31/10/2006 Número de leitores: 1151

Miopias e utopias: como viver junto sem Internet?

Fábio Oliveira Nunes Ver Perfil

Em desfoque: Young-Hae Chang Heavy Industries, presente na 27ª Bienal

 

A pergunta existencial do momento é: como viver junto? Parece-me míope tentar responder a esta questão pela metade, desconsiderando um universo essencialmente social – de encontro com o outro – como é a rede Internet. Bom, o contexto trazido pelos trabalhos da 27ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo, traz a tona especialmente a vida urbana e os distúrbios sócio-culturais, numa visível continuidade das propostas das duas edições anteriores – Iconografias Metropolitanas (2002) e Território Livre (2004) – porém, trazendo uma complexidade e uma abertura de posicionamentos bem mais dinâmicos e líquidos, além de um compromisso mais denso com a vida real. É uma das edições mais políticas e talvez por isso mesmo, traz pequenas lembranças de momentos dos anos 70, em que artistas desafiavam o regime – e hoje desafiam hordas de advogados, vide o ocorrido com o grupo dinamarquês SUPERFLEX e seu Guaraná Power, proibido de ser veiculado pela Fundação Bienal, ou mesmo, a interferência no trabalho com bloqueadores de celulares de Marcelo Cidade.

 

 

 

Proibições à parte, por ser o mais importante evento das artes plásticas na América Latina, essa efervescência política cria visibilidade para um ativismo artístico cada vez mais crescente – sintomático de uma situação que começa na intolerância das diferenças e termina na onipresença do mercado. Mas ao mesmo tempo, discute-se a própria essência da arte – seu ideal estético e seus significados abrangentes – onde a objetividade das propostas do pavilhão pode ser facilmente confundida com a tirania de um só discurso.

 

 

 

Mas como viver junto sem Internet? Eu, hoje, não saberia responder. Aliás, talvez o melhor termo a ser usado aqui seria ciberespaço – que é o termo adequado para designar a rede que está disposta através de sistemas computacionais, celulares, televisores, satélites e que ditam cada vez mais a nossa paisagem social – tanto como contexto contemporâneo como também no sentido que estes meios redefinem maneiras de como nos relacionamos. Veja bem: conversas de celulares, mensagens SMS ou scraps deixados no perfil alheio do Orkut possuem especificidades de linguagem, tempo, situação e objetivos distintos das nossas relações cara a cara. E não se trata apenas de entusiasmo: ao contrário de imaginar que estas relações nascidas no ciberespaço seriam mais profundas ou significativas que aquelas que estão fora do meio telemático, na verdade, sua principal força é destituir as barreiras geográficas e planificar a comunicação à medida que há maneiras de driblar o poder local, econômico e a censura, por exemplo. A Internet certamente não é a solução para se viver junto, mas ao mesmo tempo, faz emergir convivências cada vez mais recorrentes e menos efêmeras, situações estas praticamente excluídas da discussão do Pavilhão do Ibirapuera.

 

 

 

Praticamente excluídas, digo, porque os novos meios e por extensão, a rede invariavelmente já estão indiretamente influindo enquanto percepção e repertório. Esses dias, quando tive que pensar sobre a relação da escrita e dos novos meios, deparei-me com uma interessante observação de Steven Johnson, em seu livro Cultura da Interface (Jorge Zahar Editor, 2001) sobre como passamos a escrever quando deixamos lápis e papel de lado: a adoção de “processadores de textos” implica numa sensível alteração da nossa produção e conseqüentemente do pensamento nela envolvido. Veja bem: tente observar quantas vezes, na produção de um texto digitado – seja literário, acadêmico ou mesmo coloquial – você volta e refaz palavras e como o pensamento flui a medida que você escreve e não mais como um pensamento anteriormente construído para toda a frase. Perceba que sua escrita mudou justamente pela possibilidade de existir uma asséptica tecla BACKSPACE – ao invés de um inconveniente corretivo. Assim, por temos que manter certo distanciamento disso tudo como se estivesse num outro plano, se já faz parte de nós?

 

 

 

O único trabalho tido como web arte da 27ª Bienal não possui qualquer interatividade, não estabelece qualquer relação entre aqueles visitantes que o acessam, aliás, é extremamente contemplativo e tecnicamente falando poderia ser visto sem qualquer conexão com a rede – e até mesmo, utilizando-se de um DVD player, por exemplo. Trata-se do trabalho da dupla Young-Hae Chang Heavy Industries (da Coréia do Sul, Young-Hae Chang e Marc Voge) que dialoga muito mais com o cinema – pela narratividade e pela disposição sob a forma de créditos – do que com a própria rede. O trabalho é baseado em textos que abordam o cotidiano, ora banal, ora político em Seul e o faz de modo inusitado e criativo. Bom, se faz necessário dizer que é evidente que um trabalho artístico na rede não precisa ser interativo ou ser sempre visto só on-line – muito pelo contrário, o fato de negar determinadas especificidades pode certamente ser muito rico – mas a escolha do trabalho da dupla simbolicamente sela o distanciamento de discussões mais profundas. O trabalho de Youg-Hae Chang Heavy Industries pode ser visto pelo site: http://www.yhchang.com/.

 

 

 

Ainda sobre: fora da 27ª Bienal, o artista Fred Forest cria um espaço de contestação do megaevento, fazendo com que cada cidadão possa participar de uma Bienal do futuro, em que o tempo e o espaço estão abolidos:http://www.biennale3000saopaulo.org/.

 

 

 

Fábio Oliveira Nunes