NATAL
por
Tony Monti
Não gosto de Natal. Tudo meio triste,
tudo muito parado. Não gosto dessas grandes paradas, tudo pára,
a padaria fecha, as pessoas se fecham. Não gosto também
de feriado, nem de fim de semana, nem dessas horas em que todo mundo
pára junto. À força, de um jeito só. Se
parassem juntos mesmo, mas param juntos separados. Seria religioso
pararmos juntos. Sou muito religioso. Cada um compra suas coisinhas
numa loja. Lojas diferentes, presentes diferentes, sentimentos diferentes.
E uns indiferentes. Eu não gosto.
Gosto só porque alguns amigos gostam. De fim de semana, às
vezes eu gosto muito. Eu queria poder ir para a Avenida Paulista,
andar na calçada, tomar uma cerveja, encontrar os amigos e
não ver as luzinhas piscando. Natal é triste porque é a
evidência da solidão para os que são sós.
Sem festa, sem árvores, sem presentes, sem musiquinhas, sem
presépio. A não ser que você queira.
Feliz Natal, ainda assim, se você quer um. Seja feliz. Se você fica
feliz em ouvir Feliz Natal : Feliz Natal. Porque se você quer,
não tenho algo definitivamente contra os desejos de boas festas.
Feliz Natal, e que é que isso vai mudar? E se você não
quiser meus votos, fico quietinho e desejo as felicidades só,
e te deixo saber que também eu não gosto de Natal. Não
gostaremos, juntos, de Natal.
E tem mais, meus votos de felicidades, falsos assim, de que é que
valem? Se eu desejar, você vai ficar feliz numa mágica?
Eu desejo aqui, você fica feliz aí. É assim que
quero, meu amigo. Na base da mágica. Não acredito em
Natal mas acredito em mágica. E , mesmo sem mágica,
porque gosto de você, gostaria que você soubesse que,
se houvesse mágica, desejaria a você e produziria num
truque a sua felicidade num Natal em que não acredito. Se saber
disso vale alguma coisa, meu amigo, Feliz Natal. Não pelo Natal.
Pelo feliz e por você.
Tony Monti é autor d'O Mentiroso (7 Letras,
2003) e escreve em seu blog que
muda de nome todo dia.
|