02/07/2008 Número de leitores: 233

O mundo que não existe

Bráulio Tavares Ver Perfil

Por Bráulio Tavares

 

O escritor (o artista imaginativo em geral) é um sujeito cuja maior preocupação na vida é uma porção de fatos que nunca aconteceram com pessoas que nunca existiram. O trabalho literário tem uma certa semelhança com os tais dos silogismos da Filosofia. Seu valor depende de sua adequação às próprias regras, e não do que está dizendo. Digo, por exemplo: ?Todos os homens são mortais. Ora ? Sócrates é um homem. Logo, Sócrates é mortal?. Para o leitor distraído, este raciocínio parece correto, mas ele pensa assim pelas razões erradas. Acredita porque sabe que Sócrates era um homem, e que já está morto.  Provavelmente sabe que Sócrates foi obrigado a beber cicuta, um veneno daqueles do caba cair ciscando. Sabendo disso, ele acha que o raciocínio é verdadeiro.

 

Pois igualmente verdadeiro é este aqui: ?Todos os kabung são trambiáveis. Ora, Pampinello é um kabung. Logo, Pampinello é trambiável?. Se você não sabe o significado destes termos, então somos dois, porque eu, que acabo de inventá-los, também não sei. Mas a frase é verdadeira. Uma proposição de lógica formal (esta aí, por exemplo, chama-se, se não me equivoco, de ?silogismo simples?) não é verdadeira porque corresponde a algo que enxergamos no mundo material: é verdadeira quando obedece às regras que ela mesma estabeleceu.   Matemática é a mesma coisa. Cinco mais seis são onze, não importa se estamos nos referindo a laranjas ou a jogadores de futebol.

 

Vi uma citação do inglês Graham Greene: ?Um escritor é um homem de barba por fazer e copo na mão, cercado de criaturas que não existem?. Isto me lembra um cartum de Jaguar no ?Pasquim?, satirizando uma famosa frase de Paulo Francis. Primeiro quadrinho: Francis numa festa, cercado de gente inexpressiva. Segundo: Francis diz: ?Bebo para tornar as outras pessoas mais interessantes?, e vira um copo de uísque. Terceiro quadro: Francis na mesma festa, mas cercado por gente famosa: escritores, poetas, pintores clássicos, filósofos, políticos.   

 

A literatura cumpre a mesma função do uísque de Francis: fazer com que as pessoas que não existem se tornem mais interessantes do que as pessoas reais.  Não por menosprezo a elas, mas porque entendê-las nos ajuda a entender as coisas de cá. Entender o porquê da trambiabilidade de Pampinello nos ajuda a entender o porquê da mortalidade de Sócrates. Como dizia Carlos Drummond, ?a vida, quando vai aos livros, é para voltar mais vida?. As criaturas que não existem precisam da nossa atenção e da nossa crença. Quando atenção e crença ocorrem, a não-existência delas recede para segundo plano, e tudo que se passa em nossas mentes a partir daí é como se se passasse aqui no mundinho dos partidários da verossimilhança. Elas são como aqueles desenhos feitos com letras datilografadas que, superpostas, formam zonas de luz e de sombra, onde surge a imagem de um rosto humano. Personagens são uma inexistência por onde a existência se revela.

 

 

 

 

 

 

 

Bráulio Tavares é escritor, roteirista e compositor. Compilou a primeira bibliografia do gênero: o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional). Autor de ?A Espinha Dorsal da Memória?, ?A Máquina Voadora? e ?Anjo Exterminador? (todos pela Rocco). Organizou as antologias ?Freud e o Estranho?, ?Contos Fantásticos no Labirinto de Borges? e ?Páginas de Sombra?; (todos pela editora Casa da Palavra).
E-mail:
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Bráulio Tavares