19/03/2007 Número de leitores: 1003

A liberdade dos Wikidiotas

Fábio Oliveira Nunes Ver Perfil

Um amigo que é renomado poeta, curador, editor e pesquisador das poéticas da visualidade, com participação em inúmeras publicações e exposições de poesia e das artes, tanto nacionais quanto internacionais – por mais de trinta anos – foi rispidamente eliminado enquanto verbete biográfico da Wikipédia pelo simples argumento de que ele não seria uma “personalidade enciclopédica”. Mas o que seria uma personalidade digna de constar em uma enciclopédia? E ainda, sendo uma enciclopédia que se autodenomina “livre”, não seria estranho eliminá-lo por um argumento tão restritivo?

A Wikipédia, nascida em 2001 – disponível em sua versão lusófona na rede Internet em http://www.pt.wikipedia.org – é um sistema colaborativo que tem por objetivo, manter e ampliar um banco de dados sob a forma de uma enciclopédia virtual na rede. A maior propriedade da Wikipédia é estar aberta a colaborações de qualquer internauta em praticamente qualquer parte – inclusive daqueles que não estão cadastrados no sistema: você pode entrar agora mesmo no endereço, fazer a busca de um assunto qualquer e através do comando “editar” pode alterar ou ampliar qualquer verbete. Sua contribuição passa a ser disponível para todos e por sua vez, estará sujeita a novas alterações a qualquer momento. O maior ponto positivo desta enciclopédia virtual está no princípio de “boa fé” daqueles que colaboram: parte-se do pressuposto que quem colabora quer dispor informações corretas que auxiliem pesquisas futuras. Ao mesmo tempo, cada internauta potencialmente é um “fiscal” da veracidade e da imparcialidade de cada verbete: se você é especialista em determinado assunto e acha um dado incorreto, porque não corrigi-lo?

Esse caráter colaborativo dá fim ao autor absoluto: você pode até dar início a um verbete, mas não será nunca o pleno autor dele, já que ao colocar qualquer texto ou imagem no sistema, você cede todos os direitos para a comunidade. E ainda terá que aceitar amigavelmente todas as alterações realizadas naquilo que você disponibilizou: aí nessa altura, você já deve estar se perguntando se essa abertura não seria grande demais, ao ponto de deixar qualquer coisa a mercê do repertório e má fé de qualquer um. Afinal, a boa fé é o princípio que deveria reger toda a nossa sociedade e não apenas os sistemas digitais – e não é isso que acontece. Na vida real, você já fez compras em lojas onde há seguranças presentes entre as gôndolas que o observam sem pestanejar? Acha que realmente eles partem do pressuposto que você é dotado de boa fé?

Além da confiabilidade sempre abalada – pela dificuldade de comprovar a veracidade das informações presentes na Wikipédia – a enciclopédia autodenominada “livre” insiste na sua comparação diante de enciclopédias mais tradicionais, seja aquelas presentes em suportes digitais ou impressas. Uma das comparações mais recorrentes é quantitativa: possui em suas versões em mais de 200 línguas mais de 1 milhão e meio de verbetes, em comparação com a bicentenária Britannica, que possui 28 mil verbetes em apenas uma língua. Só a versão em português da “Wiki” possui mais de 200 mil verbetes online. Mas apesar de seu gigantismo, a caçula das enciclopédias perde em um sentido muito importante: a ausência de especialistas nas áreas abordadas. Ora, é claro que os especialistas podem até estar ali presentes, ocultos sob os apelidos dos wikipedistas – o neologismo que determina os editores da enciclopédia virtual – mas justamente sem a associação explícita destes às suas áreas de domínio é como se não existissem.

Ainda com base num critério quantitativo, a comunidade da Wikipédia não promove aquele que é especialista, mas sim aqueles que realizam um maior número de contribuições em seu sistema: aqueles que atuam contribuindo em vários artigos passam a serem potenciais administradores – a denominação dada a um wikipedista com super-poderes como eliminar páginas, participar das votações sobre eliminações ou bloquear outros editores. Os administradores seriam como guardiões maiores deste conhecimento universal, com a tarefa de zelar sobre cada dado ali armazenado. Porém, como qualquer ser humano, possuem limitações de repertório e passam a zelar por aquilo que conhecem e por aquilo que não conhecem.

