04/09/2008 Número de leitores: 259

Encarnação do Demônio

Bráulio Tavares Ver Perfil

Por Bráulio Tavares




              



Fui à pré-estréia carioca deste novo filme de José Mojica Marins, o retorno triunfal de Zé do Caixão, que nos anos 1960 foi o grande personagem do nosso filme B de terror com filmes como ?À Meia Noite Levarei Sua Alma? (1963), ?Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver? (1967), ?O Estranho Mundo de Zé do Caixão? (1967) e outros. Perseguido pela censura e pela igreja, Zé do Caixão dividia a crítica. Uns o achavam violento, tosco, de mau gosto. Outros (como Glauber Rocha) o consideravam um talento bruto, bem brasileiro, e com aquilo que Borges chamava de ?fulgor satânico?. 

 

Mojica fez inúmeros filmes menores na Boca do Lixo paulistana, inclusive filmes pornô. Participou como ator de filmes alheios (como no extraordinário, e esquecido, ?O Profeta da Fome? de Maurice Capovilla) e agora retorna de forma triunfal. O projeto de ?Encarnação do Demônio? existia há mais de quarenta anos, antes mesmo do nascimento de seus atuais produtores, Paulo Sacramento e Fabiano Gullane, como eles lembraram antes da sessão.

 

O filme de Mojica tem de tudo: câmaras de tortura, terreiros de macumba, chacina policial, rituais violentos que nada devem a Hannibal Lecter ou ao ?Massacre da Serra Elétrica?. Neste sentido, a evolução técnica e a produção cara (1,8 milhão de reais, quando o próprio Mojica confessa que teria feito o filme com 120 mil) deixam o filme mais parecido com os filmes de terror norte-americanos de hoje e menos parecidos com os filmes toscos, desajeitados, mas visceralmente pessoais, que Mojica fazia. Em 1970, não havia ninguém no Brasil cujo cinema parecesse com o dele. Hoje, continua a não haver, mas seu filme corre paralelo ao cinema de terror ?gory? que enche hoje as nossas telas.

 

O lado positivo dessa mudança é que os antigos filmes de Zé do Caixão eram uma espécie de viagem pessoal, delírio particular do cineasta. Trechos deles aparecem em ?Encarnação do Demônio?: em preto-e-branco, mostrando um Mojica jovem, magrinho, de barba preta. Era o tempo em que Zé do Caixão sentava à janela, vendo passar a procissão da Sexta-Feira Santa e devorando um blasfemo pedaço de galinha.  Seu filme atual, contudo, está visceralmente misturado à violência e ao terror de São Paulo: crianças que cheiram cola, policiais que fuzilam favelados, garotas góticas que freqüentam cemitérios.  Os filmes de Mojica nos anos 1960 eram contemporâneos dos porões da tortura na ditadura militar; o filme de hoje tem o seu próprio porão de tortura, no meio de uma favela miserável onde Zé do Caixão vive seu pesadelo de super-homem maligno.

 

As cenas de violência são para espectadores de estômago forte. Outras cenas insólitas mostram o talento selvagem do diretor, como a cena da mulher enforcada num galho de árvore que abre os olhos, volta à vida, corta a corda com uma faca e cai de pé, para perseguir Zé do Caixão.  Uma imagem de pesadelo, mais forte que as cenas de tortura, e típica da imaginação ?uncanny? de Mojica.

 


 

 

 

Bráulio Tavares é escritor, roteirista e compositor. Compilou a primeira bibliografia do gênero: o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional). Autor de ?A Espinha Dorsal da Memória?, ?A Máquina Voadora? e ?Anjo Exterminador? (todos pela Rocco). Organizou as antologias ?Freud e o Estranho?, ?Contos Fantásticos no Labirinto de Borges? e ?Páginas de Sombra?; (todos pela editora Casa da Palavra).
E-mail:
btavares13@terra.com.br

Bráulio Tavares