16/10/2008 Número de leitores: 782

Diálogo com Alfredo Fressia

Alfredo Fressia Ver Perfil

Por Alfredo Fressia


O poeta uruguaio Alfredo Fressia mora em São Paulo há 32 anos. Poliglota e tradutor dedica-se à difusão da poesia brasileira pela hispano-américa. Já traduziu Ana Cristina César, Drummond, Donizete Galvão, Cecília Meirelles e Ferreira Gullar, entre outros. Nessa entrevista exclusiva para o Cronópios ele fala de sua vinda para o Brasil, o contato com a poesia brasileira e particularidades sobre a tradução. De brinde ele nos mostra um texto que escreveu sobre suas traduções e um trecho de sua tradução para o castelhano do livro Poema Sujo, de Ferreira Gullar.

 

 

 

Lado A: Diálogo 

 

1. Pra começar, Alfredo, lembrei-me de que me falaram sobre você quando estive em Maldonado, no Uruguai. O Luis Pereira, da Secretaria de Cultura de lá, me disse que havia um poeta uruguaio muito bom vivendo em São Paulo. Se não me falha a memória me deu até um livro teu. Vou procurar. Mas, diga-me, o que o trouxe para São Paulo? Você veio viver na clandestinidade por aqui?

 

O Luis te deu um exemplar de Eclipse, meu livro do ano 2003 que justamente ele editou. Ele dirige em Maldonado as edições ?civiles iletrados?, assim, com minúscula. Esse livro foi muito importante para mim. Nele fiz uma reunião antológica de vários livros anteriores e fechei o volume com um poemário novo, propriamente chamado ?Eclipse?. O livro teve muita sorte. A edição uruguaia, que comemorava meus 30 anos de poesia (meu primeiro livro é de 1973, poucos meses antes do golpe, quando eu ainda morava em Montevidéu) é belíssima, um livro de capas negras e com as letras da capa também em negro, mas de textura diferente. É uma edição que impressiona. Foi feito por um grande artista gráfico uruguaio, dos melhores que conheço: Gustavo Wojciechowski. O livro teve certa repercussão no Continente, e a edição mexicana (Alforja/Conaculta, 2006) deu a ele mais difusão ainda. Aliás, essa edição mexicana é belíssima também, foi feita por María Luisa Passarge. Alforja é uma editora excelente, dirigida também por outro poeta, José Ángel Leyva. É um livro com sorte, com esse ?eclipse? no título, nascido sob boas estrelas.

 

O que me trouxe a São Paulo... Faz tantos anos, eu moro em São Paulo há 32 anos a esta altura. Não, não vim ?na clandestinidade?, mas se a tua pergunta aponta para um fugir de uma ditadura, então sim, eu não fui embora de Montevidéu por minha livre vontade, digamos. A ditadura me impedia de trabalhar, eu tinha feito Letras e era professor no ensino médio; era professor de Literatura e de Francês, assim, como coisas estanques, segundo era o costume nos velhos currículos uruguaios. Eu nunca fui um militante muito ativo, mas fui solidário com meus amigos, alguns eram colegas de estudos, muitos deles foram julgados e condenados por motivos políticos. Imagina, eu não iria me omitir, mas isso também se pagava caro. Eu tinha amigos brasileiros que tinham morado 24 anos no Uruguai. Eles voltaram ao Rio Grande depois do golpe, e eu decidi ir embora também, o Geisel começava uma pequena abertura, e vim com eles. Em São Paulo, os franceses me pediram que organizasse a biblioteca da Aliança Francesa, era 1976, e eu topei. Fiquei para sempre.

 

 

2. Você em algum lugar diz que tem horror da loquacidade de certa poesia latino-americana. Poderia nos dar alguns exemplos?

