06/08/2006 Número de leitores: 250

Fuck

Bráulio Tavares Ver Perfil

Por Braulio Tavares

 

 

 

O palavrão tem o poder que lhe conferimos com nossa reação diante dele.  Quanto mais uma platéia se escandaliza, mais está se deixando manipular por quem visava justamente o escândalo. Se você quer derrubar um humorista, que se esforça para ser engraçado, não ria. Se quer neutralizar um sujeito que quer escandalizar, não se escandalize.

 

Lembro-me, na adolescência, de uma peça teatral de Jean-Paul Sartre, ?A prostituta respeitosa?. Descobri depois que o título em francês era ?La p... respecteuse?. Logo na pátria do ?filme francês? (que naquele tempo era gíria para ?sacanagem?)!  Fiz agora uma busca nos sebos online, e constato que a edição de 1947 da Gallimard traz o título completo: ?La putain respecteuse?, ao passo que a edição de 1962 da mesma editora traz o palavrão abreviado. Por quê? Públicos diferentes, códigos diferentes? Mistério.

 

Nos anos 1970, ?O Pasquim? usava muitos palavrões, e isto chegou ao máximo na famosa entrevista que fizeram com Leila Diniz, que falava mais palavrão do que um cantor de hip-hop. A censura os obrigou a substituir o palavrão por um asterisco entre parênteses: (*). Qual o propósito disto? Não sei, porque no jornal saía assim: ?Ah, Fulano, vai tomar no (*)?. Pra mim, é a mesmíssima coisa. Os pasquineiros deitaram e rolaram em cima dessa bobagem. Daí a pouco estavam dizendo: ?Ah, Jaguar, vai pra asterisca que asterisquiu!? 

 

O diretor Steve Anderson está preparando o lançamento de um documentário intitulado ?Fuck?, e o tema do filme é justamente a palavra-título. (Para quem não sabe, é a palavra que indica o ato sexual, seja como verbo, seja como substantivo). A imprensa americana costuma chamá-la ?a palavra com F? (?the F-word?), e o filme já coloca uma interessante questão metalinguística, porque o debate a respeito da palavra estará não apenas dentro do filme, com em volta dele. Como o título vai aparecer no jornal? Na TV? Na fachada do cinema?

 

Creio que o Brasil, mesmo com todo falso moralismo, tem vistas largas nesse aspecto. Algumas palavras são palavrões num Estado, mas não são em outros.  Quando um paulistano diz: ?Tá fazendo um puta calor, ô meu?, ninguém acha que ele falou palavrão. Na Bahia, um pai diz ao filho pequeno: ?Se quer ver TV, primeiro tem que estudar, fazer o dever de casa, a porra toda? ? e ninguém acha que isto é pornografia. É um termo tão inócuo quanto o ?trem? dos mineiros ou o ?troço? nordestino. Por outro lado, já vi uma novela da Globo dizer ?xibiu? em pleno horário nobre. Será que ninguém avisou o que quer dizer?

 

?Fuck? e ?fucking? estão se tornando cacoetes verbais insuportáveis dos norte-americanos. É de longe a palavra mais pronunciada em qualquer diálogo entre marginais, bandidos, indivíduos rebeldes em geral. É uma palavra que revela a esquizofrenia moral do nosso mundo: o mais proibido é o que mais se procura, o que provoca mais emoção, o que desabafa mais, o que produz catarse mais intensa. 

 

 

 

 

 

Braulio Tavares é escritor e compositor, e este artigo foi publicado em sua coluna diária sobre Cultura no "Jornal da Paraíba" (http://jornaldaparaiba.globo.com).

Bráulio Tavares