29/01/2007 Número de leitores: 226

Internetês triunfante

Bráulio Tavares Ver Perfil

Por Braulio Tavares


 

Se o mundo fosse lógico não tinha a menor graça. Vejam adolescentes ?chateando? pela Internet, por exemplo. Diferentemente do papel, que custa dinheiro e induz à economia material, a Internet oferece espaço quase ilimitado em seus blogs, forums, salas de chat, o que quiser. E existe alguém com mais tempo disponível do que adolescente? No entanto, eles inventaram esta curiosa linguagem cifrada que teoricamente vem para poupar tempo e espaço. Escrevem assim: ?Por vc eu faço qq coisa, kkkkkk? E quem lê entende intuitivamente esse tipo de abreviação. 

 

Falei abreviação, mas, mais uma vez, a lógica não predomina. Eles escrevem ?kasa?, ?koisa?, o que não abrevia coisa alguma. Infiro eu que o uso do K, nesses casos, vem de ser ele um substituto sintético para o ?qu?, em ?kero?, ?kem?, etc. E por contaminação acaba virando hábito e se espalhando para onde não é preciso. Quem usa email ou frequenta blogs se acostuma a entender que ?tb?, quer dizer ?também?, ?pq? quer dizer ?porque?, etc. (assim como nós, senhores sóbrios e circunspectos, sabemos que ?etc? quer dizer ?et coetera?).

 

O canal Telecine da Net inventou agora um recurso que acho irritante: filmes legendados nesse estilo. Imagino que seja para ?atrair o público jovem?. É uma dessas idéias pseudo-brilhantes que executivos de empresa têm, quando estão por trás da escrivaninha, olhando a praia do alto de seu trigésimo andar. E na Nova Zelândia a NZQA (New Zealand Qualification Authority) concordou em considerar correto o uso dessa grafia em trabalhos escolares, ?desde que conduza ao entendimento claro do que está sendo expresso?. Está dando a maior celeuma, porque tem educador que não se conforma. Afinal, o que é certo: Aceitar uma forma de expressão que apenas substitui uma grafia por uma forma sintética dela, ou exigir que os jovens escrevam igual a todo mundo?

 

Os próprios blogueiros ficam desconfiados diante de tamanho liberalismo. Um tal de Phil Stevens escreveu em seu blog: ?NZQA, u must b jokin, or r u smoking sumthug?? (em bom português, ?6 tão brincando, ou 6 tão fumando qq koisa??. E de fato, parece o gesto de desespero do pai ou da mãe que desiste e exclama: ?Tá bom, tá bom, coloca esse diabo desse piercing, mas pára de me encher!? Sabe que perdeu, aí recua e entrega os pontos.

 

Eu acho que qualquer novo processo vale, se vier para enriquecer a língua, não para empobrecê-la. Para nos dar um meio de expressão a mais, e não para cancelar os anteriores. Para estimular nossa inteligência, e não nossa preguiça. Gosto de gíria, gosto de jargões profissionais, gosto de neologismos e palavras inventadas, gosto de escrever ?vc?, ?tb?, e tudo o mais. Mas ?sou da tribo e conheço os cabôcos?. Se liberar, essa galera preguiçosa e mimada de hoje vai regredir ao Uga-Uga, linguagem primordial em que estas quatro sílabas servem para exprimir todo o vocabulário dos Lusíadas.

 

 

 

 

 

Braulio Tavares é escritor e compositor, e este artigo foi publicado em sua coluna diária sobre Cultura no "Jornal da Paraíba" (http://jornaldaparaiba.globo.com). E-mail: btavares13@terra.com.br

Bráulio Tavares