 

Sim, poderia, seria fácil encontrar um monte na obra do Neruda, por exemplo. E na contrapartida, poderia te citar obras poéticas como a do Vallejo, ou a do João Cabral. Mas prefiro aproveitar a tua pergunta para esclarecer algumas coisas. Existe uma estética que surge de uma grande economia verbal, mas existe também a estética do excesso, uma estética que se reencontra nos barrocos e nos neobarrocos (os bons, claro, que são poucos). Aliás, eu não vim ao mundo para ditar regras. Minha poesia também tem zonas muito discursivas, muito inspiradas, e eu gostaria que isso fosse reconhecido. Eu não nego essa estética loquaz, acho toda pesquisa legítima, o que eu digo é que me incomoda a acumulação de linguagem meramente denotativa, o trabalho sobre um idioma cinzento, um repetir o já dito. Eu mencionava nessa entrevista minhas aulas na Fundación para las Letras Mexicanas, cujo tema foi justamente ?Poesia e silêncio?. Pois bem, a primeira coisa que fizemos naquela ocasião foi revisar o Dicionário das Idéias Recebidas do Flaubert, para tomar consciência, rindo às vezes, desse idioma que já não diz mais nada, o idioma destinado a uma espécie de silêncio ruidoso, um silêncio barulhento, a linguagem gasta, impotente.

 

 

3. Sabemos que você acabou de traduzir para o castelhano o ?Poema Sujo? de Gullar. Qual sua relação com a poesia brasileira, com a poesia de Ferreira Gullar e por que a escolha deste livro em particular?

 

Vamos devagar, elétrico Edson. Eu tenho uma grande admiração por várias zonas da poesia do Gullar, a quem entrevistei para a imprensa uruguaia logo que voltou lá a democracia, tenho difundido a obra dele em países de língua espanhola (traduções para El País de Montevidéu, La Jornada do México, a bela revista de poesia Alforja também do México). Mas essa tradução de que você fala não foi uma ?escolha?, no sentido que eu sou um profissional, traduzo muito, e Gullar nesse sentido é um dos muitos poetas traduzidos. Eu traduzi Ana Cristina Cesar, Drummond ou até a Cecília Meireles ou alguns poemas do nosso querido Donizete Galvão, ou então em sentido contrário, tenho traduzido poetas mexicanos, uruguaios... Há duas décadas eu escrevo para a imprensa cultural hispano-americana, principalmente para El País de Montevidéu, eu já nem sei o que não traduzi, o que não difundi.

 

Em todo caso, para voltar ao Gullar, eu tenho neste momento dois livros dele saindo em espanhol, ambas traduções minhas. No México está saindo Animal transparente, em edições Alforja, tradução e prefácio meus. Em Buenos Aires saiu Poema sicio e En el vértigo del día. O primeiro fui traduzido por mim, o segundo por P. Vidal y M. Cámara, dois tradutores argentinos.

 

Em compensação, o que eu não faço é traduzir a mim mesmo. Tentei fazer com um livrinho meu em prosa, Destino: Rua Aurora e foi um sofrimento. Acabou dando em um livro maior, que saiu em Montevidéu sob o título Frontera móvil. E a tradução ficou ruinzinha.

 

 

4. Continuando, Alfredo, com meus acepipes, esbarramos numa questão crucial, caro para falantes, como nós, de línguas e culturas aparentemente parecidas, ou para usar suas palavras: línguas ?tan peligrosamente próximas como el portugués y el español?. Explicite, por favor, um pouco mais, sua concepção de tradução. Quando ela privilegia a materialidade do signo ou os aspectos semânticos e culturais de um texto? O tradutor deve trair por lealdade ao leitor? Se sim, e o autor, onde ficará? E a obra? Se puder aliar suas considerações com exemplos práticos de suas traduções ficaremos mais eletrizados ainda.

