21/08/2006 Número de leitores: 1068

Não ponha no gancho!

Fábio Oliveira Nunes Ver Perfil

Há quem diga que a melhor tecnologia é aquela que se apresenta inseparável do ser tanto quanto seus próprios dotes físico-perceptivos. Nesse sentido, não há tecnologia mais bem resolvida do que o telefone. Não nos surpreendemos com o fato de que a partir de qualquer aparelho podemos ter acesso a qualquer outro no mundo, bastando apenas determinada seqüência numérica. E celulares parecem incrustados como novos órgãos.  Nem os mais velhos estranham sua interface, ainda que exista uma infinidade de modelos de aparelhos. É simples e na maioria das vezes, cumpre o que propõe. Além disso, é através da rede telefônica que muitos de nós tivemos acesso à rede Internet pela primeira vez. Ou continuamos tendo. É a nossa ponte para o mundo – muito mais do que a janela que a TV um dia se propôs a ser.

Em 1973, o artista francês Fred Forest – um dos mais importantes na artemídia – realizou na 12ª Bienal de São Paulo, uma instalação com 10 cabines telefônicas que possibilitam ao público, a veiculação de mensagens através do sistema de som da exposição. Forest literalmente dá voz ao cidadão comum, fato que incomoda especialmente a ditadura militar da época, que tenta impedir enfaticamente a realização do trabalho. Em um outro trabalho chamado “A Torneira Telefônica” o artista convida as pessoas a ligarem num número de telefone – divulgado por folhetos e anúncios de jornal – que está associado a um dispositivo instalado em uma galeria que despeja água em um recipiente. Esta instalação interativa de Forest foi realizada em Turin (Itália) e recebeu nada menos que 15.000 chamadas, fazendo com que o balde transbordasse, inundando o piso do espaço. Esse trabalho só é possível por uma ação colaborativa à distância, que dá forma a uma entidade coletiva em que o individual desaparece.

A ação colaborativa a partir do telefone – um meio muitas vezes esquecido das apropriações artísticas – também se dá através do trabalho de web arteMosaico de Vozes da artista brasileira Martha Gabriel. Mosaico de Vozes é um trabalho colaborativo na web onde o visitante participa através de uma ligação telefônica. Sim, você liga e participa! Martha usa as tecnologias de reconhecimento de voz – daquelas presentes em serviços de atendimento eletrônico ao público por bancos e empresas de telefonia – formando na web um eclético mosaico de mensagens gravadas. Essa pequena população de recados, comentários, cantorias e desabafos é por si só, algo que instiga a nossa curiosidade. Assim como o transbordamento do balde de Forest é emblemático de uma proposta que agrega inúmeros indivíduos, o mosaico de Martha não só faz emergir essa coletividade mas a traz também a particularidade de cada um nesse espaço. Acompanhe através do endereço http://www.mosaicodevozes.com.br/  e para participar basta ligar para (11) 3047-4790, de qualquer telefone (fixo ou móvel), e fornecer o código 1155723602.

 





Fábio Oliveira Nunes