23/02/2009 Número de leitores: 233

É Carnaval!

Bráulio Tavares Ver Perfil

Por Bráulio Tavares



Lá vem de novo essa história de carnaval fora de época, micarande, micaroa, carnatal, recifolia. Não vejo graça nessas festas, e me desculpem os amigos que não sabem passar sem elas. Para certas coisas na vida, sou um conservador incorrigível. Não por simples saudade do passado, mas porque o que era festa amadorística virou indústria, e em alguns casos virou gangsterismo econômico, que ao que parece é o destino final de toda indústria na casa-de-mãe-joana que é este país. Criou-se um conceito de Carnaval onde você se diverte, mas paga caro por isto.

Carnaval pra mim é bagunça, é surrealismo do cotidiano, é happening dadaísta. Respeito mas dispenso aquele show-da-churrascaria-Plataforma que virou o desfile das Escolas de Samba. Não gosto de festinha fechada a céu aberto, com cachê, crachá e cordão de isolamento. Carnaval de trio é o velho carnaval dos Clubes aristocráticos invadindo a coitada da rua, já que os clubes vivem às moscas. O pessoal endinheirado fecha a rua e sai brincando, e se pobre chegar perto tem os seguranças para afugentar. Isso não é carnaval fora de época, é uma festa fora de si.

Quando meus pais já estavam velhos, com os filhos todos criados e morando fora, o carnaval deles se resumia a uma tocaia solerte. Meu pai ficava lendo no terraço, minha mãe na cozinha administrando as coisas. De vez em quando parava um carro e um amigo deles subia a escada até o terraço, para um dedo de prosa. Minha mãe vinha, havia aquela troca de cumprimentos, ficavam por ali, jogando conversa fora. Meu pai perguntava: ?E tu, Fulano, tás brincando?? Quando o incauto respondia que sim, sua sorte estava selada. Meu pai fazia um sinal imperceptível, minha mãe pedia licença e ia lá dentro. O papo prosseguia, sobre assuntos variados, até que Mãe vinha lá da cozinha, às vezes ajudada pela empregada, trazendo um enorme caldeirãode-fazer-buchada cheio dágua, que era despejado sobre a cabeça do visitante. O sujeito quase enfartava do susto, ficava tirando água dos olhos, apalpando o cigarro, a carteira e as roupas empapadas, enquanto Dona Cleuza e Seu Nilo se abraçavam com ele, pulando, às gargalhadas: ?É Carnaval! É Carnaval!?

Carnaval é bagunça. Um dos melhores carnavais que já brinquei foi o de Olinda entre 1978-1983, quando a cidade ainda não tinha virado um imenso mictório com orquestra. Era o tempo em que a gente fazia um bloco com dez violões e duzentas latas vazias, e brincava três dias sem parar. O cara podia se fantasiar de índio peruano e passar o carnaval inteiro batendo num tambor inaudível pendurado ao pescoço. Ou então se vestir de mulher, sair pra tomar cachaça, e dois dias depois perceber que ainda estava com a mesma roupa. Ou então pegar um coco-verde, começar a jogar bola com outros bêbos, e vir driblando a multidão da Rua do Amparo até a Praça do Jacaré, ida e volta, a noite toda, sem que ninguém me tomasse a bola. Não me perguntem como, nem por quê. É Carnaval.

 

 

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O mela-mela do Corso

Acho que para as gerações mais novas o título acima é em código, mas para o pessoal da minha idade deve fazer soar um sinozinho de reconhecimento. Quando leio algo sobre a história do Rio de Janeiro e me deparo com termos como ?o zé-pereira?, ?o entrudo?, e outros, fico pensando nessas épocas pré-históricas do Carnaval, e aí me toco de que vivi épocas igualmente paleolíticas.

Vou contar como era. A Crise do Petróleo aconteceu no começo da década de 1970, quando os países árabes pela primeira vez perceberam que eram donos da maior fonte de energia do planeta, e que podiam muito bem chantagear nações mais poderosas como, na época, os EUA e a União Soviética. Levaram preço do petróleo às nuvens, e o mundo se apavorou. Até então, gasolina era quase o preço de água da bica, e entre os efeitos colaterais mais interessantes dessa situação estava o Corso (que a Crise do Petróleo extinguiu).

No Carnaval, todo mundo arrumava um carro (de preferência um jipe velho), enchia de amigos, botava apitos estridentes no cano de escape, e ficava rodando num ?loop?. A fila de carros descia pela Floriano Peixoto rumo à Maciel Pinheiro, virando à direita na esquina da Associação Comercial. Quando chegavam no fim da Maciel Pinheiro, naquele larguinho onde se tem à direita o Chope do Alemão, viravam à esquerda, subindo até a lateral do Edifício Rique, onde se virava novamente à esquerda, pegando a Marquês do Herval, passando em frente ao Alfredo Dantas, rodeando a Praça da Bandeira para pegar novamente a Floriano Peixoto, rumo à Catedral. Ao subir ali pela parte de trás da Prefeitura (o antigo ?Grande Hotel?), no entanto, pegava-se à direita a Afonso Campos, até passar por trás da Catedral, subir à esquerda e pegar novamente a Floriano Peixoto, para voltar a descer rumo à Maciel Pinheiro.

Havia mudanças, claro, de ano para ano, mas o importante é que levava-se cerca de uma hora, uma hora e meia para dar uma volta completa. Os carros esbarravam-se o tempo todo, daí o costume de comprar pneus velhos e amarrá-los à frente e atrás. Buzinava-se, cantava-se a plenos pulmões, batia-se em tamborins. E o melhor de tudo era o ?mela-mela?, porque o objetivo desse carrossel de bêbos era melar quem estava nas calçadas e nas janelas vendo o desfile, e ser melado por eles. No carnaval de 1972 pegamos um panelão de buchada, descemos com o jipe pela Feira, derramando dentro do panelão tudo que encontrávamos. Litros de mel de abelha e mel de rapadura, maizena, água, tubos e mais tubos de pasta de dentes, brilhantina, sorvete, farinha de trigo, maionese, leite condensado... Depois de cheio, o panelão continha uma massa pastosa com a qual untávamos meia Campina Grande. Só saía com sabão-de-coco e caco-de-telha, e às vezes durava até a Semana Santa. O cabelo, bem, esse ia embora na Quarta-feira de Cinzas.

E cinzas foi o que ficou disto tudo, mas que adubo melhor do que cinzas, para fertilizar a imaginação?

 


 

 

Bráulio Tavares é escritor, roteirista e compositor. Compilou a primeira bibliografia do gênero: o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional). Autor de ?A Espinha Dorsal da Memória?, ?A Máquina Voadora? e ?Anjo Exterminador? (todos pela Rocco). Organizou as antologias ?Freud e o Estranho?, ?Contos Fantásticos no Labirinto de Borges? e ?Páginas de Sombra?; (todos pela editora Casa da Palavra).
E-mail:
btavares13@terra.com.br



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Bráulio Tavares