 

Você sabe que se trata de um equilíbrio muito delicado. Falo da tradução de poesia, claro, não da prosa. Em poesia o tradutor deve permanentemente ?harmonizar? os vários níveis de significado, criar um território na língua de chegada onde ajam tanto os aspectos fônicos, com seus significados implícitos, quanto o semântico, a sintaxe do discurso. É uma prova de fogo para o tradutor e para o poema. Em certo sentido, se pode afirmar que ?não é normal?. A poesia fui feita para ressoar na língua em que foi criada, a tradução é um ?pis-aller?, diriam os franceses. É uma tarefa indispensável, obviamente, mas que deverá lidar pacientemente com a perda. É por isso que os tradutores somos sempre ?traidores?. Eu digo isso, sim, que você menciona: nós tradutores traímos por lealdade ao leitor. A aliteração irremediavelmente perdida, a menção de uma planta, de um bicho, de um costume que não existem na língua-cultura de chegada, são perdas, sim, mas também têm um lado pedagógico, é o papel do tradutor como intérprete entre dois mundos, a função de ensinar, de frisar a diferença e não apagá-la. Isso é um erro freqüente na chamada ?transcriação?, quando o texto resultante é um poema do tradutor, esmeradíssimo sem dúvida, mas onde o poeta original fica abolido, ou quase.. Eu diria que sou um eclético, e ainda mais quando o poema será publicado de forma bilíngüe, é um alivio para a gente. Foi o caso agora do Poema sucio em Corregidor, Buenos Aires (mas não do livro Animal transparente, o de Alforja, México). Na edição argentina eu posso me permitir, sirva de exemplo, traduzir ?feb? por ?fuerza expedicionário brasileña?, porque a sigla, apropriada ao ritmo do poema, sem dúvida, teria deixado os leitores a ver navios, com a consternação de ter diante de si uma informação não digerível, digamos. Equilíbrio e jogo de cintura, são condições ?sine qua? não há tradução legível em poesia.

 

 

5. Outra questão que nos instiga, e que você toca no texto reproduzido nesta matéria, é sobre a relação entre letra de música e poema. Em um texto recente, aqui no Cronópios, o poeta e ensaísta Felipe Fortuna diz que os brasileiros insistem em aproximar códigos muito diferentes e que ?Em países de vasta e consolidada tradição literária, é impossível que o cancioneiro seja incluído no cânone dos poemas...?. Fale-nos um pouco mais sobre como você analisa esta questão. 

 

Pois é. É preciso admitir: letra é letra e poema é poema. O poema precisa criar sua pele fônica, sua(s) musiquinha(s), já a letra se apóia confortavelmente em melodias preexistentes, belíssimas tantas vezes. É o que eu conto nesse texto sobre traduções, quando tive de traduzir versos inteiros que só estavam aí para preencher um ou vários compassos. E olha que falo de um poeta, como Vinicius, mas flagrado na hora de redigir uma letra. É por isso que ele se permite coisas como o ?igual a como quando?, e outras pérolas, é dose. A mesma coisa acontece com letras de tango belíssimas, que postas sobre o papel, desprovidas da melodia, são a antípoda da poesia, são prosa com alguma rima dessas chatinhas. É assim. A gente não gosta de constatar isto, porque temos geralmente a ilusão de que devemos superar a dicotomia ?arte popular? contra ?arte culta?. Achamos que essa dicotomia é elitista, pelo menos antipática, gostamos de falar do rap, por exemplo, como uma forma de poesia. Minha geração, ao menos, tentou abolir essa dicotomia, a coisa tinha até implicações políticas, mas ela é um fato. É muito difícil achar um poema entre as letras da MPB, isto é, uma ?letra? que posta sobre o papel continue valendo (inclusive porque essa não é a sua finalidade, a letra é feita para ser cantada, não lida). Eu achei uma, entre as traduções que fiz para o show da Bethânia e da Omara Portuondo, é a letra de ?Cio da terra?. Quando vi aquilo escrito na tela primeiro e no papel depois, constatei que, por um milagre do Chico Buarque, o texto não desaba, esse sim era um poema. Mas entra no avaro capítulo das exceções...

