12/04/2007 Número de leitores: 251

A vida é sonho

Bráulio Tavares Ver Perfil

Por Braulio Tavares

 

A trilogia ?Matrix? dos irmãos Warchovsky, no cinema, e a trilogia ?Neuromancer? de William Gibson, na literatura, são narrativas futuristas sobre um mundo socialmente fraturado e de alta tecnologia. Apontam na direção de um futuro em que a realidade de carne e osso dos nossos corpos biológicos servirá apenas como infra-estrutura para uma realidade virtual, onde poderemos projetar nossa mente e criar ali todo um novo universo de ambientes, criaturas e interações.  Viveremos plugados em alguma coisa, e através desse plug compartilharemos mentalmente uma realidade a que nossos corpos não terão acesso.

 

Elas me lembram um conceito criado por Brian Aldiss para descrever certas narrativas de ficção científica: o Barroco Cinemascope (?widescreen baroque?).  Curiosamente essa concepção vem ao encontro de uma das mais notórias idéias do teatro barroco espanhol, aquela que Calderón de la Barca expressou melhor que todos em sua peça ?A Vida é Sonho?, quando diz: ?(...) estamos / em mundo tão singular / que o viver é só sonhar / e a vida ao fim nos imponha / que o homem que vive, sonha / o que é, até despertar?. Os poetas barrocos viviam numa época de fervorosa religiosidade, e procuravam exprimir das maneiras mais variadas esse contraste entre um mundo material cuja existência seus corpos não podiam deixar de reconhecer, e um mundo espiritual que lhes obcecava a mente por completo. O conflito entre a matéria e o espírito, duas realidades irrecusáveis, foi um dos temas mais obsessivos desses poetas.

 

O que Calderón dizia de seu mundo pode ser estendido à Matrix, o mundo ilusório criado pelas supermáquinas do futuro: ?Sonha o rico sua riqueza / que trabalhos lhe oferece; / sonha o pobre que padece / sua miséria e pobreza; / sonha o que o triunfo preza, / sonha o que luta e pretende, / sonha o que agrava e ofende / e no mundo, em conclusão, / todos sonham o que são, / no entanto ninguém entende?. No mundo da Matrix, os seres humanos vivem acorrentados no interior de casulos, dormindo um sono hipnótico, tendo sua energia sugada por máquinas incompreensíveis enquanto sua mente sonha sonhos artificiais em que imaginam estar em grandes cidades, andando de carro, trabalhando em escritórios, amando, casando, vivendo, divertindo-se. 

No primeiro filme dos Warchovsky, essa vida aparentemente banal e satisfatória é rompida quando um indivíduo (no caso o personagem Neo, de Keanu Reeves) aceita tomar uma pílula que servirá para estilhaçar a ilusão em que vive. A sua primeira sensação é de sair do mundo real e penetrar num pesadelo fantástico em que o mundo não é nada do que parecia. Ele poderia dizer, como o personagem de Calderón: ?Eu sonho que estou aqui / de correntes carregado / e sonhei que em outro estado / mais lisonjeiro me vi?. Se fazemos a equação ?a vida é sonho?, dizemos em conseqüência que ?o sonho é vida?; rompida a primeira ilusão, nunca mais saberemos distinguir de que lado nos achamos.

 

 

 

 

 




 

Braulio Tavares é escritor e compositor, e este artigo foi publicado em sua coluna diária sobre Cultura no "Jornal da Paraíba" (http://jornaldaparaiba.globo.com).
E-mail: btavares13@terra.com.br

Bráulio Tavares