FILHA
DE UMA PUTA VIRGEM SOB A MIRA DE UMA CRISTA-DE-GALO EM ECLOSÃO
por
Caco Ishak
Não entendeu nada quando viu a pequena entrar pelo portão
principal daquele jeito como fazia tanto não a via, toda borrada
de vermelho, pichada de vermelho e toda picada, carcomida pelas beiradas,
miolo cuspido tão fora da órbita dos olhos mastigados
em nome da santa fé em uns cacarecos a mais, talvez, talvez
já gastos traquéia abaixo ou da fé já em
porra nenhuma, que ao cruzar a nave desguedelhada tombou três
vezes até cair por definitivo rodopiando em sua batina de encontro
aos pés do cristo ainda menino jazido sobre o altar. Ela que,
ainda menina, havia se reconhecido em pormenores de todas as leituras
feitas das fotos das manchetes dos jornais amontoados sobre a falta
de querência de uma manhã anterior, que falava com os
anjos em línguas que não sabia serem dela ou deles próprios
ou de um torpor condicionado ao pânico de continuar hablando
en tu lengua, mi corazón, mas paga adiantado senão não
rola nem a labirintite da cheirada em teu cangote em vê, que
não se reconhecia em frases feitas do passado mas que logo
se abrandou na acidez de um peagá máximo e absoluto
daquele que foi o cálice em que todos cuspiram seus colostros
e que, finalmente, antes que o nunca lhe parecesse tarde demais, chegou-lhe
a ser num entardecer mormacento a redenção, palavra
besta, de seus roteiros inadequados. Ela. Deus me perdoe. Filha de
uma puta virgem. Não era amor o que sentia? O que fazia, então,
ali estirada se afrouxando em risos que lhe escorriam babugem boca
abaixo para entre soluços ser sorvido o susto do abismo e,
como que salvaguardando lapsos de uma memória em sua quase
totalidade perdida, apalpar ora a palha seca da manjedoura ora a secura
inerte de uma dor personificada no trato morno da homilia prosseguida
aos trancos quando dele somente esperavam a postura condigna de um
sacerdote perante dias a fio de novenas natalinas entoando cânticos
de louvor às siriricas não batidas por uma multidão
de fiéis em colapso consensual iminente. Em plena missa do
galo, louvado seja, um despautério. Que insistia em pender-se
no ar. Não era amor o que sentia, o que vinha procurar? Ela.
Filha de uma puta virgem. Que de tanto se embebedar com o sangue sobrado
das missas do bom pastor e solavancar seus pecados em nome de um tal
diabo confirmado na graça de paixões baratas e sem pudores
de destroçar pescoços e outros dúcteis fracionados,
tantas vírgulas e se roçando, pós-passada a um
sem número de abrigos e proveniências desde o primeiro
dos pentelhos insurgidos na face, fez-se gloriosa e concebida sem
entraves para proclamar as verdades e espúrias de um espírito
inquieto e santo e procrastinado em seu viver. Filha de uma puta virgem.
Ela, que se quis parecer com a mãe. Deusmeperdoe-lhe, a todos.
Mas, sob a custódia de um tal livre-arbítrio, não
pôde deixar de interferir designando-lhe os versículos
não lidos referentes aos não-atos e omissões
e a um certo quê de recalque desprovido de cachoeiras, desparafusando-se
e ressuscitando ao terceiro copo de vinho nos rumos estabelecidos
pelo divã improvisado aos pés um tanto deslocados da
cruz, o mesmo em que então se esmorecia a pequena para depois
se reanimar em ditongos decrescentes e romper novamente em espasmos
de uma confissão à moda antiga ao sabor intragável
que despelava o céu da boca e as vias aéreas e os alvéolos
do padreco chacoalhado pela beata que àquela altura já havia
reprimido um purgatório de orgasmos (por pouco não se
converteu ao chegar em casa e se dar conta da gota ainda úmida
impressa na calçola) enquanto ele nada fazia. Filha de uma
puta virgem. Não era amor o que sentia, o que vinha procurar,
que me prometia aos pés da cama? Quis se parecer com a mãe,
a audaciosa, fudeu com as profecias. Montada nos joelhos da imagem
por conta da originalidade parca de um enfant terriblé recém-nascido,
foi cobrar o cabaço que nunca lhe pertencera por direito algum
que jamais tivera senão pela pensão ora reivindicada
em proveito próprio ou de uma admoestação terceira,
talvez a da menina que teimava em crescer. O último gole. Saliva
a seco. Virgem sim, ô caralho, e só atesto a paternidade
depois que me comer sem a batina.
Caco Ishak não poderá passar a décima quarta
armação natalina de sua vida ao lado de sua única
filha lá pras bandas de onde, dizem, o menino nasceu e está compreensivelmente
revoltado por conta disso. Seus chiliques também podem ser
lidos em seu blog ¡c¡ao!¡cret¡n¡! |