 

 

 

Lado B: Texto 

 

A poeta T. Amy, avis rara da poesia uruguaia, com sua voz original e suntuosa, me contou que tem trabalhado em uma espécie de diário de suas traduções de poetas do Leste europeu. Esse instigante depoimento, porém, não veio a público, mas me deixou pensando nas dificuldades pelas quais passamos todos os tradutores de poesia, inclusive no caso das versões de duas línguas tão próximas, tão perigosamente próximas como o português e o espanhol.

Durante o ano de 2007, traduzi e fiz o prólogo de uma antologia de poemas de Ferreira Gullar que será publicada pelas edições Alforja do México. Ela se chama Animal transparente, título que tirei de um verso de Gullar em que ele/eu se define assim: ?a la luz presente/ soy sólo un animal/ transparente? (?Un instante?). No princípio, Gullar queria intitular o livro Traduzir-se, que é o nome de um poema que integra a série e que foi ?musicado? pelo cantor Raimundo Fagner. Os editores e eu sugerimos que pensasse melhor e, para resolver o impasse, acabei propondo esse título, que por fim agradou a todos. Hoje me alegra olhar o livro, com a foto do poeta na capa, sentado em uma cadeira ao lado de seu gato que dormia profundamente em outra cadeira idêntica. E que tudo apresente-se sob o título significativo: Animal transparente.

No final de 2007, as edições Corregidor de Buenos Aires propuseram a Gullar um livro que reuniria ? em edição bilingüe ? seus livros Poema sujo, de 1975 e Na vertigem do dia, de 1980. A editora tinha seus próprios tradutores, mas Gullar, sem dúvida entusiasmado pela tradução de Animal transparente, pediu que este cronista fosse pelo menos o tradutor de Poema sujo, que já ganhara uma versão em Madri e outra em Bogotá. O Poema sucio, que havia sido escrito durante o exílio do poeta em Buenos Aires, sairia pela primeira vez na cidade onde foi concebido.

Quando a publicação foi confirmada, Gullar me enviou um email no qual abordava alguns aspectos do Poema sucio, cuja tradução havia ficado sob minha incumbência. Dizia entre outras coisas: ?Há uma tradução, feita a dez mãos, na época em que eu estava em Buenos Aires e da qual participaram Vinicius de Moraes, eu, duas amigas, etc. Esse texto foi revisto mais tarde por um argentino, amigo de um amigo meu.?  Experiente, o poeta me perguntava se eu queria conhecer essa tradução, ou se preferia fazer tábula rasa e começar do zero. É claro que optaria sem vacilar pela segunda se Gullar não tivesse mencionado o nome de Vinicius. Era um texto (a essa altura ?digitado? por onze mãos, um arquivo de computador) onde, ao menos em alguns fragmentos, se uniam o trabalho de Gullar e o de Vinícius, dois poetas pelos quais sinto carinho e admiração. O leitor sabe que a tentação é mais humana que a prudência, de modo que aceitei conhecer essa primeira tradução.

Sem dúvida, esse mutante e errático trabalho, feito de fragmentos, habilidades e sensibilidades diferentes, formava um campo minado que me forçou a ficar duplamente alerta para não cair em ciladas previsíveis e em outras não tão previsíveis. Contudo, no final das contas, não me arrependi de minha imprudência. Me diverti em alguns momentos tentando adivinhar até onde chegava o trabalho de um tradutor, quando o excesso de distrações denunciava o cansaço, a partir de onde começava o trabalho de um ou de outro, e quais fragmentos poderiam ser atribuídos a meu querido Vinicius. Era uma espécie de crítica genética em chave fantástica e para meu uso pessoal.

