08/10/2007 Número de leitores: 244

A verdade e o grotesco

Bráulio Tavares Ver Perfil

Por Braulio Tavares

 

Toda caricatura é grotesca e meio ridícula, até a de uma pessoa linda, respeitável, querida por todos. Toda caricatura é uma exageração de características verdadeiras. Caricatura não inventa, não mente, não cria: apenas distorce, deforma, arreveza.

 

A MPB, descrita pelos partidários da axé-music, é tão grotesca quanto a axé-music descrita pelo partidários da MPB. Fazem-no com a facilidade de quem enxerga melhor o cisco no olho alheio do que a trave no seu próprio. Todo movimento cultural tem suas limitações, tem seus exageros, tem suas contradições, seja ele popular, erudito, de vanguarda, de indústria cultural, intelectualizado, popularesco, seja o que fôr. Quando gostamos, minimizamos esses defeitos e nos concentramos nas qualidades que nos atraem. Quando não gostamos, descartamos as qualidades e nos concentramos nos defeitos. 

 

Distinguir as qualidades dos defeitos é um julgamento estético. Realçar e exagerar a importância daquelas ou destes é um julgamento político. A toda arte corresponde uma política, que é o conjunto de processos que faz com que essa arte seja produzida, criada, divulgada, discutida, consumida, estudada. O nome disso é Política Cultural, e começou no dia em que um troglodita ficou parado na porta da caverna, chamando os passantes para que entrassem e vissem o bisonte que ele desenhou.

 

O Armorial descrito pelos tropicalistas é tão caricato e grotesco quanto o Tropicalismo descrito pelos armorialistas. Não o fazem por mau-caratismo ou por calúnia; fazem-no porque disputam um espaço dentro da vida cultural, e precisam dar um chega-pra-lá um no outro. Não se deve dar muito crédito a essas descrições, porque são contaminadas do estranhamento natural de quem, por dever de fidelidade à própria fé, não pode ter excessiva simpatia para com a fé alheia. Além do mais, quem descreve assim sabe no íntimo que está exagerando, que está ?pegando pesado?, que está sendo parcial e talvez injusto, mas, paciência ? essas opiniões não são opiniões científicas nem filosóficas, são opiniões políticas. Não expressam a nossa Razão objetiva, mas a nossa Vontade subjetiva.

 

A ficção científica, quando descrita pelos partidários do realismo, é tão ridícula e burlesca quanto o realismo descrito pelos aficionados da FC. Cada um quer puxar o Brasil para sua sardinha, cada um quer afirmar suas qualidades contrapondo-as ao defeito simétrico do outro. Quem se vale da imaginação, critica a falta de imaginação do lado oposto. Quem se vale da verossimilhança, vice-versa. 

 

Isto significa que não devemos dar ouvidos a ninguém, porque todos são preconceituosos contra os concorrentes? Nada disso. Oposição é sempre necessária. Ninguém é perfeito, a não ser nos próprios press-releases. Não podemos conhecer bem uma pessoa sem saber o que pensam dela os seus adversários ? estou falando dos adversários, que falam dos seus defeitos reais, e não dos seus inimigos, os que inventam defeitos que ela não tem. 

 

 



 

Bráulio Tavares é escritor, roteirista e compositor. Compilou a primeira bibliografia do gênero: o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional). Autor de ?A Espinha Dorsal da Memória?, ?A Máquina Voadora? e ?Anjo Exterminador? (todos pela Rocco). Organizou as antologias ?Freud e o Estranho?, ?Contos Fantásticos no Labirinto de Borges? e ?Páginas de Sombra?; (todos pela editora Casa da Palavra).
E-mail:
btavares13@terra.com.br

Bráulio Tavares