09/02/2007 Número de leitores: 246

A arte da capa de livro

Bráulio Tavares Ver Perfil

Por Braulio Tavares


 

Decidir a capa de um livro é um prazer marginal (no sentido de secundário, acessório) da arte da Literatura. Há escritores que, concluído e revisado o texto final do romance, entregam-se com deleite à dupla tarefa de escolher um título e bolar uma capa. São dois detalhes minúsculos mais essenciais. O título é o rosto definitivo de uma obra; a capa é um rosto provisório. Muitos livros que tenho comprei duas vezes, só porque a capa da outra edição era boa. E sempre procurei interferir na criação das capas dos meus livros, embora nem sempre com os melhores resultados. São tantos fatores envolvidos (tipo de papel, tipo de tinta, cores finais, fontes, relação da capa com o volume final do livro, etc.) que nem sempre a escolha de uma boa foto ou desenho é o bastante para dar a idéia que a gente imagina.

 

Para os que gostam de viajar mentalmente nesta sutilíssima arte, recomendo o blog ?Book Covers? (em: http://covers.fwis.com/), do capista Ben Pieratt, com um design enxuto e minimalista. A gente entra numa página com várias capas, e clica em cada uma para ver os comentários, que vêm junto a uma reprodução da capa com os dados essenciais (título, autor, editora, autor da capa). Alguns dos leitores que comentam são também designers ou capistas. Depois de ver os comentários que interessam, clica-se no botãozinho preto ?Next? para ver novo conjunto de capas.

 

Atualmente estão lá os comentários sobre ?Happiness? de Richard Layard, em que o capista consegue produzir um gráfico estatístico em forma de sorriso; ?Spook? de Mary Roach, história de terror em que os dois ?OO? do título são convertidos em espelhos de papel laminado que lembram olhos; ?Against the Day? de Thomas Pynchon que aparentemente só tem o título e o nome do autor (e precisava mais?), mas os comentaristas tiram leite de pedra e descobrem uma série de detalhes significantes; ?Honored Guest? de Joy Williams, com uma bela foto em P&B e uma seleção de cores totalmente equivocada; ?History Lesson for Girls? de Jasmine Lee, uma estranha foto meio surrealista, com o braço de uma moça e a cabeça de um cavalo que surgem das bordas e se encontram no centro; ?What Now? de Marc Estes, em que as letras do título (?E agora??) são quebradas e reorganizadas pelas bordas da capa, sendo tudo aplicado sobre a imagem de um clip de papel, que é um tema recorrente no livro (o autor mostra como um clip é um fio de metal que, dobrado daquela forma, ganha uma função e até mesmo qualidades físicas que não tinha antes). 

 

Cresci vendo as capas de Eugênio Hirsch para os livros da Civilização Brasileira, de Nils para os da Editora Vecchi, de Benício para milhares de livrinhos de bolso... O capista não é apenas um cara que diagrama informações ou ilustra uma cena da história. Cabe a ele captar o espírito do livro (erudito, popularesco, abstrato, emotivo, etc.) e recriá-lo noutra linguagem, com um mínimo de recursos. O capista é o primeiro crítico de todo livro.

 

 

 

 










 

 

Braulio Tavares é escritor e compositor, e este artigo foi publicado em sua coluna diária sobre Cultura no "Jornal da Paraíba" (http://jornaldaparaiba.globo.com). E-mail: btavares13@terra.com.br

Bráulio Tavares