Meu trabalho resultou em uma tradução que deve vir à luz neste segundo semestre de 2008, certamente diferente daquele pré-texto multicéfalo, além de ser feito em sintonia de critérios com a tradução de Paloma Vidal e Mario Cámara, os tradutores argentinos de En el vértigo del día. Do português visceral e afetuoso, nordestino, cheio da fauna, da flora, da vida de São Luís do Maranhão, esse idioma que cria frequentemente certo estranhamento no leitor brasileiro dos grandes centros urbanos, me esforcei para vertê-lo em um castelhano rioplatense, também de origem popular, e que deveria por vezes reproduzir esse estranhamento original. É o que espero, o que nós tradutores sempre esperamos: ser bons intérpretes entre duas culturas, intermediá-las recriando uma aventura estética, enfrentar com elegância as perdas e, já que conhecidamente somos traidores, pelo menos trair sempre por lealdade ao leitor.

Em conclusão, no final de 2007, a produção da cantora Maria Bethânia me pediu a versão em espanhol de algumas canções brasileiras que seriam cantadas pela cubana Omara Portuondo no show em que ambas apresentariam o disco e o DVD que haviam gravado no ano anterior. Eram canções de Vinicius ? sempre ele ?, Chico Buarque, Milton Nascimento, e outros. As dificuldades que tive para traduzir essas canções me confirmam estas duas verdades gerais: de um lado, quanto melhor é um poeta, mais fácil, ou menos trabalhoso é traduzi-lo; e por outro, letra é letra, e poema é poema, e não devem ser confundidos nem quando uma letra foi criada por um poeta. Uma amostra disso foi a canção ?Gente humilde? de Garoto, Vinicius e Chico Buarque. Nessa canção um viajante diz que anda em trens de subúrbio e que se comove com a humildade das pessoas, das casas, dos jardins. A música é belíssima, mas há versos inteiros que só podem ter sido feitos para completar um compasso, como ?porque parece que acontece de repente?, ou o ?Igual a como quando? de ?Igual a como quando eu passo no subúrbio/ Eu muito bem, vindo de trem, de algum lugar?. O primeiro, na versão que cantou Portuondo, tornou-se ?una congoja que me inunda de repente?, e o segundo se transformou em: ?Lo mismo ocurre cuando paso em los subúrbios,/ ensimismado llego en tren de algún lugar?. São licenças que a poesia não permitiria, mas que uma letra, ainda que feita por poetas, pede com veemência. E escolhe-se, sem vacilar, o rigor da primeira.

 

                                 [Traição cometida por Edson Cruz, a pedido do Autor]

 

 

 

 

 
Extras:

 

POEMA SUCIO - Ferreira Gullar

 

Traducción de Alfredo Fressia (trechos)

 

 

 

 

                            turbio turbio

                            la turbia

                            mano del soplo

                            contra el muro

                            oscuro

                            menos menos

                            menos que oscuro

menos que blando y duro menos que foso y muro: menos que puro

                            oscuro

                            más que oscuro:

                            claro

¿como agua? ¿como pluma? claro más que claro claro: cosa alguna

                            y todo

                            (o casi)

un animal que el universo fabrica y viene soñando desde las entrañas

                            azul

                            era el gato

                            azul

                            era el gallo

                            azul

                            era el caballo

                            azul

                            tu culo

tu encía igual a tu concha que parecía sonreír entre las hojas de banana entre los olores de flor y bosta de chancho abierta como una boca del cuerpo (no como tu boca de palabras) como una entrada hacia

                            yo no sabía vos

                                                                           no sabías

                                                                           hacer girar la vida

                                      con su montón de estrellas y océanos

                                                                           entrándonos en vos

 

                            bella bella

                            más que bella

                            pero ¿cómo era el nombre de ella?

                            No era Helena ni Vera

                            ni Nara ni Gabriela

                            ni Teresa ni María

                            Su nombre su nombre era?

