05/02/2007 Número de leitores: 1060

Googlando a poesia

Fábio Oliveira Nunes Ver Perfil

É evidente que a rede Internet traz para a poesia – e para toda a produção literária – uma visibilidade e uma acessibilidade nunca antes experimentada. Ao possibilitar a inserção de faturas poéticas completamente independentes do circuito editorial comercial, emerge na rede a figura de um autor-editor – ou ainda, do leitor-editor – já que passa a existir um rodízio de papéis na seleção sempre metonímica dos conteúdos do ciberespaço. Diante de um universo de pretensões infinitas, o garimpo literário se resume àquela pequena parte ao qual, por alguma benesse do destino, tivermos acesso. Pequena parte? Mas, e se formos ao todo-poderoso Google? Bem, você estaria disposto a percorrer cada um dos mais de 30 milhões de endereços da rede que ele apresenta sob a insígnia POESIA?

Não, esta não é uma discussão em torno da quantidade, apenas. O Google é uma das ferramentas de busca mais utilizadas no mundo, talvez uma das mais eficientes maneiras de encontrar agulhas no palheiro da web. Essa eficiência está relacionada com a sagacidade de seus programas-aranha que percorrem a teia planetária em busca daquilo que é comum aos poetas: a palavra. Toda a indexação presente no Google se baseia simplesmente nas palavras expostas em cada página da rede. Por um lado, isso pode trazer objetividade: digamos que eu queira saber sobre a vida de Carlos Drummond de Andrade, basta que eu digite o nome do poeta e a palavra “biografia” e inúmeros endereços pipocam na tela. Agora, mesmo que exista um site que fale minuciosamente sobre cada ano de vida do poeta, sobre seus pratos prediletos e cor de camisa preferida, a simples ausência da palavra “biografia” automaticamente o exclui dos meus resultados googleanos. Isso porque a indexação ocorre sem enxergar contextos ou tramas relacionais. Por outro lado, há também aqueles que se apropriam da burrice dos programas-aranha para direcionar novos públicos: ora, insira palavras de grande apelo no seu site – como o nome da última celebridade instantânea – e obtenha acessos monstruosos.

Mas lembre-se que se você é poeta, tem um blog no qual você toda semana ou todo dia publica textos inéditos, mas que, por algum motivo nunca utilizou a palavra POESIA em sua página, você automaticamente está fora destes 30 milhões de resultados. O que não é ruim, afinal, estar entre 30 milhões é o mesmo que não estar. Do mesmo modo, cada palavra de cada poema seu é potencialmente um destino para as mais distintas buscas, ainda que possa não ser o destino desejado por aqueles que buscam.

Com a expansão da rede, se faz necessária a adoção de sistemas computacionais que se permitam perceber contextos sutilmente. Ora, muita informação, humanamente inacessível, torna-se igual a nenhuma informação. Em diversos sites comerciais, especialmente em livrarias, há “agentes” computacionais que comparam as compras de cada indivíduo tentando estabelecer um “gosto” por conta de freqüência dele e dos demais clientes. Se eu compro sempre títulos de determinado assunto, observando perfis parecidos (outros clientes que compraram os mesmos livros), ele pode sugerir um título com maior chance de sucesso: é a história do “quem comprou este livro também comprou este”. Mas assim como nas aranhas do Google, os agentes não sabem muito bem o que estão fazendo: este tipo de práxis não decola além do tangível e do quantificado. Imagine um “agente” capaz de entender a complexidade de suas escolhas, a ponto de distinguir o que realmente vale ser apresentado a você. Ideal. Enfim, enquanto os sistemas pouco enxergam, resta-nos apenas buscar cada um dos 30 milhões de resultados:www.google.com.br/search?hl=pt-BR&q=poesia&meta= . Haverá tempo de sobra.

 

 

Fábio Oliveira Nunes