22/12/2006 Número de leitores: 1069

Quando o autor perde o seu poder

Fábio Oliveira Nunes Ver Perfil

Em quase tudo aquilo que se produz criativamente há uma ditadura do autor único e da obra em que os papéis – de quem faz e daquele que recebe a mensagem – estão bem claros. Seja um filme, uma pintura ou um poema, a figura do autor está definida na essência como um realizador em completude. Mas, e se você pudesse proporcionar ao seu leitor, um pouco do seu poder enquanto autor, você o faria? Aceitaria talvez, descer do pedestal de um manancial criativo e passar a ser simplesmente um propositor de situações?

 

Os novos meios potencializam a criação de espaços que poderão dissolver a idéia institucionalizada de autor, a partir do momento em que cada visitante-leitor passa a ser visto além de sua passividade, como um elemento ativo e fundamental no processo. Se você produz nos moldes convencionais, poderá argumentar que o seu leitor é também um elemento ativo e fundamental, já que ele também “participa” pela multiplicidade de leituras advindas de seu repertório pessoal. Mas lembre-se que essa ação estaria ainda circunscrita na mente do seu leitor. Há inúmeras tentativas na arte contemporânea de fazer com que o visitante insira a si mesmo na obra efetivamente: que produza realmente algo que passe a ser parte da obra. Mas – enquanto autor – você estaria pronto para colocar as rédeas na mão de um elemento desconhecido? Será que eu poderia parar este texto por aqui e pedir para que alguém – uma coletividade conectada – continuasse por mim?

 

Os novos meios não acabam com essa ditadura, mas nos dão uma opção de não adotá-la. Aliás, essa ditadura não é uma estrutura falida, mas sim uma estrutura rígida demais diante da fluidez que as redes proporcionam. Neste caso, nada melhor que observamos a tão adorada Wikipedia – enciclopédia da Rede Internet composta de verbetes criados por qualquer um, a qualquer hora, sem qualquer limite ou necessidade de identificação. Não quero entrar no mérito da qualidade da informação ali disponível, mas temos um exemplo bem resolvido de uma entidade coletivamente gerada e gerenciada. Coloque um verbete lá e verá em algum tempo, como essa coletividade age na alteração daquilo que não é só seu.

 

Neste sentido, vários artistas da rede passam a pensar também em modos de tornar essa coletividade, parte ativa de suas produções. O trabalhoComunidade de Palavras das artistas brasileiras Silvia Laurentiz e Martha Gabriel é um excelente exemplo de espaço em que ao contrário do que estamos acostumados a ver, não temos a divulgação, mas sim a proposição de um espaço para a geração de poemas – nesse trabalho, altera-se a relação de produção: em vez de um indivíduo só escrevendo a uma coletividade, temos uma coletividade escrevendo para si mesma.

 

O site Comunidade de Palavras é um sistema multiusuário onde o visitante é convidado a criar um poema, que será indexado a uma “comunidade” que o configurará num determinado status dentro do “grupo”. Não temos apenas, portanto, a inserção da palavra, mas também um mapeamento permanente das palavras mais usadas e palavras que são empregadas com outras. Conforme novos poemas são inseridos, o sistema apresenta a emergência de padrões, dando face a um autor verdadeiramente coletivo.  Haveria uma argumentação possível a aqueles que – como eu – não acreditam na dissolução do autor individual: haveria talvez um reposicionamento do seu papel, agora muito mais ligado aos procedimentos do que ao produto final. Talvez a autoria ainda permaneça, mas neste sentido muito mais propositivo: o que não exclui uma perda de poder em torno dos resultados. O site Comunidade de Palavras pode ser acessado através do endereço:

 http://www.ociocriativo.com.br/laurentiz/ 

 

 

 

 

Fábio Oliveira Nunes