07/10/2008 Número de leitores: 1587

Livros abandonados, percursos encontrados

Fábio Oliveira Nunes Ver Perfil

Uma das etiquetas do site BookCrossing

O poeta paulistano Diniz Gonçalves Júnior, que tem publicado uma boa parte de sua produção em sites da rede, propõe uma ação que explicitaria percursos desconhecidos e subjetivos. Diniz resolveu lançar seu novo livro Decalques com uma maneira (além das tradicionais) um tanto inusitada: pretende estender os percursos já referenciados em seus poemas por meio de indivíduos desconhecidos que, por sua vez, passarão estes mesmos volumes para outros igualmente desconhecidos. Na prática, o poeta deixará os exemplares deDecalques em lugares que são referenciados em seus poemas – ou ainda, em lugares que dialogariam com suas paisagens poéticas. A idéia realmente não é nova: em 2001, uma iniciativa chamada “bookcrossing” foi constituída em diversos países – inclusive no Brasil – incentivando justamente a libertação dos livros da clausura de estantes empoeiradas para um frenético trânsito pelo mundo. O site BookCrossing estabeleceu uma comunidade entre participantes de 130 países que compartilham atualmente 5 milhões de livros abandonando-os em cafés, hotéis, bares ou outros lugares públicos, a espera de um novo leitor. No site, os participantes dão as coordenadas de onde cada livro foi deixado. É possível ver os livros recentemente abandonados e as avaliações dos leitores, além de conhecer os espaços em que a prática é freqüente. Não deixa de ser curioso observar que a tecnologia aqui não é uma ameaça aos tradicionais impressos, muito ao contrário: o livro é o objeto de desejo. Mas há alguns pontos evidentes sobre esta prática: teria o felizardo que encontra o livro abandonado, o altruísmo e a iniciativa necessários para dar continuidade à prática? Ou seu desejo de enriquecer suas estantes falaria mais alto? Ou ainda, isso seria realmente levado a sério?

 

Voltando para a idéia de Diniz, observam-se alguns pormenores: neste caso, é o próprio autor que em vez de simplesmente abandonar, insere literalmente o livro nas paisagens citadas, como um registro poético daquele lugar. Os lugares não são apenas ambientes onde há fluxos de pessoas, mas espaços que dialogam com os escritos. Sua práxis é a seguinte: primeiro, é necessário deixar a proposta muito bem clara em uma mensagem anexa nas primeiras páginas do livro: “quando você encontrar este livro não se preocupe em ir atrás de seu dono (...) ele foi deixado aqui para que você o encontre e leia; trata-se de um experimento poético em que você poderá ler este livro e deixá-lo em algum dos lugares citados nos poemas ou em novos lugares que estes poemas te remeterão. Peço que, se possível, simplesmente me envie referências do novo lugar onde ele será abandonado por você, pronto para novos caminhos”. Algo como “leia-me, eu não estou perdido, veja mensagem no interior do livro” em etiqueta na capa, também pode ser usado para desestimular a procura imediata ao possível dono do livro. O autor disponibiliza seu e-mail para envio de possíveis relatos de novos lugares em que o livro estaria. Partindo de seus poemas, há lugares como o Centro Cultural São Paulo, o trem suburbano para Mogi das Cruzes, o Edifício Parque Verde Mar e a Praia do Boqueirão em Santos, além do Aquário Municipal santista, para citar alguns pontos.

 

Na verdade, o que temos é uma estratégia para que o autor possa visualizar uma subjetividade espacial que surge a partir dos seus escritos, suplantando o espaço tangível com a intangibilidade da poesia. O livro, que conta com a apresentação de Sergio Alcides, dialoga em muitos momentos com o universo das coisas abandonadas na contemporaneidade e suas perdas propositais. Nada mais propício do que este experimento.

 

Para acessar ao site do BookCrossing (em inglês), acesse:http://www.bookcrossing.com . No Brasil, há uma iniciativa parecida chamadaLivro Livrehttp://www.livrolivre.art.br 

 

 

 

Fábio Oliveira Nunes