31/08/2007 Número de leitores: 251

A história de J T Leroy

Bráulio Tavares Ver Perfil

Por Braulio Tavares

 

Falei aqui recentemente sobre os ?fantasmas escritores?, que não são o que em inglês se chama de ?ghost writers?.  Meu artigo era sobre os escritores mediúnicos como Chico Xavier ou Zíbia Gasparetto, pessoas que crêem na doutrina espírita de que a alma é imortal e pode se comunicar com os vivos. Esses escritores entram em transe, recebem (dizem eles) o espírito de escritores já falecidos e produzem novas obras literárias.

 

Nos tribunais americanos está rolando um processo judicial envolvendo a obra autobiográfica do escritor J. T. Leroy, que estreou em 2000 com o livro ?Sarah? (publicado no Brasil pela Geração Editorial), onde contava sua infância sofrida como filho de uma prostituta de beira de estrada que atendia caminhoneiros. Leroy cresceu e tornou-se também garoto de programas, atendendo aos fregueses de sua mãe. A história era arrepiante, cheia de uma verdade pungente. O livro ficou famoso, vendeu pra caramba, teve os direitos adquiridos para o cinema... a trajetória habitual dos sucessos nos EUA. Aí descobriu-se que era tudo invenção. J. T. Leroy não existia: era a invenção de uma escritora chamada Laura Albert.

 

Os produtores do filme sentiram-se lesados. Julgavam estar comprando uma história autobiográfica; se os fatos do livro eram ficção, aquilo mudava tudo. Mas aí Laura Albert foi mais fundo. Revelou que J. T. Leroy era na verdade um ?alter ego?, uma dupla personalidade real, alguém que tinha existência própria e vivia dentro de sua mente. Sua mãe testemunhou, no tribunal, que a filha tinha graves depressões, foi internada várias vezes, e era de uma timidez patológica: chegou a ficar três anos sem sair do quarto. Nesse quadro de neurose e desepero, J. T. Leroy emergiu (diz a escritora) como um respiradouro, uma válvula de escape. E foi ele quem passou a se comunicar com o mundo, por escrito.

 

Notem bem: a sra. Albert não alega estar captando o espírito de alguém que morreu. Tecnicamente, trata-se do contrário: alguém que nasceu dentro dela, sem ter tido uma existência corpórea. A psiquiatria trata isto como caso de ?dupla personalidade?, e os exemplos na história médica são numerosíssimos. O que isto tem de interessante para a literatura é o fato de que pessoas provavelmente incapazes de escrever um livro por conta própria conseguem fazê-lo quando imaginam que são outra pessoa, seja essa pessoa um autor famoso como Balzac ou Eça de Queiroz (já ?canalizados? por médiuns brasileiros) ou um autor fictício como J. T. Leroy.

 

A dissociação psíquica e a divisão literária da personalidade podem ser um processo consciente, deliberado, sob controle: está aí ?Fernando Pessoas? que não me deixa mentir. A vida e a obra de Zíbia Gasparetto, Laura ?J. T. Leroy? e Pessoa (com seus heterônimos) são talvez diferentes facetas de um mesmo processo de criação de uma ?voz literária?, que deveria ser tratado pela ciência e pela crítica literária com uma percepção mais ampla do que realmente ocorre.







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A enganação literária

 

Falei dias atrás sobre o escritor J. T. Leroy, autor de livros sobre sua vida como garoto de programa de beira de estrada, viciado em drogas, portador do HIV. Leroy lançou livros, teve obras filmadas, e depois descobriu-se que ele não existia. Era um pseudônimo de uma escritora que recorria a uma enteada para desempenhar o papel de ?Leroy? em público. ?Ele? esteve no Brasil em 2005, na Flip (Festa Literária de Paraty), e deu entrevistas que exploravam sua aparência andrógina, quase transexual. Em 2006 a verdade saiu nos jornais. E agora as pessoas (e os tribunais) discutem: Isso é crime? Falsidade ideológica, ou coisa equivalente?

 

Não vou discutir os aspectos jurídicos, mas os literários. Existem autores que só escrevem sobre seu próprio mundo. Escrevem com sua verdade pessoal, sua visão pessoal, sua experiência pessoal. Escritores assim são maus criadores de personagens, porque só sabem falar do que conhecem. Jorge Luís Borges e Henry Miller, por mais diferentes que sejam, têm isso em comum. Falam sobre seus próprios mundos; não saberiam, por exemplo, escrever um romance na primeira pessoa contando a vida de uma dona-de-casa numa fazenda.

 

Outros autores, contudo, sabem colocar-se na pele de personagens imaginários, vivenciar mentalmente situações que nunca conheceram, produzir em si próprios emoções fictícias. Quando Flaubert disse ?Madame Bovary sou eu? deu a formulação mais simples desse processo, porque foi dentro dele, Flaubert, que se criaram as complexas emoções e vivências daquela mulherzinha boba, banal, ambiciosa, que, em princípio, em nada se parecia com Flaubert. Quando chamam Chico Buarque de ?o Chico Xavier da alma feminina?, os críticos colocam essa questão da pseudo-mediunidade, da técnica (pois é uma técnica) de imaginar-se sendo outra pessoa, pensando com ela, sentindo com ela. Alguns sabem fazer. Outros não.

 

J. T. Leroy tem um livro, adaptado para o cinema, com o título ?The Heart is Deceitful Above All Things? ? ?O Coração é Enganador Acima de Tudo?. O que nos traz aos versos de Pessoa: ?O poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente?.  Emoções podem ser verdadeiras mesmo produzidas por uma vivência não real ? o cinema está aí para isso, não é mesmo? Para que recebamos por duas horas o espírito daquele personagem interpretado por Dustin Hoffmann ou Fernanda Montenegro, soframos com ele, riamos com ele, identifiquemo-nos com seus menores trejeitos faciais, com as menores inflexões de sua voz. São falsas, essas emoções que nos violentam na sala escura? Não acho. São as mesmas de um escritor que as produz conscientemente em si próprio, num gabinete silencioso, a sós diante do computador. Guimarães Rosa dizia: ?De repente, o diabo me cavalga?. Não o Diabo cristão: mas o ?Daimon? grego, o espírito criador que pede para dizer algo. Se lhe inventamos um nome e uma biografia, aí são outros quinhentos.

 

 

 

 

 

 







 

Braulio Tavares é escritor e compositor, e este artigo foi publicado em sua coluna diária sobre Cultura no "Jornal da Paraíba" (http://jornaldaparaiba.globo.com).
E-mail: btavares13@terra.com.br

Bráulio Tavares