28/11/2007 Número de leitores: 1049

Betas, bananas e bugs

Fábio Oliveira Nunes Ver Perfil

Com algumas bananeiras no seu quintal, imagine se você tivesse a possibilidade de ver cada banana amadurecer separadamente – sem a inconveniência de ter um gigantesco cacho maduro de uma só vez. Imagine se fosse instituído que todos os feriados prolongados obrigatoriamente só poderiam ter chuvas de madrugada, tornando-os invariavelmente ensolarados. Aliás, como seria bom que a regra também fosse estendida para altas temporadas em períodos de férias. Se os pernilongos estivessem proibidos por algum modo de alimentarem-se de nós quando dormimos: talvez pudéssemos agir em legítima defesa nestes casos. Se as baratas fossem na verdade insetos tão admirados quanto são abelhas ou borboletas – coloridas e distantes de fétidos esgotos. Ficaríamos lisonjeados ao achá-las dentro dos sapatos ou correndo em nossa cozinha. Ou se as formigas deixassem de ter um gosto todo especial pelo açúcar ou se as traças pudessem distinguir a boa e a má literatura assim como os melhores críticos.

Se toda disfunção intestinal fosse antecipada por um aviso mínimo de três horas: em um trânsito como o paulistano, seria o tempo de encontrar um lugar amigável. Se toda dor de cabeça resultasse em idéias criativas sem Aspirinas. Ou se a nossa bile tivesse um delicioso aroma tutti-frutti. E que esse aroma fosse estendido para outras seções do corpo, sendo que alguns indivíduos estariam livres para optar entre lavanda ou flores do campo. Os demais perfumes ficariam a cargo das indústrias de desodorantes e sabonetes.

Bem, imaginemos então que a vida estivesse em sua versão beta. Explicando: os mais diversos softwares, antes de serem lançados ao grande público, têm suas falhas de programação (comumente chamados de bugs) verificadas em versões de teste – as versões beta. No entanto, alguns programas ou sites, são lançados em suas versões beta, assumidamente. E acabamos nos deparando com falhas constantes – como é o caso do site de relacionamentos Orkut, em sua versão beta desde janeiro de 2004. E talvez não fosse este também o caso da nossa vida cotidiana?

O artista multimídia francês JLNDRR (as consoantes de Julien Dorra) desenvolveu o site de web arte Debugging Life (2006), onde transforma seus visitantes em relatores dos bugs de um grande programa chamado vida. Com esta premissa, o site se propõe a ser um registro de todos os erros possíveis deste “programa”, com comentários de diversos relatores sobre possíveis maneiras de lidar com as falhas do cotidiano. A interface se apropria de um sistema de fórum utilizado por programadores para testes (o chamado debugging) de programas de computador convencionais. Como diz o autor, “agora que nós temos uma forma de reportar estes bugs, é somente uma questão de tempo para a vida sair de sua versão beta”. O site possui colaborações em francês e inglês e está disponível em:http://www.debugginglife.com. Para ver as colaborações e participar do site é necessária uma inscrição que é confirmada posteriormente via e-mail.

 

 

 

Fábio Oliveira Nunes