo escapou às mãos dos que o criaram. O tapete foi puxado de baixo de seus pés. 

 

E encerro citando palavras de Cory Doctorow em seu blog ?Boing Boing?: ?Tudo que pode ser expresso em forma de bits será expresso em forma de bits. Bits irão se tornar cada vez mais fáceis de copiar. As empresas de entretenimento estão convencidas de que seus negócios dependem da introdução de bits à prova de cópia. É ridículo. Uma tal coisa não existe, e nunca poderá existir. Governos que tentam proteger empresas que exigem bits à prova de cópia são como governos que tentam proteger empresas instaladas na borda de um vulcão, as quais exigem leis imediatas proibindo essas erupções de lava que estão prejudicando seus negócios?.

 

 

 

 

 

 

 

 

Braulio Tavares é escritor e compositor, e este artigo foi publicado em sua coluna diária sobre Cultura no "Jornal da Paraíba" (http://jornaldaparaiba.globo.com).

Bráulio Tavares