COMO
OS CRONÓPIOS PASSAM O NATAL?
UMA HOMENAGEM A HISTÓRIA DE CRONÓPIOS
E FAMAS (CORTÁZAR)
por
Ana Guimarães

Arrasto a bolsa por cima dos cartões de Natal,
espalhando-os no tapete. Nanda ri: Filha de cronópio...
Acabo de derrubar a caixa de enfeites da árvore, bolas quebradas
por todo canto. Corre
um fama a corrigir o estrago, catando-os um a um. Cronópio? É,
mas não sou verde. Úmida ? Já fui mais, o tempo
inteiro . Adoro cantar e recitar versos. Nada pragmática,
embora não chegue ao extremo de dar um nó num fio de
cabelo arrancado, jogá-lo no buraco da pia, abrir a torneira
e depois tentar recuperá-lo a qualquer preço: tudo
isso só para lutar contra o utilitarismo que rege a sociedade.
Creio que do que mais gosto é de exercer a liberdade que
volta e meia recupero. A de sonhar. De manhã quando levanto
e lavo o rosto, acredito que um urso, vivendo em semi-exclusão
social , sai do cano só para me acariciar e me lamber o nariz
, para me dar bom dia. Vivo no mundo da lua.
Perco chaves, dinheiro trocado, guarda-chuva, papéis. Cadê aquele
conto que eu estava escrevendo com tanta dificuldade? ( Gosto mais
de fazer do que de contar ) Quase acabado, e agora ... Nada. Só esses
textos em romeno, que confusão ! Começar de novo.
Nenhuma esperança deslizando no ar. O jeito é banhar
e perfumar as lembranças que andam soltas pela casa nessa época
do ano, batendo portas e janelas . Nem preciso de instruções
para chorar, molho com lágrimas o sanduíche entregue:
meu preferido, de queijo, trocado por esse de presunto. O relógio
atrasa, atrasa. Eu junto. Se fosse um fama, já teria feito
a lista de presentes. Deixo tudo pra última hora, ou nem
isso. Teria que trabalhar no governo ou numa casa de câmbio
para pagar por todos eles. Os shoppings estão cheios, filas,
não há estacionamento na cidade, os táxis
exorbitam com a bandeira dois, mas tudo bem. Papai Noel, pinheiro,
boneco de neve, renas. Argh! Que horrível mau gosto! Peça
desculpas, ou saia imediatamente, responde um fama. Permaneço
em silêncio. Ameaça: Ajude aqui e perdoarei a grosseria.
Mas não tenho paciência para trinchar carnes, com
ou sem faca elétrica. Desajeitada, corto o dedo. O sangue
escorre na ave. Só penso em como esse peru morreu. Quero comer
a sobremesa antes da ceia, um coro de famas diz não. Lambo
o dedo passado na baba de moça, amarelo rajado de vermelho,
agora. NÃO ! Começo a abrir meu presente antes
da hora.
NÃO ! Ponho Bono Vox bem alto, em vez de Jingle Bell. NÃO
! Se pudesse os faria sentar naquele sofá pra morrer, aquele
com a estrelinha prateada no meio do encosto. Olho a parede, e esqueço.
Quase meia-noite, formigas banqueteiam na cozinha. Encaminho-me
para a área de serviço, abro a tábua e passo
o Natal .
Ana Guimarães é carioca, psicanalista
da IPB http://www.interseccaopsicanalitica.com.br/ E-mail anaerguimaraes@terra.com.br
http://www.secrel.com.br/jpoesia/anaguimaraes.html
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