autora: Jane Sprenger Bodnar
As drosófilas ganharam importância nestes últimos dias aqui em casa, digo, aqui neste apartamento de 15º andar, no frio outono desta cidade.
As sonsas mosquinhas eram procuradas impiedosamente, como animais raros...
Já viu, frio, 15º, não é mesmo o habitat natural delas. Nem em volta da fruteira, nem deixando o caqui apodrecer elas apareciam. Era uma ou outra e olhe lá!.... Até no meu sonho desta noite tentei pegar uma.
Tudo começou num domingo, pouco antes de um almoço em família.
Uma pequena aranha branca aparece sobre a mesa da cozinha e imediatamente vai para dentro de um pote plástico, graças à agilidade capturante do avô de Luísa.
Pronto! Virou presente, um perfeito objeto de estudo para a neta, afinal Luísa levanta cedinho aos sábados para fazer cursos sobre morcegos, serpentes, aranhas e outros seres injustiçados do reino animal.
O objeto de estudo, inicialmente classificado por ela como “aranha albina”, ou “possível filhote de armadeira”, ganha o nome de Aracna e vira bichinho de estimação...
A tampa de plástico é trocada por um teto de tule, um pedaço de planta passa a decorar o pequeno ambiente e mais a comidinha...claro, moscas!
E bem vivas, já que como predadora voraz gosta de preparar suas próprias refeições, ou seja, gosta de acabar ela mesma com a presa, segurando-a com as patas, comendo asas, abdômen e só dispensando a cabeça.
Aracna escapou uma vez, mas foi logo descoberta ao lado de um chinelo. Teve que voltar aos seus aposentos e continuar a tecer sua teia e um novo plano de fuga.
Hoje de manhã, quando Luísa foi lhe dizer “olá”, cadê ela?
Estava bem escondidinha em uma borda do pote, mas foi dada como desaparecida!
Um tempo depois, revirando o pote e olhando melhor aqui e ali, viu que a aranha tinha caído dentro de sua caneca de café, bem quentinho por sinal.
Cuidadosamente retirou-a do líquido, tentou esticar suas patinhas, soprou e soprou para secar o minúsculo emaranhado que se tornara sua amiga e tentar devolver-lhe a forma original.
Lágrimas. Nem deu tempo de chegar o próximo sábado para apresentar Aracna aos colegas de curso.
As drosófilas, como que sabendo do terrível afogamento resolveram dar o ar da graça...
Duas na fruteira, outra no azulejo do banheiro...
Jane Sprenger Bodnar nasceu em Curitiba, em 31/10/63. Formou-se em Comunicação Visual, mas atualmente é aprendiz de chocolate e gostaria de tornar-se sweet designer. Algumas participações em antologias poéticas e jornais literários; no ciberespaço, revista germina e o site escritoras suicidas. Co-autora do objeto-poético Homeopoética (poemas em cápsulas / Casulo Provisório Edições). Para sua filha - talvez seu melhor haicai, mas que agora está mais para mangás e animes - escreveu “Luísa Cuidadora de Planetas” (edição de autor/2003).