28/08/2008 Número de leitores: 1027

Afinal, qual é o lugar da autoria na rede?

Fábio Oliveira Nunes Ver Perfil

Quando a rede Internet torna-se popular no final do século XX – oriunda da gradual abertura da estrutura descentralizada e militar da rede americanaARPANet – configura-se um espaço aberto para todos aqueles que até então estavam distantes do crivo hegemônico. Quer difundir sua produção? Coloque-a na Internet, oras. Inicialmente, a rede era propícia apenas para a divulgação de elementos textuais ou com algumas imagens fixas de baixíssima resolução. Com a expansão da banda larga aos usuários comuns, a rede tornou-se também o lugar de todas as demais linguagens contemporâneas passíveis de estarem no domínio digital, tais como, animações e vídeos com resoluções e duração cada vez maiores.

No evento Cartografia Web Literária, realizado duas semanas atrás no SESC Consolação, em São Paulo, com o apoio do site Cronópios, do qual participei em uma produtiva mesa sobre as interfaces poéticas na web, entre as questões recorrentes (e não apenas nesta mesa) está um sentimento de inquietação de uma legião de autores que nasceram sob uma espécie de limbo tecnológico – uma preocupação existencial que se esboça a cada texto disposto na rede. O fato é que esse autor se localiza em uma indeterminação de pensamentos ora contraditórios, ora conflitantes – entre a necessária divulgação e a necessidade de inserção em um mercado restrito, entre querer ser reconhecido, mas não poder publicar na rede seus melhores ou recentes textos sob o risco de ser sumariamente copiado.

A primeira resposta para o autor de conteúdos divulgados através da rede é pensar que o maior de todos os valores é a difusão. Como bem pontua o pensador americano John Perry Barlow em seu célebre e pioneiro texto – de 1994! – sobre a economia em tempos de rede, Vender vinho sem garrafas: a informação não pode ser vista pela ótica simplista da mercadoria já que a informação torna-se mais valiosa à medida que é difundida, quanto mais acesso, mais valor. Já a mercadoria, limitada sob o prisma do mercado, ganha valor quando é cada vez mais desejada, ganha valor na condição de escassez. Com a rede, os autores caíram em si sobre algo que há muito tempo, a arte conceitual já tinha encarado: a desmaterialização.

No fundo, antes da rede, nunca se vendeu simplesmente poemas: sempre se venderam livros, mercadorias fisicamente tangíveis. Mesmo na questão de direitos de autor, o que se protegia era o livro e não as idéias, os conceitos ali presentes: estes sempre foram universais e gratuitos. Mas, com a digitalização, perdemos os continentes e ficaram apenas os conteúdos: não precisamos como antes do livro, da fita, do CD ou do DVD, já estão todos trafegando como dados que vão ricocheteando pelos cafundós do planeta (mesmo que se materializem eventualmente em algum nó por aí). O que temos são dados que querem ser lidos, querem se reproduzir e como seres vivos em busca de oxigênio – contornam-se das ameaças ao seu livre trânsito e emergem. Os dados são como as idéias. Mas pouquíssimas pessoas ainda entenderam isso.

As empresas de software lidam com essa desmaterialização e ao mesmo tempo ainda mantêm estruturas arcaicas de lidar com os problemas de propriedade intelectual. E mesmo a opinião pública, ainda está muito aquém: um projeto de um senador brasileiro sobre “segurança na rede Internet” trouxe a tona a discussão sobre a possibilidade de considerar crime o uso de programas compartilhadores de redes Peer-to-Peer (P2P). Os programas P2P conectam computadores a computadores em diversas redes de compartilhamento de arquivos e podem promover uma difusão ainda mais democrática do que via WWW (interface gráfica a qual estamos acostumados via navegador web, que requer um servidor para suas páginas) – ainda que uma grande parte dos conteúdos seja discutível.

Quando se coloca a difusão como elemento-chave, aparecem outras soluções possíveis. No Cartografia Web Literária, se falou um pouco sobre Copyleft – um substituto a altura da Copyright para a fluidez que invariavelmente corre nas redes. Trata-se de uma licença que difere da idéia de domínio público: limita o uso privado e pode possibilitar modificações e distribuição. Softwares que não limitam seu código fonte podem ser melhorados por outros programadores. Nesta ótica, poemas também poderão ser melhorados por outros poetas. A rede é o espaço para situações de colaboração que vão ser justapostas a uma velha noção de autor e que, ao mesmo tempo, libertam as idéias da ditadura da mercadoria, sem qualquer crise existencial.

 

 

 

Fábio Oliveira Nunes