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em Inéditos

15/11/2007 15:18:00

Joaninhas & abóboras




Autora: Madalena Barranco


- Toc tic toc! Tuc tic tuc!

Joaninha tinha sono leve e aquelas batidas na porta foram o suficiente para acordá-la antes da hora. Mesmo assim, a menina de dez anos cobriu a cabeça e tentou dormir de novo.

- Toc tic toc! Tuc tic tuc!

- Não estou! Respondeu Joaninha, que já perdera o sono. E quando ia abrir a porta fazendo uma careta de brava, ouviu uma voz triste que vinha do lado de fora da janela. Joaninha vestiu seu casaco vermelho com bolinhas e sentiu que se transformava numa super-heroína prestes a desvendar o mistério do “toc tic tuc”. A menina deslizou até a vidraça e nada viu, nem mesmo o “fantasma da abobrinha”, que uma amiga lhe garantira que existia na despensa da cantina escolar.

- Snif, snif. A voz triste se transformou em choro.

A menina pegou a lupa que usava na aula de ciências e examinou a janela até descobrir a chorona. Primeiro, viu duas antenas com bolinhas nas pontas saindo de uma cabecinha redonda com dois olhos minúsculos que a observavam assustada. Joaninha, enternecida, abriu a janela e convidou a simpática criatura a entrar. Ela aceitou, pois ao ver que a menina usava um casaco quase igual ao dela, achou que poderia confiar – afinal, a roupa da menina era vermelha com pintinhas pretas e a dela, era cor de abóbora e também tinha pintinhas pretas.

- Quem sabe não foi minha mãe, que costurou o casaco para essa menina também? Pensou a frágil criatura com antenas, enquanto pousava numa almofada branca com fitas azuis.

- Quem é você? Perguntou a menina Joaninha à sua nova amiga, enquanto se aproximava dela com a lupa nas mãos para enxergá-la melhor.

- Meu nome é Joaninha. E o seu? Disse a criatura.

- Seu nome é igual ao meu! Respondeu a menina num grito abafado.

- Menina, eu me chamo Joaninha, sim, e há algo mais que preciso lhe contar. Eu também sou uma joaninha! Oh, sou um inseto...

- Você quer me enrolar? Eu sei o que é ser uma joaninha – eu li várias histórias sobre joaninhas escritas pela dona Fantasia em alguns livros e também, posso perguntar à professora de ciências sobre esse tipo de inseto... Só que você é cor de abóbora! E as joaninhas dos livros usam casacos vermelhos com bolinhas pretas.

A frágil criatura recolheu a tristeza embaixo das asas e com a voz novamente engasgada pela rejeição, resolveu confessar à outra Joaninha seu segredo. Com as antenas caídas, iniciou sua história:

- Eu era linda e vermelha – mamãe sempre costurou os casacos nas minhas costas para que eu não os perdesse. Eu sou muito distraída e sempre esqueço o casaco...

- Não mude de assunto. Continue. Ordenou a menina.

- Está bem. Mas só falo porque acho que somos muito parecidas e porque você conhece a dona Fantasia. Resmungou a criatura. – Não é de hoje que eu venho à sua casa. E a joaninha remexeu-se na almofada cruzando quatro das suas outras pernas. – Eu adoro doce de abóbora. Sempre que sua mãe faz o doce eu entro pelas janelas que estão abertas e como um pouquinho.

- Ah! Bem que minha mãe reclamou o outro dia achando que eu tinha mexido em suas panelas! Interrompeu a menina. – Mas fale!

- Aí, eu fui mudando de cor! Depois que passei a comer o doce de abóbora de sua mãe sem pedir permissão, comecei a desbotar. E hoje eu senti o cheiro vindo da cozinha e não consegui entrar, por isso bati na sua janela. – Será que você seria tão bondosa e me daria um pratinho de doce? – Eu não consigo mais viver sem essa delícia. Disse a joaninha com as antenas enroladas.

A menina ficou em dúvida, mas depois concordou, com a seguinte condição:

- Você deve aprender a pedir o doce em vez de furtá-lo. Para isso terá que pedir desculpas à minha mãe. Disse a menina Joaninha, com a certeza de que a sinceridade é o que conta numa amizade.

A joaninha, que estava quase virando uma miniatura de abóbora, depois de cruzar e descruzar todas as suas pernas de uma vez só e ajeitar as antenas, aceitou a proposta. Elas foram até a cozinha e a menina Joaninha, representando a outra joaninha, contou tudo à mãe. Dona Joana sorriu sem acreditar na filha, porque joaninhas de verdade não falavam e também não comiam doce de abóbora, porém, mesmo assim, aceitou entrar na brincadeira e perdoou o acontecido. A mãe deu até um pratinho de doce para a filha oferecer à sua fantástica amiga.

- Hum! Obrigada menina, pela lição saborosa. Disse a joaninha com a boca cheia de doce, reclinada sobre a almofada de fitas azuis. Quando a criatura terminou de comer, a menina deu um grito de alegria:

- Você voltou a ficar vermelha – veja seu casaco no espelho!

A joaninha recuperou sua cor original depois que falou a verdade. E a menina Joaninha ganhou mais uma querida amiga, que tinha tudo a ver com ela – apesar da grande diferença de tamanho que havia entre elas. Porém, isso não lhes importava diante da amizade verdadeira entre duas Joaninhas, que voavam pelo reino da dona Fantasia transformando doces de abóbora em histórias encantadas.





Da série: Fantasia & Alegria

Registro na FBN/EDA








Madalena Barranco é paulistana, graduada em Letras, tradutora de espanhol, escreve prosa & poesia, temperadas com cores & aromas ecológicos para os leitores dos 8 aos 108 anos. Com a literatura, explora o resgate da magia pessoal - a ficção que liga a fantasia à realidade. Publica em seu site http://www.literatura.webhop.net  e blog http://www.flordemorango.blogspot.com



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