11/05/2006 Número de leitores: 267

Os novos poetas

Bráulio Tavares Ver Perfil

Por Braulio Tavares

 

 

Toda semana recebo um email, ou uma carta, ou um pesado envelope pardo cheio de poemas, e um apelo: ?Prezado Senhor: Sou um jovem poeta, e não consigo publicar meus poemas. O sr. pode me ajudar?? Claro que posso.

 

Comece a escrever bem cedo, e comece a publicar bem tarde.  Com dezesseis anos eu já escrevia sonetos alexandrinos, poemas surrealistas, epigramas satíricos.  Graças a Deus nunca os publiquei, mas o fato de todo dia estar escrevendo uma coisa nova me dava a sensação de estar jantando num restaurante imenso, cheio de gente famosa.  Ninguém tomava conhecimento de minha existência, mas eu me sentia ocupando o mesmo espaço que eles.   Publiquei meu primeiro livro (um folheto de cordel) aos 28 anos.  Ainda acho que foi um pouco prematuro; mas eu já estava impaciente.   Resumindo: escreva muito, e publique pouco.

 

Não pense nas grandes editoras.  Grandes editoras só publicam poetas consagrados, poetas premiados, ou amigos dos amigos.  Se você não é nenhuma dessas coisas, publique-se a si mesmo.  Foi assim que surgiram o Modernismo, a Literatura de Cordel, a Geração Mimeógrafo, a Poesia Marginal, e assim por diante.  Auto-publicação.  Publicar por uma grande editora é o mesmo que chegar à Seleção Brasileira.  Aquilo não é um começo de carreira, é uma conquista.  Só chega lá quem já mostrou serviço.  Não é para novatos.  A menos (repito) que você seja parente ou amigo de alguém ?importante?, e a publicação de seu livro envolva uma barganha-de-favores qualquer.

 

A obra do poeta é o poema, e não o livro-de-poemas.  Divulgue seus poemas isoladamente, e deixe para pensar nessa história de livro a longo prazo.  Copie o poema, distribua com os amigos, pregue na parede, recite-o (se for o caso) nos lugares e momentos propícios.  Se você tiver, daí a alguns anos, meia-dúzia de poemas ?na boca do povo?, vai ficar muito mais fácil fazer um livro, em vez de ficar tirando cópias e mais cópias.  E (curiosamente) os que já têm cópia serão os primeiros a comprar o livro.  É uma lei da Natureza.

 

Use a Internet.  É o lugar ideal para publicar suas coisas a custo zero, e para ler a custo zero as coisas alheias.   Mande seus poemas para todo mundo.  Eu recebo dezenas de poemas por semana.  Leio alguns, deleto quase tudo, raramente guardo um.  Quando leio um poema de que gosto (1% do total), presto atenção ao nome do autor.  Se eu vir esse nome numa revista, numa antologia, vou lá conferir, pra ver se presta de novo.  É assim que os nomes (Drummond, Cabral, Bandeira) se formam. 

 

Não pense que as editoras, ou os governos, têm a obrigação de publicar seus poemas.   Não têm.   Você é que tem de convencer as pessoas (inclusive editoras e governos) de que o que você escreve tem valor coletivo, desperta a atenção de centenas ou milhares de pessoas, serve como referencial de discussão, é citado por gente que não conhece o autor mas que admira as idéias.  Em suma: faça sucesso primeiro, e alguém vai querer publicar suas coisas.

 

 

 

 

 

 

 

Braulio Tavares é escritor e compositor, e este artigo foi publicado em sua coluna diária sobre Cultura no "Jornal da Paraíba" (http://jornaldaparaiba.globo.com).

Bráulio Tavares