10/03/2007 Número de leitores: 1097

A arte como algo que vem de dentro

Fábio Oliveira Nunes Ver Perfil


Curiosamente, o logotipo de Cloaca é inspirado na Ford e na Coca-Cola
Imagem retirada de http://www.bartschi.ch

Realmente a arte pode ser algo bem visceral. Um dos livros mais provocativos a respeito da arte contemporânea é “Cultura ou Lixo?” (1996) do crítico americano James Gardner, em que o autor enumera (de modo nada imparcial) o momento atual como a ascensão de uma produção que premia o bizarro e a banalidade. Arte de loucos, assassinos, com sangue, esperma ou cadáveres, tudo faz parte daquilo que o autor chama como “um negócio multibilionário”. Não acredito realmente que a arte contemporânea seja um negócio bilionário e nem que Gardner realmente entenda em profundidade do que está falando, preconceituosamente falando. De qualquer forma, a provocação é bem vinda.

Bom, Gardner com certeza não seria fã de um artista conceitual belga chamado Wim Delvoye. Delvoye é conhecido internacionalmente por apresentar máquinas que reproduzem uma natural ação dos seres vivos: defecar. Mas não se trata somente de purgar os dejetos como qualquer mortal: essa máquina tem a seu dispor chefs que produzem pratos especialmente para ela, como um convidado ilustre que permanece hospedado em um museu. Como se isso não fosse o bastante: os seus “resultados” significativos são vendidos através da web. Sim, um representativo objeto de arte que pode ser adquirido por você com a mesma facilidade de compra de um livro na Amazon!

As fezes oriundas dos sistemas Cloaca oferecidas para venda através da web são mecanicamente embaladas a vácuo, o que confere – felizmente – caráter inodoro e higiênico aos estrumes artísticos. Aliás, as máquinas de Delvoye são sistemas eletrônicos, mecânicos e químicos que digerem qualquer tipo de alimento: carne, vegetais, massas – todos deliciosamente preparados – são batidos numa espécie de liquidificador (o que seria o equivalente da nossa mastigação) para em seguida, receberem ácidos e enzimas similares às existentes no sistema digestivo humano. Desta forma, o resultado é muitíssimo similar ao “original”. A primeira versão de Cloaca é de 2000 e foi exposta no Museu de Arte Contemporânea de Antwerp, Bélgica. A última versão presente é de 2004 – quando foi classificada de “Nova e melhorada”.

Algumas vezes criticado pelo desperdício de comida com o seu trabalho – muitas vezes indagado pela sua insensibilidade sobre a fome mundial, ao dar de comer a uma máquina que possui somente a função de expurgar excrementos – vê-se uma interessante crítica ao consumismo, sendo que ao descontextualizar as funções de comer e defecar, o artista torna o que naturalmente seria expurgado em fetiche.  Evidentemente, o belga é também mal visto pela banalidade de sua obra – somente chocar seria a questão? – sendo muitas vezes aproximado do artista italiano Piero Manzoni, conhecido por defecar em 90 latinhas e etiquetar cada uma delas como “Artist´s Shit”, em 1961.

Na web, atualmente, a venda do produto oriundo de Cloaca está esgotada. Você poderia utilizar o seu cartão de crédito para comprá-lo, mas infelizmente isso não é possível! Mas vale a visita, especialmente pela documentação presente no site: http://www.cloaca.be.

 


A primeira Cloaca-machine em ação
Imagem retirada de http://www.cloaca.be

 

 

 

 

 

 

 

Fábio Oliveira Nunes