20/07/2008 Número de leitores: 1079

Poéticas da onisciência: Poesia Encontrada

Fábio Oliveira Nunes Ver Perfil

Em uma das cenas mais célebres do cinema, os anjos de Wim Wenders recebem um turbilhão de pensamentos oriundo das mais distintas leituras em uma biblioteca. No filme Asas do Desejo (Alemanha/França, 1987), impressiona esse emaranhado de vozes que colabora para uma composição efêmera daquilo que se passa nas mais diferentes mentes naquele instante – o ato de contemplar não a informação simplesmente, mas o seu fluxo.

Mudando de ares e linguagens, temos Rui Torres, poeta e pesquisador português de poesia experimental na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, que produziu o trabalho chamado de Poesia Encontrada, juntamente com a colaboração de Jared Tarbel e Nuno F. Ferreira. A produção é inspirada em poema homônimo do escritor lusitano António Aragão, sendo apresentada como uma releitura. Mas consegue ir além, quando insere o tempo real em sua práxis. A poesia de Torres não está determinada de antemão: ela é um texto mutante que se alimenta das palavras presentes em sites noticiosos da própria rede Internet no instante em que é visitada. Utilizando-se do recurso RSS (sigla do pouco esclarecedor termo Really Simple Syndication) presente nestes sites, a cada novo acesso, o texto se refaz sob o signo do momento. É interessante pensar que essa tecnologia RSS foi pensada justamente para a manutenção de uma organização dentro do fluxo contínuo de informações na rede, quando o indivíduo opta por determinadas fontes e os sites escolhidos automaticamente enviam informação conforme ela nasce.

Torres, por sua vez, utiliza essa ferramenta para criar um espaço em que a informação perde o seu sentido objetivo e o RSS – anunciado pelos tecnoentusiastas como uma bússola no meio de tanta bagunça informacional – é justamente um agente do excesso e do exagero, ao mesmo tempo em que dá luz ao que inúmeras mentes estão digerindo naquele mesmo instante. Temos o tráfego informacional instaurado naquele momento: casual e momentâneo. Possibilita que nós tomemos o lugar dos seres sombrios de Wenders e passaremos, então, a tomar o lugar de fascínio da onisciência. O poeta constrói uma escritura do presente e torna possível realizar a contemplação de um presente imediato que conforme se fixa na tela deixa de ser o tempo real no mais rápido piscar de olhos.

Através do site do poeta, é possível acessar a Poesia Encontrada em várias versões. Aos brasileiros, as versões baseadas no noticiário nacional:

http://www.po-ex.net/flash/nunof/emofract_rss_folha.swf

http://www.po-ex.net/flash/nunof/emofract_rss_folha1.swf


Esse trabalho é parte do projeto PO-EX – Poesia Experimental Portuguesa, que pode ser acessado em http://www.po-ex.net 

 

 

 

 

 

Fábio Oliveira Nunes