16/11/2006 Número de leitores: 748

Terminal

Ronald Polito Ver Perfil

Por Ronald Polito


 





ENCRUZILHADA

 

Pode haver

um ponto de partida.

Um epicentro de onde

soe

alguma palavra exata.

Como o encaixe

de duas bocas.

 

Se via de passagem

ou gozo de fuga

por derrocadas, desertos, que

acolha e multiplique

saídas, estiagens,

emergências.

 

Hora de partir. Pura

fantasia. Um corpo

que empurra o vento,

que ilumina a luz,

amarrota o mar, coberto de

pó. Que

possa dobrar,

passo a passo,

o risco do caminho.

 

 

 

 

CENTRO DE UM FEIXE QUALQUER

 

Por um instante a fumaça do

cigarro parece que se

detém no ar. E os quadros,

a mesa, ficam ainda mais

fixos. A moldura da

janela figura um

retângulo azul fora do

tempo. E nenhum

vento vem violar

o fugaz antedesejo de

cada coisa, pedra ou planta

permanecer em seu

lugar. Pássaros

pousam, pontes

pênseis, o mar

susta o arremesso

de sua massa

total, e a terra jaz

momentaneamente

hipnotizada pela luz azul

da lua. Então, no coração de

qualquer Chinatown, uma

mosca pára de

esfregar suas patas, e as

cascatas numéricas

da seqüência digital de

cada bolsa, cada

bolso, se

interrompem. Mas

logo a fumaça revoluta

no ar e todos os

autômatos movimentos

integrais.

 

 

 

 

FOGOS DE ARTIFÍCIO

 

A luz de três

sóis a milhares de

séculos daqui,

brilhando no descortino de

um horizonte para

ninguém, para

nunca e sempre, imaginária

crônica, se

transfere agora para

fora da página, da

fala para

silenciosamente

contornar os

objetos, a casa, os arredores e

disparar contra a

parede do céu em

sua volta.

 

 

 

 

UM MILAGRE

 

Mais uma vez uma resposta

sem pergunta. A idéia,

o nome (o corpo, a cor e

a própria polpa) de uma

coisa inexistente mas

imperiosa, onívora. Um guincho ou

grito nunca antes

no ouvido, que desemboca em outro

díspar e idem.

Uma eclosão, uma emergência.

 

 

 

 

O TIGRE BRANCO

 

Uma clareira

sempre

se abre à

minha passagem.

Um grande ectoplasma.

Os meus estojos carrego comigo,

para quando me pinto

de vermelho

e tudo em torno

desfalece.

 

Sou feliz.

 

Nada (esqueçamos

o invejoso tempo) me devora.

Repetir-me é

meu único elo

com a necessidade

da eloqüência.

Mas rápido retorno à

minha solidão extática e inexpugnável.

 

O verdadeiro rei sou eu.

 

 

 

 

PAIXÃO

 

Quando me vejo diante de você

e relembro (ou melhor:

não exatamente isso, pois

não há ordem, história

ou até uma coisa que se ligue

a outra), então, me vêm a mente

uma outra coisa

luz mais feliz sobre

uma cena, um objeto,

uma aragem que

talvez tenha aliviado a

febre da pele, ou uma

gota d´água pura em sua

aparência, quando

vejo (por dentro) e recomponho

a fragilidade de tais mínimos

eventos, tentando fazer com eles

um só corpo,

um corpo,

e nele você está,

alcanço (perdoe-me)

algum tipo de paz, se posso

falar assim, e já não me

assusta tanto perdões

que esse bem se dá só

muito de vez em quando, e

que envelhecemos.

 

 

 

 

MURALHA

 

Quando tudo desapareceu,

a luz e sua ausência se

equivaleram, sim e não

fundidos ao silêncio

interior, exterior,

definitivos, maiores,

ainda assim ficou

faltando esquecer

tudo. Mas,

sobretudo,

nunca mais nem se lembrar

que esqueceu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




 

Ronald Polito (Juiz de Fora/MG). Mestre em História Social (UFF, Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ), pesquisador, ensaísta, poeta, cronista e tradutor. Ex-professor do Departamento de História da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). De abril de 2001 a março de 2004, foi professor visitante da Tokyo University of Foreign Studies (Japão). Dedica-se à edição de autores da literatura brasileira (Gonzaga, Durão, Silva Alvarenga, Joaquim Manuel de Macedo) e à tradução de escritores de língua catalã (como Joan Brossa, Salvador Espriu, Narcís Comadira, Quim Monzó, Maria-Mercè Marçal e Carles Camps Mundo) e espanhola (como José Juan Tablada, Julio Torri e Jaime Gil de Biedna). Entre seus trabalhos poéticos publicados destacam-se Solo (Sette Letras, 1996), Vaga (edição do autor, 1997), Objeto (edição do autor, 1997), Intervalos (7Letras, 1998) e De Passagem (Nanquim Editorial, 2001). Escreveu os livros Um Coração Maior que o Mundo (Tese de Mestrado, um estudo magistral sobre a obra de Tomás Antônio Gonzaga, Editora Globo, 2004) e Cenas Japonesas: crônicas de um brasileiro em Tóquio (Editora Globo, 2005). Preparou as edições dos poemas A Conceição: o naufrágio do Marialva, de Tomás Antônio Gonzaga (EDUSP, 1995), e Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, de frei José de Santa Rita Durão (Martins Fontes, 2001). Participa da Antologia O Achamento de Portugal (poesia, anomelivros/Fundação Camões, 2005), que reúne 40 poetas mineiros e portugueses contemporâneos. Os sete poemas acima fazem parte do livro de poesia terminal (7Letras, Coleção Guizos, 2006). E-mail: ronaldpolito@superig.com.br

Ronald Polito