13/02/2008 Número de leitores: 262

A inspiração equivocada

Bráulio Tavares Ver Perfil

Por Braulio Tavares

 

O poeta John Hall Wheelock conta que quando estava na universidade foi assistir uma montagem do ?Ricardo III? de Shakespeare. A certa altura, ele ouviu um dos atores dizer um verso que o encantou: ?Vai, dorme... Eu te contemplo dos balcões do céu?. Wheelock pensou: ?Que belo verso! Gostaria de tê-lo escrito?. Escreveu então um poema intitulado ?De Coelo ? Canção baseada num verso de Shakespeare?. E começou a receber cartas de leitores (inclusive especialistas em Shakespeare) perguntando onde se encontrava o tal verso. Ele o procurou em todas as cópias do texto da peça, e o verso não aparecia em nenhuma. Wheelock tinha certeza, por outro lado, de não ter inventado o verso por conta própria, porque teve inclusive de procurar no dicionário o significado da palavra ?oriel? (?balcão?), que ele desconhecia.

 

E agora? De onde veio o verso? Ninguém sabe. Wheelock, nas edições subseqüentes do poema, assumiu a autoria, depois de perceber que não era mesmo de Shakespeare. Poderia talvez ter sido um ?caco?, um improviso do ator, mas eu duvido. Uma interpretação imaginosa seria a de que no momento em que desejou ter escrito aquele verso o poeta o fez com tal intensidade que foi magicamente transportado para um universo paralelo em que esta linha estava ausente da peça de Shakespeare, dando-lhe assim a oportunidade de assumir sua autoria.

 

Mais realista é supor que, na acústica variável de um teatro, Wheelock ouviu palavras parecidas e as traduziu por outras. Acontece muito, e às vezes esses erros nos dão de graça algumas boas idéias. Já referi nesta coluna que o título ?O Evangelho Segundo Jesus Cristo? ocorreu a José Saramago quando ele, passando por uma banca de revistas, viu de relance a frase e voltando atrás, percebeu o engano, mas achou que o título seria um bom ponto de partida para um livro. Coisas assim nos acontecem o tempo todo. Algum tempo atrás passei por uma rua onde havia um cartaz lambe-lambe na parede anunciando o show de um grupo chamado ?Sobrado Mardito?. Voltando atrás, percebi que na verdade era ?Sorriso Maroto? ? mas o falso título daria um belo filme de terror com trilha sonora de Adoniran Barbosa.

 

O músico Brian Eno criou um baralho chamado ?Estratégias Oblíquas? com frases para estimular a criatividade. Numa das cartas ele diz: ?Honre o seu erro como uma intenção oculta?. E explica: ?Você pode dar-se o trabalho de elaborar uma série de condições, na esperança de que a certa altura haverá um estalo e as coisas irão todas na direção certa. Mas muitas vezes não é isto que acontece. Então, o melhor é organizar deliberadamente as coisas de modo a que ocorra entre esses elementos uma sinergia que você mesmo não compreende. Na verdade, o que ocorre não é que você tem controle total sobre o processo, mas que você está criando uma situação que expande a sua noção de controle?.

 

 

 

 

 






Bráulio Tavares é escritor, roteirista e compositor. Compilou a primeira bibliografia do gênero: o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional). Autor de ?A Espinha Dorsal da Memória?, ?A Máquina Voadora? e ?Anjo Exterminador? (todos pela Rocco). Organizou as antologias ?Freud e o Estranho?, ?Contos Fantásticos no Labirinto de Borges? e ?Páginas de Sombra?; (todos pela editora Casa da Palavra).
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Bráulio Tavares