17/09/2006 Número de leitores: 244

Dose Dupla

Bráulio Tavares Ver Perfil

Por Braulio Tavares


 

A atração pelo Oculto

 

Estou preparando uma antologia de contos de terror, o que me exige a leitura de centenas de histórias desse tipo. Um trabalho desagradável e cansativo, mas regiamente pago. (Estou sendo irônico: é justamente o contrário.) Um dos subgêneros mais interessantes desse universo é a história de casas mal-assombradas, casas onde algo misterioso e ameaçador está acontecendo. Estas histórias obedecem a um padrão básico; 1) Coisas estranhas ocorrem numa casa; 2) Um cético e um crédulo se dispõem a verificar; 3) Alguma coisa acontece, e o desfecho dá razão a um deles. Nas histórias de cunho racional ou humorístico, geralmente o cético tem razão. Nas histórias fantásticas e de terror genuíno, tem razão o que acreditava que ?existem mais coisas entre o Céu e a Terra do que sonha a nossa filosofia?.

 

Os britânicos elevaram a extremos de refinamento este tipo de história, e a leitura seguida de dezenas delas nos permite perceber detalhes interessantes.  Por exemplo: nas casas assombradas britânicas, existem os patrões e os criados. Os patrões querem investigar mais a fundo o que está acontecendo; já os criados apavoram-se com facilidade e batem em retirada. Lembro ao leitor que ?patrões? e ?criados?, na Inglaterra, não são equivalentes exatos ao que designamos com este nome aqui no Brasil. Curiosamente, aqui no Brasil os muito-ricos estão mais distantes dos muito-pobres do que na Inglaterra; mas aqui ainda existe uma certa promiscuidade social, fruto da química peculiar que se desenvolveu entre portugueses e africanos (e aqui cedo a palavra a Jorge Amado, Gilberto Freyre e outros). Na Inglaterra, a coisa é diferente. Patrões e criados vivem em universos paralelos, e aconselho o filme ?Assassinato em Gosford Park?, de Robert Altman (tem em qualquer locadora) como uma bela descrição de como esses mundos, tão misturados entre si, são distantes.

 

No típico conto de terror inglês, os criados acreditam no sobrenatural mas não querem papo com ele; os patrões são céticos, mas por isto mesmo querem investigar mais a fundo. Só esta semana reencontrei este padrão em ?The Screaming Skull? de F. Marion Crawford, ?The Haunted House? de Charles Dickens, ?The House and the Brain? de Bulwer-Lytton, ?The Beast with Five Fingers? de W. F. Harvey, e outros. O que me lembra uma frase famosa de Jorge Luís Borges, quando perguntaram sobre a presença constante do tema de Deus em suas obras: ?Sou o contrário dos outros argentinos: ele crêem em Deus mas não se interessam, já eu não creio, mas me interesso?. De um lado, o Povo com sua mentalidade arcaica, medievalista, supersticiosa, vulnerável ao medo do Oculto. Do outro, a burguesia com seu materialismo, seu Iluminismo, seu culto à Razão. O povo não gosta de mexer com Potestades, ainda mais do Além. Mas a maioria dos escritores pertencem (mesmo que apenas mentalmente) a este mundo burguês, para quem o Sobrenatural é um mero passatempo literário, que não ameaça e não impõe deveres.


 

 

 ?Eu me prostituí por mordomias?

 

Eric D. Snider, jornalista free-lancer de Portland, foi banido pela Paramount Pictures de todas as entrevistas coletivas e pré-estréias patrocinadas pela produtora. Motivo: ele aceitou um convite para participar de um destes eventos, e em vez de escrever uma matéria elogiosa, contou tudo que aconteceu e perguntou: ?Será que é preciso gastar tanto dinheiro, de uma maneira tão idiota, sob o pretexto de divulgar um filme?? O artigo intitula-se ?I was a junket whore?, ?Eu me prostituí por mordomias? (?junket? significa algo como ?mordomia, boca-livre?), e pode ser lido em: www.ericdsnider.com/snide/i-was-a-junket-whore.  Snider viajou de Portland a Seattle para cobrir o lançamento de ?World Trade Center?, de Oliver Stone. Ganhou duas diárias num hotel de luxo, 125 dólares para alimentação, e o direito a duas conversas de 20 minutos, com mais seis jornalistas, com atores do filme e com os personagens reais que eles interpretam, e por fim mais 20 minutos com Oliver Stone.

 

Snider embarcou na empreitada achando que havia algo de errado, e já disposto a criticar. Mas seu julgamento é sensato, bem argumentado, com alguns toques de humor mas evitando o tom frívolo da imprensa ?pop?.. Um dos jornalistas presentes com ele ao papo com Oliver Stone mencionou de modo casual em sua coluna, dias depois: ?Acabei de lanchar com Oliver Stone: uma bandeja com frutas e queijo, além de bolachas, nas quais ele mal tocou, limitando-se a pedir café. Stone disse que decidiu lançar uma versão reeditada de ?Alexandre?...? Ou seja: o sujeito passa para seus leitores a sensação de que é importante, de que teve um lanche-a-dois com uma estrela de Hollywood. Na verdade, eram seis jornalistas de um lado da mesa, Stone entrou, cumprimentou todos, de um por um, respondeu as perguntas, tomou café, voltou a cumprimentar todos, e saiu para a próxima entrevista.

 

Diz Snider, sobre seus coleguinhas: ?Quando eles falavam sobre filmes, não falavam se eles eram bons ou maus. Falavam sobre quem aparecia neles, e como eram essas pessoas. O cara de Vancouver parecia pensar em filmes somente em termos de quem eram as estrelas e se ele conseguira ou não entrevistá-las. A idéia de criticar um filme, discutir seus méritos como arte ou como entretenimento, pareciam-lhe totalmente estranhas. Eu, como crítico de cinema, achava aquilo inquietante, uma versão Mundo Bizarro do mundo em que vivíamos eu e meus colegas?.

 

Entre passagens de avião, táxi, hotel e alimentação, a Paramount gastou 1.100 dólares com Snider, para não falar no aluguel das suítes onde transcorria a entrevista, os lanches, etc. e tal. Pergunta ele: multiplicando isto por todos os jornalistas-de-aluguel que participam, será que vale a pena, em termos de ingressos vendidos? Isto pode ser considerado divulgação, mesmo do ponto de vista estritamente financeiro dos balancetes da empresa (deixando-se de lado questões como ética jornalística, importância da crítica de cinema, etc.)? 

 

 

 

 

 

 

Braulio Tavares é escritor e compositor, e este artigo foi publicado em sua coluna diária sobre Cultura no "Jornal da Paraíba" (http://jornaldaparaiba.globo.com).

Bráulio Tavares