                            Se perdió en la carne fría

se perdió en la confusión de tanta noche y tanto día

se perdió en la profusión de las cosas ocurridas

                            constelaciones de alfabeto

                            noches escritas a tiza

                            confites de cumpleaños

                            domingos de fútbol

                            entierros corsos mítines

                            ruleta billar barajas

cambió de cara y de pelo cambió de ojos y risas cambió de casa y de tiempo: pero está conmigo está

                            perdido conmigo

                            está

                            tu nombre

                            en algún cajón

 

¿Qué importa un nombre a esta hora del anochecer en São Luís do Maranhão en la mesa del comedor bajo una luz de fiebre entre hermanos y padres dentro de un enigma?                                                                                pero qué importa un nombre

debajo de este techo de tejas mugrientas vigas a la vista entre sillas y mesa entre una cristalera y un armario ante tenedores y cuchillos y platos de loza que se rompieron ya

                   un plato de loza ordinaria no dura mucho

                   y los cuchillos se pierden y los tenedores

                   se pierden por la vida caen

                   por las grietas de las baldosas van a convivir con ratas

y cucarachas o se herrumbran en la huerta olvidados entre las plantas de hierbabuena y entre las gruesas orejas de la menta

                   cuánta cosa se pierde

                   en esta vida

                   Como se perdió lo que ellos allí decían

                   masticando

                   mezclando porotos con harina y pedazos de carne asada y decían cosas tan reales como el mantel bordado

o la tos de la tía en el cuarto

y el resplandor del sol muriendo en la baranda frente a nuestra ventana

                   tan reales que

                   se borraron para siempre

                                                    ¿O no?

 

No sé de qué tejido está hecha mi carne y este vértigo que me arrastra por avenidas y vaginas entre olores de gas y orina consumiéndome como una antorcha-cuerpo sin llama,

                                               o dentro de un ómnibus

                                               o en el vientre de un Boeing 707 sobre el Atlántico

sobre el arco-iris

                                               perfectamente fuera

                                               del rigor cronológico

                                               soñando

Tenedores herrumbrados cuchillos ciegos sillas agujereadas mesas gastadas mostradores de almacén piedras de la calle de los Placeres casas de cornisas cubiertas de limo muros de musgos palabras dichas a la mesa del comedor,

                                               voláis conmigo

                                               sobre continentes e mares

 

Y también reptáis conmigo

                                               por los túneles de las noches clandestinas

                                               bajo el cielo estrellado del país

                                               entre fulgor y lepra

bajo sábanas de barro y de terror

                                               os escabullís conmigo, mesas viejas,

armarios obsoletos cajones perfumados de pasado,

                                               dobláis conmigo las esquinas del susto

                                               y esperáis esperáis

que llegue el día

                                               Y después de tanto

                                               ¿qué importa un nombre?

Te cubro de flor, muchacha, y te doy todos los nombres del mundo:

                                               te llamo aurora

                                               te llamo agua

te descubro en las piedras de colores en las artistas de cine

                                               en las apariciones del sueño

 

                                               -¡Y esta mujer tosiendo dentro de casa!

Como si no bastara el poco dinero, la lámpara débil, el perfume ordinario, el amor escaso, las goteras en invierno. Y las hormigas brotando por millones negras como vomitadas desde adentro de la pared (como si eso fuera la esencia de la casa)

Y todos buscaban

                            en una sonrisa en un gesto

                            en las charlas de esquina

                            en el coito en pie en la vereda oscura del Cuartel

                            en el adulterio

                            en el robo

                            el descifrado del enigma

 

                            - ¿Qué hago entre cosas?

                            - ¿De qué me defiendo?


 

 

Alfredo Fressia nasceu em Montevidéu, Uruguai. É poeta e tradutor, autor de livros como Cuarenta poemas (Ediciones de UNO. Montevideo. 1989), Frontera móvil (Ediciones Aymara. Montevideo. 1997), Amores impares (Colagem sobre textos de 9 poetas, Ediciones Aymara. Montevideo. 1998) e Veloz eternidad (Vintén Editor. Montevideo. 1999). Residindo no Brasil há algumas décadas, tem sido freqüente colaborador do suplemento cultural do jornal El País, no Uruguai, entre outros. E-mail: alfress@uol.com.br

Alfredo Fressia