Até aí, tudo bem: afinal, o que deveria ser proposto para a verdadeira liberdade da Wikipédia seria a veracidade dos fatos. Ora, tudo aquilo que realmente aconteceu, tudo que realmente foi produzido ou experimentado, seria cabível de estar presente nesta biblioteca universal. A sua verdadeira liberdade estaria então assumida para abarcar inclusive aquilo que não caberia nunca em uma outra enciclopédia: movimentos underground, alternativos, pequenos movimentos sem representatividade nos meios comerciais e oficiais e personagens oriundos deste mesmo universo distante da massmedia. A verdadeira liberdade está em dar voz a todos, sem exceções – e não somente fazer de todos os internautas, potenciais editores. Mas infelizmente não é isso que realmente acontece: os administradores-wikipedistas estão preocupados com a relevância daquilo que é publicado. Como “acontece em qualquer enciclopédia”. E isso é um grande erro.

Ao buscar estabelecer juízos de valor, o erro é praticado por aqueles que não possuem repertório suficiente para a distinção do que realmente merece espaço. Ora, pegue três especialistas em uma determinada área e peça-os para citar cinco nomes relevantes. Haverá coincidências, mas nunca teremos os mesmos, já que os critérios muitas vezes são subjetivos mesmo entre aqueles que possuem conhecimento específico. E ainda mais subjetivos, os critérios daqueles que estão distantes da discussão presente em cada área.

Há pérolas como o fato de que, ao analisar a relevância de um trabalho seriado de objetos artísticos – num total de 70 unidades – o wikipedista que alegou ser um trabalho sem importância alguma pelo simples fato de que 70 unidades nada significam num universo de “10 milhões de habitantes em São Paulo”. Em uma outra situação, um usuário baiano, que vê sua banda ser eliminada do sistema, indaga aos administradores quais os critérios de relevância, percebe que os critérios são tão objetivos quanto o gosto pessoal: um deles acredita que a relevância estaria na quantidade de resultados no site de busca Google e outro, muito mais vaidoso e também baiano, diz simplesmente que como “grande conhecedor da cultura baiana”, simplesmente pelo fato de não conhecer a determinada banda, ela não é relevante. Num outro caso de eliminação, o argumento dado para a eliminação de um trabalho experimental de música Dark Ambient foi o fato de ser sido produzido somente sob a forma de CDs-R – ou seja, produzido fora da escala industrial, sem ser capitaneado por uma gravadora – afirmação que não procede visto que havia produções em gravadoras internacionais. Ainda, há o caso de um verbete sobre um conhecido evento de arte e tecnologia, realizado em São Paulo desde 2000, que abriga anualmente centenas de artistas nacionais e estrangeiros que foi eliminado por ser uma iniciativa independente dos seus organizadores (que também tiveram seus verbetes deletados, em seguida). Existiria então, uma relevância menor aos trabalhos alternativos e independentes simplesmente pelo fato de não estarem na esbórnia do consumo?

Curiosamente, há inúmeras personalidades presentes na Wikipédia que são enciclopédicas, visto que seus verbetes – ainda que alguns com pouca informação – permanecem inalterados e sem qualquer vestígio de eliminação futura. Destes, há categorias completas para participantes de reality shows, dançarinas de grupos populares e outras inúmeras celebridades instantâneas – muitas já esquecidas pela própria mídia que as criou – mas que permanecem para a posteridade como sinais da falta de critérios da tão aclamada relevância. Nessa deturpação de critérios, qual a relevância do meu amigo poeta e pesquisador, que possui uma produção que extrapola o tempo de existência terrestre de várias destas celebridades descartáveis?

O erro não está na presença das celebridades oriundas de Big Brothers ou grupos musicais de grande apelo comercial: o que é consumido em grande escala merece estar presente e ser referenciado tanto quanto aquilo que é produzido em escalas menores, visando um outro contexto que não é o da grande mídia. E juízos de valor não cabem neste sentido. A liberdade aclamada pela Wikipédia é uma mentira: uma encenação de wikipedistas perdidos em seus critérios nebulosos.

 

 

 

Fábio Oliveira Nunes