07/10/2006 Número de leitores: 1038

A obsolescência dos poetas de carne

Fábio Oliveira Nunes Ver Perfil



 

Em um debate realizado pelo site Cronópios em 5/10/2006, no qual participei juntamente com poetas e conhecedores dos novos meios, em determinado momento, surgiu uma questão sobre como ficaria a figura do editor em relação aos textos disponíveis na rede Internet: afinal, todos nós sabemos que dada a enorme quantidade dos textos disponíveis em sites, blogs ou fóruns, é impossível mapear a totalidade e focar somente naquilo que realmente interessa. Então, se a figura do editor se funda com a do leitor, como lidar com a quantidade? Alguns dos presentes levantaram uma hipótese, extremamente plausível, que é a possível existência de sistemas inteligentes que teriam a capacidade de nos apresentar aquilo que realmente teria alguma relevância para nós. Ou seja, poderíamos delegar ou ainda, sintetizar o nosso gosto e fazer com que ele seja executado por uma máquina. Ótimo.

A palavra-chave para estas questões chama-se Inteligência Artificial. Essa propriedade significa a intenção de tornar a máquina dotada de autonomia (o que implica numa independência na realização de tarefas) e autocontrole (gerenciando sua própria memória e por conseqüência, “aprendendo”), basicamente. A Inteligência Artificial já é algo comum na rede: determinados sites de livrarias possuem um tipo de “agente” que observa a freqüência das suas escolhas de livros e a partir do cruzamento de suas práticas com escolhas parecidas de outros usuários, procura oferecer a você títulos cada vez mais próximos daquilo que seria o seu gosto pessoal. Isso também pode ser chamado de Bot (de Robot).

Os Bots inteligentes estão presentes também numa nova geração de sites que possuem estes seres sintéticos para responder a dúvidas freqüentes de usuários, por exemplo. Hoje há Bots capazes de estabelecer longas conversas com pessoas de carne e osso, por meio do teclado, como em um chat. Há sistemas de inteligência artificial que simplesmente aprendem com aqueles que o acessam: são capazes de aprender significados de novas palavras e adquirir em observação ao uso freqüente, novas expressões, bem como usar gírias ou palavrões. Um dos casos mais impressionantes no Brasil foi o de SeteZoom, utilizada para divulgar a marca Close-up entre o público adolescente via Internet. Ao entrar no site, o sujeito realmente tinha a sensação de estar em um chat com uma inteligente e espirituosa garota, além de ter acesso há várias fotos e perfil dela. Ao teclar, a dúvida: seria realmente aquilo tudo virtual? Aliás, conheça um pouco da charmosa SeteZoom em:
 http://www.inbot.com.br/sete/ 

E onde entra a arte nisso tudo? Pois bem, vários artistas desde vários anos já se inserem na produção e discussão de trabalhos que se utiliza de inteligência artificial e outros sistemas em proximidade, como vida artificial. Neste sentido, podemos citar um trabalho que parece procurar antever algumas questões pertinentes como: estariam em algum momento as máquinas perfeitamente aptas para criar uma produção artística? Se partirmos da premissa que a produção poética é pensamento, quando as máquinas alcançarem algo muito próximo do pensamento humano – o que levará sem sombra de dúvida, algum tempo – estarão também produzindo poemas, desenhos e imagens poéticas? Nesse sentido temos o simpático PaCo – algo como um poeta autômato andarilho on-line. PaCo é um robô humanóide que anda por aí em cadeira de rodas – mais especificamente em Madri, onde os seus criadores Carlos Corpa e Ana García Serrano vivem – vinculado a um site da web, e o que é o mais importante: distribuindo e declamando poemas a cada moeda dada. Isso mesmo! No site da web, os internautas inserem palavras que serão utilizadas pelo robô na confecção de seus poemas. Quando alguém insere uma moedinha no cofrinho que carrega consigo, PaCo declama e imprime um novo poema. Seria bobagem tentar discutir a qualidade desta produção sintética, mas o que preocupa é que PaCo pode ser o primeiro de uma verdadeiramente nova geração de poetas. Veja mais sobre ele, em espanhol, no endereço:http://www.isys.dia.fi.upm.es/PaCo/ .

 

 

PaCo: Una moneda, un poema, Señor!

 

 

Fábio Oliveira Nunes